A sexualidade é assunto batido nesta juventude. A descoberta do próprio corpo já não é tão descoberta assim, temos aulas de sexualidade na escola, e na Tevê nos ensinam que “cada um tem seu momento para perder a virgindade” e como o sexo pode trazer doenças sérias e coisas do tipo. Vemos as mães nas novelinhas levando as filhas ao ginecologista antes de transarem. E nos comerciais – nesta época de carnaval sobretudo – nos dizem que não podemos transar com qualquer um, não sem camisinha.
Sabemos sobre a repressão sexual vivida em outros tempos, e sabemos também que essa “liberdade sexual imposta” está longe do ideal.
Sobre o amor, nossas dúvidas vão além do que dizem Platão ou Freud. Gostaríamos de saber se ele existe, e não, não o sabemos. Não nos dizem, não nos explicam, não nos satisfazem o coração, o intelecto e a alma o que nos dizem.
E o que há para se aprender sobre as mulheres, ou como “ser homem” é como o problema da “salvação da alma”, cada um que se vire como achar melhor. Que encontre e entre pela porta estreita, que crie a sua própria porta, ou ainda, que se decida pela porta larga e espaçosa e assuma as conseqüências, seja lá o que descobrir ou fizer, é problema seu.
Observei essas coisas no meio em que vivo. Prestei atenção e coloquei em debate sempre que pude. Dizia sempre aos meus colegas sobre como não nos ensinam a sermos homens. Não se trata de pensar filosoficamente o homem, mas de uma orientação sobre a vida, um exemplo, alguma coisa que nos dissesse como evitar sofrimentos, frustrações, alguma coisa que nos mostrasse uma idéia válida de homem, talvez até de princípios a serem seguidos, de alguma coisa a ser fiel, não tínhamos a mínima idéia sobre nada disso.
Conversando tais coisas com uma garota certa vez, ela me disse que também não as ensinam como serem mulheres, mas que a vida enfia tal lição goela abaixo para elas. Isso me pareceu triste e até forte, decerto que gostaria de me inteirar mais sobre como crescem as meninas e de como elas se tornam mulheres. De qualquer modo, esse texto é sobre rapazes e como estes tentam ser homens, tentativa essa muitas vezes falha, de onde derivam muitas frustrações e até mesmo, feridas para toda uma vida, mas que servem de experiência e de aprendizado, invariavelmente.
Decidi por contar duas histórias que aconteceram com amigos meus. A primeira delas, é caso longo, de conseqüências para toda uma vida, cujos os impulsos desastrosos observei desde o principio. Trata-se de um amigo relativamente próximo, dos tempos de escola. Observei neste rapaz, desde quando nos conhecemos, um forte complexo de inferioridade, percebi que as inúmeras mentiras e histórias que contava a fim de exaltar sua personalidade, eram apenas sintomas de uma triste realidade interior.
Este rapaz egocêntrico – e todos os outros como ele, em todos os ambientes que observei – era obviamente o centro de nossas gozações, nosso objeto de riso, aquele que usávamos para exemplificar as piores piadas, aquele a quem usávamos para desafogar nossos piores instintos de crueldade infantil. Por fim, crescemos um pouco e ele conosco, e assim passou a ser um de nós, mas continuava, é claro, como o “fraco” a ser ridicularizado, e o fazíamos sempre que nos dava na telha, observei porém, que começávamos a ter “pena” dele conforme crescíamos.
Tive a oportunidade de conhecer a história desse rapaz. Sua mãe era louca, “esquizofrênica” (me disseram mais tarde), depressiva e outras coisas mais. Impunha ao filho o fardo de sua existência decadente, o fato do marido desprezá-la, e sua enorme frustração interior. No começo ela se mostrava razoável, ao menos para as visitas, com crises discretas aqui e ali, mas depois passou a ser caso de internação. Inúmeras vezes ouvimos histórias – e em alguns casos presenciamos, de como ela tentava espancar, ou mesmo furar com tesoura ou faca, o filho. Testemunhei, tristemente, a vergonha desse meu colega, quando a mãe, se insinuava para nós, e para todos os rapazes de sua rua, vindo a travar, constantemente brigas com as mães desses.
