Encaro uma difícil tarefa. Como escrever sobre a juventude contemporânea sem cair nos clichês que tanto prejudicam o exercício ativo do pensamento? Como reclamar uma juventude intempestiva, alegre, afirmativa, sem parecer um cristão tapado desejando o retorno das velhas tábuas de valores? Em suma, como falar da juventude sem ocupar um lugar privilegiado no conservadorismo, no nosso pequeno fascismo tupiniquim? O cristianismo está tão enraizado em nós, em nossa cultura, em nosso inconsciente, que fica difícil expurgá-lo. Dizer que a juventude está como está porque os valores da tradição estão se degenerando é tão babaca quanto afirmar que está tudo bem. A pergunta é sempre a mesma: como fazer isso de outra maneira? Tentamos, apesar de todas as dificuldades. O escritor nunca escreve sobre uma página em branco, toda página está inundada de clichês dos quais o escritor precisa escapar, pois só assim lhe é permitido criar.

Não ousamos pensar na juventude como um período onde a inventividade conquista o seu apogeu. A idéia de juventude como “época de ouro para a criação”, onde tudo aflora, as grandes mudanças acontecem, a criatividade canta, o desejo de novos ares transgride as fronteiras da individualidade para se ver  expresso numa coletividade dançante, já não existe mais, agora é outra idéia que se tem da juventude, bem como a própria juventude, sendo tomada por essa ideia nova, assume-se como coisa diversa. Não se trata aqui de uma descoberta alegre, mas antes, de um derradeiro diagnóstico. Seria justo perguntarmos: que é nossa juventude? Ora, o que se sabe – o que sempre se soube, bem ou mal – é que a juventude foi expropriada pelo capitalismo; ele a interiorizou, a transformou em mais uma engrenagem constitutiva de sua maquinaria. O capitalismo na pós-modernidade engloba tudo, engole implacavelmente toda a vida que, por sua vez, torna-se objeto exclusivo do capital. Ele nos roubou até mesmo o ato de criar, a criatividade foi também interiorizada pelo capitalismo e direcionada ao consumo: a criação é a propaganda, o marketing e a publicidade.

O que diabos fez o capitalismo com nossa juventude? Ele a transformou em mercadoria, ele a coisificou; Marx estará sempre certo ao apontar para os mecanismos do capital que transformam a vida em mercadoria. A juventude bem como a vida passa a constituir coisas das quais o capitalismo extrai a força necessária ao seu desenvolvimento. No capitalismo, a juventude não tem outro fim que não servir ao capital. Onde encontramos a juventude? Numa embalagem de  achocolatado ou de refrigernate, nas boy banbs da indústria cultural, nas espetaculazirações das novelas televisivas, nas revistas de moda, nos slogans das grandes corporações etc. Como tudo na pós-modernidade, a juventude se dissolveu em caracteres fragmentados, em lixo, em item de uma prateleria de supermercado: consome-se juventude quando se assisti a um filme juvenil (Crepúsculo, por exemplo), ou quando se compra uma roupa ou um tênis – uma juventude que não vale a pena ser vivida, afinal. O capitalismo não se contenta em produzir mercadorias, mas em produzir a própria vida enquanto mercadoria. Nesse caso, trata-se de vender modos de vida, de pensamento – vida enlatada no processo de consumo massificado; é a vida para o consumo, como dir-nos-á Bauman.

Esse movimento apropriador do capital, que se apropria da vida para submetê-la às leis do mercado, à massificação dos modos de viver, à lógica do espetáculo da mercadoria, agrava-se e torna a vida cada vez mais doente, cada vez mais horrível. Tanto na legalidade quanto na ilegalidade o capitalismo participa e funciona – ele não pode deixar de funcionar. Quiçá seja daí que venha a irracionalidade da máquina capitalista, que nada tem a ver com uma negação da racionalidade no capitalismo. Como diz Deleuze “o racional é sempre a racionalidade de um irracional”, logo, antes do irracional refutar o racional, ele o supõe, “no fundo de toda razão, o delírio, a deriva”. Não devemos nos espantar quando percebemos o quão demente são os mecanismos capitalistas, ao contrário, é “precisamente por serem simultaneamente dementes e funcionarem muito bem” que devemos nos espantar.

