Amar e sofrer

Publicado: junho 13, 2011 por Blue em Post-Rock (Coluna de Blue)

O Filósofo Schopenhauer é muitas vezes apontado como o primeiro a falar sobre o amor de forma mais abrangente, tecendo sobre ele uma postura. Fora ele quem pensou o amor como produto do inconsciente com o único objetivo de perpetuar a raça. Instinto de sobrevivência mesmo, ou seja, dada a vital necessidade de procriação, o inconsciente elabora um mecanismo instintivo de perpetuação da espécie (a sobrevivência é a última jogada, o resto é ilusão), não nos equivocaríamos em pensar, nesse sentido, que somos como marionetes nesse jogo de conquista e declarações de amor, onde na verdade, o que se passa é a tentativa desesperada de procriar. Para ele então, o amor romântico teria sido uma invenção cristã.

A “falsa noção” de espírito realista que esse tipo de filosofia traz nada tem a ver com a realidade última. Uma filosofia ou uma teoria científica nunca esgota um fenômeno do mundo, menos ainda, se esse fenômeno pertence à alma humana. Adotar de forma absoluta uma ideia não se trata de um compromisso com a realidade, uma vez que a idéia nunca se apóia em fatos inquestionáveis, mas sim de uma posição psicológica.

O que nos levaria a classificar Schopenhauer como, de certa forma, um “afetado” psicologicamente pelo amor? Será? Não poucas vezes alguns o tentam acusa-lo de “rejeitado”, mas isso em si mesmo, nada afeta sua teoria.

Mas ainda como teoria Schopenhauer nos dá algo “concreto”, algo que foge aos idealismos e que, de certa forma, corresponde a alguma realidade orgânica. A outra realidade, a antítese dessa visão, seria o amor romântico, ou como diz Schopenhauer, a “invenção Cristã”.

Jung, discípulo de Freud, acreditava que Cristo assim como Buda  tinham sido as expressões elevadas do “self”, ou seja, o homem integrado com o conteúdo do inconsciente, homem em sua individuação última. No entanto, irá apontar para uma distinção entre ambos: Buda não “se dava” a alegria, de modo a não se dar também a seu contrário, a tristeza, assim também como o sofrimento e o prazer, etc. Daí a meta budista ser o “Nirdvandva”, a liberação desses estados contrários. No entanto, Cristo sofria e, portanto seria mais “real e humano” do que Buda. Para Jung, Buda se elevaria, ainda vivo, além da condição humana:

“Ambos dominaram o mundo em si mesmos: o Buda, poder-se-ia dizer, mediante uma compreensão racional; o Cristo, tornando-se vítima segundo o destino; no cristianismo, o principal é sofrer, enquanto que no budismo o mais importante é contemplar e fazer.”

Assumimos a ideia de que ambos foram “super-homens” como diz Jung, no entanto, de ambos, talvez só o Cristo realmente “amasse”, amou e sofreu, ou melhor, amou mediante o sofrimento.

“Se o amor é uma invenção cristã, então o mesmo é sofrer”.

Essa invenção cristã (Se é que Schopenhauer estava certo), o amor romântico, não pertence mais a Cristo, ou a igreja. Mas talvez o “sofrimento” cristão esteja ainda, intrinsecamente, ligado ao “amor”. Nesse ponto, poderíamos nos perguntar por que então desejaria alguém amar? Se não seria mais válido o caminho de Buda, o “vazio”, a libertação? Aliás, foi por aí que Schopenhauer encontrou sua solução…

 Sofrer sem amar não é sofrer, e o inverso também vale.

A respeito da citação do evangelho, geralmente ela é atribuída a S. Paulo, no entanto trata-se de um texto apócrifo, a saber, “O Evangelho Essênio da paz”.

“Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina,há falta de amor. Um é a sombra do outro.”
- Carl Gustav Jung

“O amor mata o que éramos, a fim de que surja o que não éramos. O amor é para nós como uma morte”
- Carl Gustav Jung

“O amor não é invejoso, não faz mal, não conhece o orgulho; não é rude nem egoísta. É equânime, não crê na malícia; não se regozija na injustiça, senão que se deleita em toda justiça. O amor defende tudo, o amor crê tudo, o amor espera tudo, o amor suporta tudo; nunca se esgota; mas quanto às línguas, cessarão, e quanto ao conhecimento, ele se desvanecerá. Pois possuímos em parte a verdade e em parte o erro, mas quando venha a plenitude da perfeição, o parcial será aniquilado. Quando o homem era criança, falava como criança, entendia como criança, pensava como criança; porém quando se fez homem abandonou as coisas de criança”
- O Evangelho Essênio da Paz

“Pois o Amor é eterno. O Amor é mais forte que a Morte.”
- O Evangelho Essênio da Paz

“O problema do amor parece-me um monstruoso e grande monte que, com todas as minhas experiências, cada vez se agigantou mais…”
- Carl Gustav Jung

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