Crescemos mais um pouco, agora no ensino médio, esse meu caro amigo (que sofria tanto e em silêncio sem jamais reclamar) se mudara para a casa do pai, arranjara emprego e largara de vez a escola. Tínhamos notícias de que ele estava bem e, finalmente, achei que ele teria um pouco de paz a fim de crescer com dignidade.
Preocupava-me, entretanto, seu complexo de inferioridade, pois agora suas mentiras eram meias verdades. Sempre que aparecia, ele se ocupava em falar de como estava com certa garota, de como a amava e ela a ele, sabíamos que não era bem assim, mas dessa vez calávamos e não tirávamos mais o sarro dele.
Ouvimos por uma centena de vezes, uma centena de casos de amores e paixões vividas por ele, do quais, as vezes, comprovávamos uma triste e meia verdade: meninas nada-a-ver, as quais ele se envolvia apenas para não ficar sozinho. Pensei, por algumas vezes, em dizer que ele não precisava daquilo, que era um rapaz ótimo, de caráter, amigo de valor, bom e humano, e que merecia uma garota digna que estivesse com ele por outra coisa e não por ele ser a última opção para ela também, mas nunca disse nada, e não me arrependo disso, pois não era meu papel.
E assim seguiu meu amigo, até que, alguns anos atrás, conhecemos aquela que viria a ser sua namorada estável. Eu sabia de antemão, por algum motivo, que tipo de garota ela seria, e confirmei-o sem surpresa. Tratava-se de uma garota experiente, 23 anos (meu colega tinha 18), já havia sido “casada” e seu marido a esmurrava. Havia saído da casa da mãe a tempos, e para lá não poderia mais voltar. Ela viu em meu amigo um rapaz “inofensivo” ao qual daria a ela o que ela precisava, um teto, satisfações e até companhia, desde que ela desse para ele o que ele precisava, sexo. Essa história decadente e desprezível, viria a ter as conseqüências mais sérias porém.
Julguei que havia sido uma gravidez indesejada e que meu colega estaria louco da vida, pois sem emprego, sem estudo e sem amor, qualquer um estaria, e acordaria rápido pra vida. Mas não foi bem assim, observei o “orgulho” com o qual ele nos deu a notícia pessoalmente, como agora ele se sentia (estranhamente) “valorizado”, “masculinizado”. Agora ele era importante, vivia uma encruzilhada na vida, um problemão que “homens” de verdade viviam, homens que tinham mulheres, homens que precisavam se preocupar com suas fêmeas, em trabalhar e sustentar a casa.
Fiquei surpreso como ele sustentou isso orgulhosamente. Não sabia a que ponto poderia levar a baixa auto-estima, a rejeição familiar, a insegurança, a falta de orientação. Enquanto ele era um rapazinho atormentado em casa ele estava “bem” pois, de um jeito ou de outro, aquilo nada dizia sobre quem ele era, ou de como seria a sua vida, conheci muitos jovens que, com um lar desestruturado, tiveram o exemplo de tudo aquilo que não queriam para suas vidas e de como não deveriam ser, e assim isso os “ajudou”.
Ele agora estava acorrentado num relacionamento falso, a mulher logo o atormentaria terrivelmente (e foi o que aconteceu), teria responsabilidades enormes para o resto vida, o trabalho seria escravo, a vida seria escrava, morando de aluguel, dependendo de favores e dividas, jogara seus sonhos na lama, e agora a culpa era toda sua, não teria uma segunda chance, ao menos não havia essa perspectiva.
Observo que muitos tem esse tal complexo de inferioridade por serem feios, outros, em compensação, de superioridade, por serem bonitos, se você ainda não sabe, ou se precisa de alguém para dizê-lo, aí vai: Os dois são igualmente uma porcaria. Nunca poderia adivinhar, no entanto, onde essas coisas poderiam levar!