Embora a pós-modernidade esteja aí para reprimir as máquinas desejantes, entregando a juventude ao consumo patológico, penso ainda ser possível compor músicas alegres. Um piano muito tímido ainda toca em meio às explosões e tiros de metralhadora, quebrando essa harmonia grotesca, de corpos caindo, de gente morrendo, de sangue sendo derramado aos litros. Os focos de resistência são como uma pequena e tímida esperança de dias vindouros. Toda sociedade possui suas linhas de fuga, mesmo que essas linhas de fuga não sejam facilmente percebidas ou estejam em perigo de serem contidas pelos movimentos apropriadores. O que não pode de modo algum ocorrer, é entender aquilo que se sabe sobre o atual estado de coisas como justificativa para novos conformismos e resignações. Não há fatalismo. Deixar-se subjugar, curvar-se diante dos poderes e aceitar toda sujeição, tudo isso é atitude dos fracos de espírito, dos que já estão demasiado enfermos para modificar o estado deplorável de suas vidas.

Sexualidade, amor e sobre ser homem

Publicado: fevereiro 19, 2012 por Blue em Post-Rock (Coluna de Blue)

A sexualidade é assunto batido nesta juventude. A descoberta do próprio corpo já não é tão descoberta assim, temos aulas de sexualidade na escola, e na Tevê nos ensinam que “cada um tem seu momento para perder a virgindade” e como o sexo pode trazer doenças sérias e coisas do tipo. Vemos as mães nas novelinhas levando as filhas ao ginecologista antes de transarem. E nos comerciais – nesta época de carnaval sobretudo – nos dizem que não podemos transar com qualquer um, não sem camisinha.

Sabemos sobre a repressão sexual vivida em outros tempos, e sabemos também que essa “liberdade sexual imposta” está longe do ideal.

Sobre o amor, nossas dúvidas vão além do que dizem Platão ou Freud. Gostaríamos de saber se ele existe, e não, não o sabemos. Não nos dizem, não nos explicam, não nos satisfazem o coração, o intelecto e a alma o que nos dizem.

E o que há para se aprender sobre as mulheres, ou como “ser homem” é como o problema da “salvação da alma”, cada um que se vire como achar melhor. Que encontre e entre pela porta estreita, que crie a sua própria porta, ou ainda, que se decida pela porta larga e espaçosa e assuma as conseqüências, seja lá o que descobrir ou fizer, é problema seu.

Observei essas coisas no meio em que vivo. Prestei atenção e coloquei em debate sempre que pude. Dizia sempre aos meus colegas sobre como não nos ensinam a sermos homens. Não se trata de pensar filosoficamente o homem, mas de uma orientação sobre a vida, um exemplo, alguma coisa que nos dissesse como evitar sofrimentos, frustrações, alguma coisa que nos mostrasse uma idéia válida de homem, talvez até de princípios a serem seguidos, de alguma coisa a ser fiel, não tínhamos a mínima idéia sobre nada disso.

Conversando tais coisas com uma garota certa vez, ela me disse que também não as ensinam como serem mulheres, mas que a vida enfia tal lição goela abaixo para elas. Isso me pareceu triste e até forte, decerto que gostaria de me inteirar mais sobre como crescem as meninas e de como elas se tornam mulheres. De qualquer modo, esse texto é sobre rapazes e como estes tentam ser homens, tentativa essa muitas vezes falha, de onde derivam muitas frustrações e até mesmo, feridas para toda uma vida, mas que servem de experiência e de aprendizado, invariavelmente.

Decidi por contar duas histórias que aconteceram com amigos meus. A primeira delas, é caso longo, de conseqüências para toda uma vida, cujos os impulsos desastrosos observei desde o principio. Trata-se de um amigo relativamente próximo, dos tempos de escola. Observei neste rapaz, desde quando nos conhecemos, um forte complexo de inferioridade, percebi que as inúmeras mentiras e histórias que contava a fim de exaltar sua personalidade, eram apenas sintomas de uma triste realidade interior.

Este rapaz egocêntrico – e todos os outros como ele, em todos os ambientes que observei – era obviamente o centro de nossas gozações, nosso objeto de riso, aquele que usávamos para exemplificar as piores piadas, aquele a quem usávamos para desafogar nossos piores instintos de crueldade infantil. Por fim, crescemos um pouco e ele conosco, e assim passou a ser um de nós, mas continuava, é claro, como o “fraco” a ser ridicularizado, e o fazíamos sempre que nos dava na telha, observei porém, que começávamos a ter “pena” dele conforme crescíamos.

Tive a oportunidade de conhecer a história desse rapaz. Sua mãe era louca, “esquizofrênica” (me disseram mais tarde), depressiva e outras coisas mais. Impunha ao filho o fardo de sua existência decadente, o fato do marido desprezá-la, e sua enorme frustração interior. No começo ela se mostrava razoável, ao menos para as visitas, com crises discretas aqui e ali, mas depois passou a ser caso de internação. Inúmeras vezes ouvimos histórias – e em alguns casos presenciamos, de como ela tentava espancar, ou mesmo furar com tesoura ou faca, o filho. Testemunhei, tristemente, a vergonha desse meu colega, quando a mãe, se insinuava para nós, e para todos os rapazes de sua rua, vindo a travar, constantemente brigas com as mães desses.

Crescemos mais um pouco, agora no ensino médio, esse meu caro amigo (que sofria tanto e em silêncio sem jamais reclamar) se mudara para a casa do pai, arranjara emprego e largara de vez a escola. Tínhamos notícias de que ele estava bem e, finalmente, achei que ele teria um pouco de paz a fim de crescer com dignidade.

Preocupava-me, entretanto, seu complexo de inferioridade, pois agora suas mentiras eram meias verdades. Sempre que aparecia, ele se ocupava em falar de como estava com certa garota, de como a amava e ela a ele, sabíamos que não era bem assim, mas dessa vez calávamos e não tirávamos mais o sarro dele.

Ouvimos por uma centena de vezes, uma centena de casos de amores e paixões vividas por ele, do quais, as vezes, comprovávamos uma triste e meia verdade: meninas nada-a-ver, as quais ele se envolvia apenas para não ficar sozinho. Pensei, por algumas vezes, em dizer que ele não precisava daquilo, que era um rapaz ótimo, de caráter, amigo de valor, bom e humano, e que merecia uma garota digna que estivesse com ele por outra coisa e não por ele ser a última opção para ela também, mas nunca disse nada, e não me arrependo disso, pois não era meu papel.

E assim seguiu meu amigo, até que, alguns anos atrás, conhecemos aquela que viria a ser sua namorada estável. Eu sabia de antemão, por algum motivo, que tipo de garota ela seria, e confirmei-o sem surpresa. Tratava-se de uma garota experiente, 23 anos (meu colega tinha 18), já havia sido “casada” e seu marido a esmurrava. Havia saído da casa da mãe a tempos, e para lá não poderia mais voltar. Ela viu em meu amigo um rapaz “inofensivo” ao qual daria a ela o que ela precisava, um teto, satisfações e até companhia, desde que ela desse para ele o que ele precisava, sexo. Essa história decadente e desprezível, viria a ter as conseqüências mais sérias porém.

Julguei que havia sido uma gravidez indesejada e que meu colega estaria louco da vida, pois sem emprego, sem estudo e sem amor, qualquer um estaria, e acordaria rápido pra vida. Mas não foi bem assim, observei o “orgulho” com o qual ele nos deu a notícia pessoalmente, como agora ele se sentia (estranhamente) “valorizado”, “masculinizado”. Agora ele era importante, vivia uma encruzilhada na vida, um problemão que “homens” de verdade viviam, homens que tinham mulheres, homens que precisavam se preocupar com suas fêmeas, em trabalhar e sustentar a casa.

Fiquei surpreso como ele sustentou isso orgulhosamente. Não sabia a que ponto poderia levar a baixa auto-estima, a rejeição familiar, a insegurança, a falta de orientação. Enquanto ele era um rapazinho atormentado em casa ele estava “bem” pois, de um jeito ou de outro, aquilo nada dizia sobre quem ele era, ou de como seria a sua vida, conheci muitos jovens que, com um lar desestruturado, tiveram o exemplo de tudo aquilo que não queriam para suas vidas e de como não deveriam ser, e assim isso os “ajudou”.

Ele agora estava acorrentado num relacionamento falso, a mulher logo o atormentaria terrivelmente (e foi o que aconteceu), teria responsabilidades enormes para o resto vida, o trabalho seria escravo, a vida seria escrava, morando de aluguel, dependendo de favores e dividas, jogara seus sonhos na lama, e agora a culpa era toda sua, não teria uma segunda chance, ao menos não havia essa perspectiva.

Observo que muitos tem esse tal complexo de inferioridade por serem feios, outros, em compensação, de superioridade, por serem bonitos, se você ainda não sabe, ou se precisa de alguém para dizê-lo, aí vai: Os dois são igualmente uma porcaria. Nunca poderia adivinhar, no entanto, onde essas coisas poderiam levar!

O segundo caso envolve traição, garotas más e rapazes “bonzinhos”.