O segundo caso envolve traição, garotas más e rapazes “bonzinhos”.
Na escola identificávamos as garotas rápido. Lembro-me de três tipos comuns. Haviam as garotas que eram totalmente descartáveis, feias e fechadas, das quais não nos ocupávamos, nem mesmo para colar. Haviam as garotas tranqüilas (normais), talvez bonitas, sempre legais, preocupadas com o futuro, dessas éramos amigos. E haviam as “garotas vivas” (termo criado entre nós), eram aquelas que já incursionavam pelo mundo do sexo, que eram cheias de histórias para contar, que freqüentavam motel (embora fossem menores de idade). Essas garotas obviamente não eram para nós.
Eram as garotas “top de linha”, para caras de elite: geralmente algum vagabundo repetente, mais forte do que nós, talvez com carro, talvez marginal, talvez drogado.
Notei por essa época que essas garotas exigiam algo em troca da beleza e do prazer que podiam proporcionar, esse algo não poderia ser algo tão banal como o amor puro e devotado de um garoto pobre e bom. O que elas queriam era subjugar o amor rebelde e perigoso dos rapazes irascíveis e perigosos. Isso não tem nada a ver com dinheiro. Lembro-me, na época, de uma menina linda que ia visitar na cadeia o namorado, ela me contava como ia “dar” para ele lá dentro, ela não esperava nada dele, a não ser o seu amor irascível e perigoso que ela esperava “domar”. Vi, muitos casos, de meninas lindas e inteligentes, mas que por serem muito bonitas, não conseguiam se interessar pelos rapazes comuns, ficavam sempre com os caras mais loucos, esses acabavam tirando-lhes a virgindade e depois traindo-as, aí elas sofriam imensamente em nossos ombros (para isso servíamos), e nós a consolávamos pacientemente, segundo nosso interesse é claro.
Não entendia isso na época, mas hoje me parece mais claro, esses caras tem um grande valor, apesar de serem irascíveis e “perigosos” são também corajosos, fieis ao que são, leais ao que acreditam, acho que são homens, ou mais homens que os rapazes bonzinhos que gostavam de jogar vídeo-game e fazer poesias quando se apaixonavam. Entretanto, hora e meia, por algum motivo qualquer, acontecia de um desses rapazes bonzinhos tirarem a sorte grande, de ficarem com alguma garota esperta e “viva”.
Isso aconteceu com um de nossos amigos, sentíamos inveja dele, uma inveja boa que ele sabia e se orgulhava. Contou-nos que já no segundo dia ela “deu” para ele, e que “metiam” toda hora, e que ele já estava até cansado (esnobou um pouquinho a gente). A gente sorria, exultava por ele, e tinha esperança que um dia fosse a nossa vez.
No entanto, esse pobre rapaz não sabia que logo aquela garota iria exigir uma compensação, um tributo, um sacrifício a sua vaidade, não se tem uma garota como ela do lado por muito tempo assim de graça. Ela começou a desdenhá-lo, e a feri-lo dando bola para seus amigos, se pendurava no pescoço de um, vivia colado na escola com outro. Observei que essas garotas pareciam ter um demônio dentro delas, ou alguma coisa que lhes tirava a paz, a razão, na época eu chamava isso de vício, mas fosse como fosse, quanto mas feria, mas meu amigo se via desarmado e de joelhos perante ela. Escravizado pelas tentações de seu corpo, por sua beleza, ele faria qualquer coisa, até mesmo ouvir-lhe as traições e depois perdoá-la.
No entanto, esse meu amigo foi “salvo” desse fundo do poço, salvo por outro amigo nosso. Esse conseguiu roubar-lhe a mulher. Assumiu a menina, tomou-a para si, e ela foi saltitante com a novidade, o fato de ser amigo do seu ex não importava, terminou o namoro num dia, assumiu outro no mesmo dia, e transou no outro.