Na escola identificávamos as garotas rápido. Lembro-me de três tipos comuns. Haviam as garotas que eram totalmente descartáveis, feias e fechadas, das quais não nos ocupávamos, nem mesmo para colar. Haviam as garotas tranqüilas (normais), talvez bonitas, sempre legais, preocupadas com o futuro, dessas éramos amigos. E haviam as “garotas vivas” (termo criado entre nós), eram aquelas que já incursionavam pelo mundo do sexo, que eram cheias de histórias para contar, que freqüentavam motel (embora fossem menores de idade). Essas garotas obviamente não eram para nós.

Eram as garotas “top de linha”, para caras de elite: geralmente algum vagabundo repetente, mais forte do que nós, talvez com carro, talvez marginal, talvez drogado.

Notei por essa época que essas garotas exigiam algo em troca da beleza e do prazer que podiam proporcionar, esse algo não poderia ser algo tão banal como o amor puro e devotado de um garoto pobre e bom. O que elas queriam era subjugar o amor rebelde e perigoso dos rapazes irascíveis e perigosos. Isso não tem nada a ver com dinheiro. Lembro-me, na época, de uma menina linda que ia visitar na cadeia o namorado, ela me contava como ia “dar” para ele lá dentro, ela não esperava nada dele, a não ser o seu amor irascível e perigoso que ela esperava “domar”. Vi, muitos casos, de meninas lindas e inteligentes, mas que por serem muito bonitas, não conseguiam se interessar pelos rapazes comuns, ficavam sempre com os caras mais loucos, esses acabavam tirando-lhes a virgindade e depois traindo-as, aí elas sofriam imensamente em nossos ombros (para isso servíamos), e nós a consolávamos pacientemente, segundo nosso interesse é claro.

Não entendia isso na época, mas hoje me parece mais claro, esses caras tem um grande valor, apesar de serem irascíveis e “perigosos” são também corajosos, fieis ao que são, leais ao que acreditam, acho que são homens, ou mais homens que os rapazes bonzinhos que gostavam de jogar vídeo-game e fazer poesias quando se apaixonavam. Entretanto, hora e meia, por algum motivo qualquer, acontecia de um desses rapazes bonzinhos tirarem a sorte grande, de ficarem com alguma garota esperta e “viva”.

Isso aconteceu com um de nossos amigos, sentíamos inveja dele, uma inveja boa que ele sabia e se orgulhava. Contou-nos que já no segundo dia ela “deu” para ele, e que “metiam” toda hora, e que ele já estava até cansado (esnobou um pouquinho a gente). A gente sorria, exultava por ele, e tinha esperança que um dia fosse a nossa vez.

No entanto, esse pobre rapaz não sabia que logo aquela garota iria exigir uma compensação, um tributo, um sacrifício a sua vaidade, não se tem uma garota como ela do lado por muito tempo assim de graça. Ela começou a desdenhá-lo, e a feri-lo dando bola para seus amigos, se pendurava no pescoço de um, vivia colado na escola com outro. Observei que essas garotas pareciam ter um demônio dentro delas, ou alguma coisa que lhes tirava a paz, a razão, na época eu chamava isso de vício, mas fosse como fosse, quanto mas feria, mas meu amigo se via desarmado e de joelhos perante ela. Escravizado pelas tentações de seu corpo, por sua beleza, ele faria qualquer coisa, até mesmo ouvir-lhe as traições e depois perdoá-la.

No entanto, esse meu amigo foi “salvo” desse fundo do poço, salvo por outro amigo nosso. Esse conseguiu roubar-lhe a mulher. Assumiu a menina, tomou-a para si, e ela foi saltitante com a novidade, o fato de ser amigo do seu ex não importava, terminou o namoro num dia, assumiu outro no mesmo dia, e transou no outro.

Porém esse rapaz também era “bonzinho”, a menina lhe enfeitiçara, não queria trair o amigo, conhecia o passado da menina, mas como todo rapaz bom, acreditou que ela não fazia por mal, e se havia traído o último namorado com ele, era por que o amava (comprovei isso com sua própria fala).

Semanas depois esses dois amigos nossos se encontraram numa pizzaria. Prevemos briga, mas sabíamos que no fundo eles se “entenderiam”. O atual namorado, num dado momento, foi até a mesa onde estava o rapaz traído, estendeu a mão e disse que não deveria haver ressentimentos entre eles. Observamos o ressentimento e a vontade de cravar os dentes no crânio de nosso amigo que estava sentado e calado, porém esse estendeu a mão. Não julguei covarde sua atitude, o melhor seria “aceitar” e esquecer ambos. Ele não sabia porém, que o amigo lhe prestara um “favor”.

A fim de continuar com a garota, esse nosso outro companheiro se viu numa grande empreitada. “Bancava-a” de diversos modos, com roupas, cursos, e com qualquer coisa que precisasse. Os favores do demônio tinham um preço, e ele pagaria é claro, pagaria, venderia a alma, e obviamente que todos nós faríamos o mesmo na época.

Entretanto, sabemos que esse preço sobe rápido, começou então a suceder a mesma coisa com este rapaz, a mulher lhe exigia uma atitude de que esse não dispunha, exigia uma recompensa que não estava em sua devoção humilde, em sua fidelidade feliz. Ela começou a aprontar para se satisfazer.

Ele começou a persegui-la, a ameaçar os rapazes que supostamente saiam com ela. Desesperado e aflito, a menina era agora seu tormento 24 horas. Havia de pagar um preço alto por todos os prazeres que tivera acesso, havia de pagar pois não havia sido homem o suficiente para ela. Essa intenção parecia compelir a menina a feri-lo ainda mais, era assim que nos apresentava as coisas, era assim que as suponhamos, embora sem entender de fato o que se passava.

Até que essa garota, infligiria nesse nosso rapaz uma mágoa para o qual não havia perdão, por mais que ele quisesse perdoar, um golpe quase fatal em seu pobre coração humilde e bom. Ela se entregaria para três de seus amigos, transaria com eles simultaneamente. Justamente quando mais a amava, quando mais estava disposto a perdoar-lhe tudo, nos contara, como ela seria a mãe de seus filhos, como se casaria com ela, a garota porém, como que convergida em demônio, dera um jeito de se “vingar” dessas intenções tão tolas.

Essas histórias nos ensinaram alguma coisa, e nos deixaram espertos para outras. Discutimos por noites seguidas estes assuntos entre nós (era o nosso preferido), e todos concluímos como deveríamos ficar espertos, aprender com os erros alheios.O que contei, sob o ângulo que contei, obviamente que reflete o único ângulo que temos acesso, o masculino.

Alguém deveria dizer para nós que não é racional, não é puro, não é bom, não é alto e nobre, não é moral, não é digno, deixarmos de sermos nós mesmos por causa de uma mulher e que disso não virá nada de bom, nada de conveniente.

Nunca vi um homem resistir a uma mulher, a não ser por puro orgulho, a não ser para não se rebaixar de fato, o orgulho de homem deveria se fazer presente entre nós, não do homem animal, mas do homem que pensa, do homem inteligente, ou ainda do homem que queremos ser para nossas esposas e para nossos filhos.

O amor existe. Mas esse começa dentro, ouvimos isso milhões de vezes, eis apenas uma vez mais, como conclusão dessas histórias que tive a oportunidade de observar e de que agora divido com vocês. Sexo é coisa séria, crescer ainda mais, devemos ficar espertos com nossos corpos e com nossas vidas. Sejamos homem, amemos, e façamos isso da melhor forma que pudermos, com aquilo que mais conhecemos de nobre e digno. Por puro orgulho masculino que seja.

“O essencial são os intercessores.

A criação são os intercessores.

Sem eles não há obra.”

(Deleuze)