Porém esse rapaz também era “bonzinho”, a menina lhe enfeitiçara, não queria trair o amigo, conhecia o passado da menina, mas como todo rapaz bom, acreditou que ela não fazia por mal, e se havia traído o último namorado com ele, era por que o amava (comprovei isso com sua própria fala).
Semanas depois esses dois amigos nossos se encontraram numa pizzaria. Prevemos briga, mas sabíamos que no fundo eles se “entenderiam”. O atual namorado, num dado momento, foi até a mesa onde estava o rapaz traído, estendeu a mão e disse que não deveria haver ressentimentos entre eles. Observamos o ressentimento e a vontade de cravar os dentes no crânio de nosso amigo que estava sentado e calado, porém esse estendeu a mão. Não julguei covarde sua atitude, o melhor seria “aceitar” e esquecer ambos. Ele não sabia porém, que o amigo lhe prestara um “favor”.
A fim de continuar com a garota, esse nosso outro companheiro se viu numa grande empreitada. “Bancava-a” de diversos modos, com roupas, cursos, e com qualquer coisa que precisasse. Os favores do demônio tinham um preço, e ele pagaria é claro, pagaria, venderia a alma, e obviamente que todos nós faríamos o mesmo na época.
Entretanto, sabemos que esse preço sobe rápido, começou então a suceder a mesma coisa com este rapaz, a mulher lhe exigia uma atitude de que esse não dispunha, exigia uma recompensa que não estava em sua devoção humilde, em sua fidelidade feliz. Ela começou a aprontar para se satisfazer.
Ele começou a persegui-la, a ameaçar os rapazes que supostamente saiam com ela. Desesperado e aflito, a menina era agora seu tormento 24 horas. Havia de pagar um preço alto por todos os prazeres que tivera acesso, havia de pagar pois não havia sido homem o suficiente para ela. Essa intenção parecia compelir a menina a feri-lo ainda mais, era assim que nos apresentava as coisas, era assim que as suponhamos, embora sem entender de fato o que se passava.
Até que essa garota, infligiria nesse nosso rapaz uma mágoa para o qual não havia perdão, por mais que ele quisesse perdoar, um golpe quase fatal em seu pobre coração humilde e bom. Ela se entregaria para três de seus amigos, transaria com eles simultaneamente. Justamente quando mais a amava, quando mais estava disposto a perdoar-lhe tudo, nos contara, como ela seria a mãe de seus filhos, como se casaria com ela, a garota porém, como que convergida em demônio, dera um jeito de se “vingar” dessas intenções tão tolas.
Essas histórias nos ensinaram alguma coisa, e nos deixaram espertos para outras. Discutimos por noites seguidas estes assuntos entre nós (era o nosso preferido), e todos concluímos como deveríamos ficar espertos, aprender com os erros alheios.O que contei, sob o ângulo que contei, obviamente que reflete o único ângulo que temos acesso, o masculino.
Alguém deveria dizer para nós que não é racional, não é puro, não é bom, não é alto e nobre, não é moral, não é digno, deixarmos de sermos nós mesmos por causa de uma mulher e que disso não virá nada de bom, nada de conveniente.
Nunca vi um homem resistir a uma mulher, a não ser por puro orgulho, a não ser para não se rebaixar de fato, o orgulho de homem deveria se fazer presente entre nós, não do homem animal, mas do homem que pensa, do homem inteligente, ou ainda do homem que queremos ser para nossas esposas e para nossos filhos.
O amor existe. Mas esse começa dentro, ouvimos isso milhões de vezes, eis apenas uma vez mais, como conclusão dessas histórias que tive a oportunidade de observar e de que agora divido com vocês. Sexo é coisa séria, crescer ainda mais, devemos ficar espertos com nossos corpos e com nossas vidas. Sejamos homem, amemos, e façamos isso da melhor forma que pudermos, com aquilo que mais conhecemos de nobre e digno. Por puro orgulho masculino que seja.