Ser sensível às forças que compõem o nosso presente é, do ponto de vista da renovação dos paradigmas teóricos, o que falta ao pensador contemporâneo, principalmente porque da renovação dos paradigmas teóricos segue-se renovações práticas, ligadas às atividades afirmativas e produtoras de si (estética da existência e resistência). Dir-se-á que o trabalho teórico ou conceitual está intimamente ligado à ação, não como o seu oposto dialético, pelo qual deveríamos passar até chegarmos à prática, como se a prática, por sua vez, fosse tão-somente a aplicação da teoria, mas que compõe-se com ela, que faz bloco, um bloco de devir, numa relação que já não é mais dialética; daí Deleuze poder falar em “ações de teoria”. Guaratuba, dia quente, muito quente, os termômetros beiram aos 34º, com sensação térmica superior a 2º – e eu no PC, “nerdiando”, como dizem; mesmo me sentindo mal com a temperatura absurdamente elevada, fui à cozinha preparar uma xícara de chá, gosto que adquiri há muitos anos atrás, quando ainda garoto. Para chegar à cozinha, no entanto, tenho que passar pela sala, onde fica a TV coletiva da casa. Foi o que fiz, e algo que passava na TV chamou-me a atenção sobremaneira. Como muitos sabem, não sou um entusiasta da mídia televisiva e por isso evito assistir aos programas que passam nessa “caixinha mágica” à qual deram um nome tão sugestivo – televisão. Mas às vezes o pensador expõe-se a intercessores os mais inusitados, cabendo a ele “ir na onda”. Passava, na hora, uma matéria sobre um dentista que fora assassinado num assalto à mão armada, num daqueles telejornais espetaculares – refiro-me, evidentemente, ao conceito de espetáculo do pensador situacionista Guy Dibord, por isso, não confundam. O nome do telejornal? Brasil Urgente, apresentado pelo Datena. Não bastou ao dentista entregar aos assaltantes tudo o que eles queriam e sem opor-lhes a menor resistência. Assim que entregou sua carteira, fora baleado no peito. Tiro fatal. Datena (detalhe notado por mim: ele parece mais um narrador de futebol do que um apresentador de telejornal propriamente dito) comentava à seu modo – desnecessariamente efusivo, dramático, espetacular, moralista, sensacionalista etc. – o acontecimento.

Direcionei minha atenção à TV no exato momento em que Datena dava, aos que o acusavam de sensacionalista, uma resposta digna de nota (não por sua grandiloquência, mas por sua plena exiguidade). Sua réplica bastava-se à velha falácia da empatia: colocar-se no lugar de quem sofre, imaginar-se sofrendo na dor do outro, para então reconhecer a verdade desse sofrimento. Dizia ele que aqueles que defendiam criminosos – não sei exatamente a quem ele se referia, talvez aos humanistas, mas essa é uma suposição minha – deveriam se imaginar sendo assaltados, levando tiros na boca e na cabeça (palavras do Datena); só assim eles dar-se-iam conta de que criminosos não são defensáveis – a não ser por advogados, já que, para o apresentador de telejornal, “mesmo os vilões mais vis têm direito à defesa” – e que devem ser punidos com o rigor da Lei: “pois é, nunca pensei que isso fosse acontecer comigo”, lamenta o outrora defensor da criminalidade que agora, tendo visto a verdade, tendo tomado consciência de seu equívoco, acaba por concordar que criminosos deveriam ser punidos pela lei, tal como eles merecem, ou seja, irem direto para a prisão, de acordo com seus crimes hediondos.  Depois de apresentar sua réplica, Datena começa a reclamar da ineficácia do Código Penal, aponta para a sua eminente degeneração, critica o abrandamento de pena e a soltura, sob certas circunstâncias jurídicas, de criminosos de alta periculosidade. Exige um reforçamento do Código Penal através de leis mais rígidas, exige, outrossim, aos políticos, a criação de projetos de lei que vão nesse sentido, de modo que, para Datena, até mesmo a pena de morte, juntamente com a prisão perpétua, torna-se interessante. Eu diria que Datena, ou melhor, o acontecmiento-Datena, dá à constatação nietzscheana segundo o qual o Direito, invadido pelas forças reativas e pelo ressentimento, faz mergulhar na indistinção a vontade-de-vingança e a vontade-de-justiça, uma atualidade sem precedentes.

Pensar a contemporaneidade em termos não mais modernos, mas “pós-modernos” nos exige, de início, um deslocamento com relação ao aparato teórico-crítico com o qual, em nossas incursões pelos diversos âmbitos do saber, estamos acostumados. Aqueles críticos que se vituperam contra o Datena, que dizem ser ele um estupendo bobalhão, sensacionalista, reacionário, moralista, entre tantas outras coisas, ainda que tenham razão em suas graves palavras, não alcançam a verdadeira questão – a questão do nosso tempo. Dizer, por exemplo, que este ou aquele político, apresentador, jornalista, entre outras figuras públicas ou privadas, é reacionário tornou-se um chavão da Esquerda; do mesmo modo, criticar o sensacionalismo midiático – não duvidemos, apesar de tudo, de sua realidade – tornou-se um recurso, imerso numa lógica narcisista por excelência, de jornalistas ressentidos e revoltos com sua falta de notoriedade. Trata-se, num caso ou no outro, de categorias críticas tão anacrônicas que já não mais significam, elas não nos dizem absolutamente nada, palavras esvaziadas de sentido. Faz-se preciso, então, encontrar outros meios de levar à diante a tarefa crítica, que não pode, sob pena de perdermos os movimentos insólitos do nosso tempo, sejam eles negativos (os investimentos de saber-poder sobre a subjetividade, atrelados aos mecanismos capitalistas) ou positivos (os focos de resistência), ser interrompida. A crítica não perde sua força devido à defasagem de antigos conceitos que a compunham, pois como tudo em filosofia, ou em qualquer outro saber, basta que se criem novos conceitos para que a crítica, aí, recupere o fôlego: biopolítica, biopotência, linhas de fuga, máquina de guerra, agenciamentos coletivos de enunciação e agenciamentos maquínicos de desejo, multidão, neuromagma, etc. Todos conceitos voltados para o pensamento do presente.

Insistamos um pouco mais no acontecimento-Datena, a fim de verificar o quanto ele ainda nos serve como intercessor. Há algumas décadas atrás Foucault rastreou a passagem de um modelo societal definido pela soberania a um outro modelo, agora definido pela disciplina. São as chamadas sociedades disciplinares com seus grandes meios de confinamento. Mas as sociedades disciplinares, como as sociedades soberanas, não durariam ad aeternum, pois não são formações históricas estáticas, imutáveis ou eternas. Assim as sociedades disciplinares tenderiam a desaparecer, donde se seguiria uma nova transição, vinda das novas forças em curso e das quais resultaria a reconfiguração do socius: “sociedades disciplinares é o que já não éramos mais, o que deixávamos de ser” (DELEUZE, 1992, p. 220). Passamos, segundo Deleuze leitor de Foucault, das sociedades disciplinares às sociedades de controle, que funcionam segundo técnicas muito próprias e originais. Ela abole o confinamento e funciona “ao ar livre”. É certo, todavia, que as sociedades de controle carregam, em seu bojo, aspectos decisivos das antigas sociedades disciplinares que aparecem agora como “o limite, o escândalo ou a contradição” (FOUCAULT, 1988, 130). De outro modo, dir-se-ia também que as sociedades de controle não abolem absolutamente a disciplina, mas a adaptam aos seus novos mecanismos de controle do corpo, da subjetividade e da vida. Não percamos isto de vista. Quando Datena protesta contra a fragilidade do Código Penal e reclama uma rigidificação das leis, ele anuncia, malgrado seu, a falência das instituições e dos modelos de confinamento das sociedades disciplinares.

Segundo o diagnóstico deleuzeano “encontramo-nos numa crise generalizada de todos os meios de confinamento, prisão, hospital, fábrica, escola, família” (DELEUZE, 1992, p. 220). Ora, o discurso do Datena reporta-nos a essa falência progressiva das instituições disciplinares e dos meios de confinamento de que fala Deleuze. Abrandamento de pena, redução de pena por bom comportamento, prisão em regime semi-aberto, coleira eletrônica etc., tais signos devem ser lidos sob a lógica de uma abertura dos espaços de confinamento, abertura da qual resultaria a impossibilidade crescente de distinguir o dentro e o fora: talvez seja essa a razão de Toni Negri afirmar que agora é a própria vida que é prisão, pois, como bem diz Pélbart, acerca do sentido da fala do intelectual italiano, “ele afirma, surpreendentemente, não existir uma diferença tão essencial entre a prisão e o resto da vida” (PÉLBART, 2000, p. 26). Mas aí, também, vale relembrar Pélbart, noutro ponto: é prisão, sim, mas também é fábrica, caserna, escola, família, hospital etc. Datena é um reformista, e, como tal, exige meios de manutenção e de operação adequados ao modelo disciplinar. Mas como fazer isso num contexto biopolítico no qual as antigas formas se liquefazem? As instituições estão condenadas, nada pode ser feito, pois não há mais espaço para as sociedades disciplinares. O importante, atualmente, é o controle e suas novas tecnologias, não a disciplina. Os gritos desvairados de Datena e de seus discípulos, é preciso entender, já não podem mais serem ouvidos: soam-nos fracos, como que vindos de gargantas desgastadas, que por pouco não são capazes de emitir som algum. Não haverá um retorno ao antigo modelo societal, pois não há, nunca, retorno – nada retorna, de modo que o Eterno Retorno do Mesmo não passa de um conto da carochinha e seus arautos um grupelho de medíocres.

As sociedades disciplinares não dão conta das condições do nosso tempo porque pertencem a um tempo que não é o nosso, as novas gerações não conhecem disciplina, a ditadura, a fábrica, a exploração mal disfarçada, a escola – e seus castigos e punições que não marcavam apenas a alma, mas o corpo infantil (a antiga palmatória, por exemplo) -, senão, é claro, pelas histórias que ouvem ou que lêem nos livros. As imagens que circulam pelo Youtube e outros sites na internet, de soldados e/ou policiais dançando, bebendo, ou, como no caso do PM que “enrrabou” uma pobre e indefesa estátua de uma vaca em SC, mostram que o regime disciplinar vem fraquejando mesmo num espaço que, outrora, era reconhecido, justamente, pela sua dura disciplinaridade: hierarquia e disciplina dos quartéis. Assim, podemos fazer um quadro, ainda que caricatural, da sociedade contemporânea e de suas linhas de fuga, bem como de suas desterritorializações e reterritorializações nômades. Datena é um saudosista da disciplina: “ah, bons tempos aqueles…”. Podemos imaginá-lo dizendo a si mesmo tais palavras, suspirando sorumbático. E se ele nos importa, é como sintoma, como signo de uma mudança, de um devir social. Mesmo os imbecis podem servir como signos de novos ventos, vindos de outras direções que não aquelas as quais estamos tão bem acostumados.

 

 

Bibliografia:

 

DELEUZE, G. Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.

FOUCAULT, M. História da sexualidade vol. I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1988.

PÉLBART, P. Vertigem por um fio: políticas da subjetividade contemporânea. São Paulo: Ed. Iluminuras Ltda., 2000.

Numa escola escura

Publicado: fevereiro 13, 2012 por Blue em Post-Rock (Coluna de Blue)

No interior de São Paulo, numa escola escura e fria, feia e longe, uma jovem me disse que gostaria de ser escritora.

Uma jovem que gostaria de ser escritora bem o há em qualquer lugar, mas é o tipo de coisa que sempre me faz pensar. Naquele momento então, olhei em volta. Rostos tristes e entediados: jovens pobres, numa escola esquecida e apagada (como qualquer outra?), em alguma cidadezinha do ABC, na favela, no morro, na quebrada.

Tive alguns relances de frases que gostava na minha adolescência: “Nos preparam para ser peões na escola”, dizia eu alguns anos antes ainda como aluno, “para sermos ‘chão de firma’”. Ah, naquele tempo eu gostava de muitas frases, e achava que todos gostariam de mudar o mundo se as ouvissem.

Aquela aluna de cabelos vermelhos que desejava ser escritora. Aquele aluno de cabelão, com camisa do Raul (isso ainda existe), aquele outro com suas teorias conspiratórias… Jovens legais, mas todos no mesmo buraco, na mesma escola apagada, no mesmo quintal. Desanimados e inconscientes de onde estão.

Entretanto, embora consciente, talvez eu estivesse mais afundado que eles, pois quis, ao contrário deles, realmente estar ali. Me deu um desgosto no coração.  Continuei olhando em volta, a decadência me feria os olhos, hora e meia um celular buzinando uma musiquinha doente, palavrões, os modos bárbaros que me davam até medo quando observava uma aluna mais “delicada” (ficava com um medo estranho por elas). Abaixei os olhos, voltei para minha cadeira. Havia um drama que não havia pedido para viver, mas eis que agora o deveria viver, e no papel mais baixo talvez, o do professor, funcionário e mantenedor do odioso sistema de educação, aquele que dá graças a Deus quando os alunos faltam, e que cujo o salário e os bônus são a única preocupação e meta.

O aluno ao menos é livre para rejeitar toda essa porcaria,  se afirmar acima disso, ele não vendeu sua alma, o professor não, o professor é parte da jogada, quer queira quer não.

Aquela aluna não se tornará escritora… Meu Deus, e se ela o soubesse? E se eu soubesse que esse seria o “fim” da minha revolução? Puta que o pariu, onde foram parar todas as aquelas frases que me faziam vibrar o coração? Lembrei-me de Dostoievski na casa dos mortos. Dramático, mas entendam, a noite parecia tão escura lá fora…

 A decadência, a verdade nua e crua, a vida medíocre. Esses caras não entendem nada disso, a nossa geração está num ponto de  estrangulamento, cara, quem tiver algo a dizer não traia sua missão, qualquer ar, qualquer luz é tudo o que pedimos. É tudo o que eu peço. Quis dizer isso aos alunos, pedir isso a escritora, mas não foi necessário, continuei a aula numa nova vibração, e, com outras palavras e por um breve momento, em “algum momento”, eu fiz minha revolução e vi uma escritora sentada no fundo da sala.