Texto de Evelise Pascuotti – 7°série
-
Eu sempre me conservava afastada das colegas e me negava a participação de qualquer atividade do grupo. Não tinha amigas na escola e minhas notas não eram satisfatórias.
Todos me consideravam arrogante e egoísta.
A verdade era que eu não tinha nenhuma defesa contra a terrível solidão que me acompanhava desde o meu nascimento.
Não era arrogância, era uma timidez que vinha da alma. Nas aulas sabia a resposta para as perguntas que as professoras faziam, mas não tinha coragem de responder para não chamar a atenção sobre mim.
Caminhava pela vida retraída e calada, sem dar atenção a ninguém, talvez fosse assim por não receber amor de papai, que me culpava pela morte de mamãe ao me dar a luz.
Logo após meu nascimento, fui entregue a uma babá, a primeira de uma longa série de babás. Durante minha infância pouco vi meu pai, que era para mim um estranho.
Tudo começou a mudar no dia em que fui conhecer a casa que meus avós tinham me deixado como herança.
Lá, remexendo nos velhos baús, encontrei o diário de vovó.
Curiosa, comecei a ler, e foi como se abrisse uma porta para outro mundo. O diário era muito antigo, algumas páginas estavam desbotadas, outras amareladas pelo tempo, mas as palavras que continham davam vida aos retratos que eu tantas vezes vira no álbum de mamãe e que até então não me diziam nada.
De uma maneira admirável e inesperada, foi minha avó quem me animou. Afinal de contas, éramos muito parecidas. Assim como eu, ela vivia isolada e não tinha ninguém com quem pudesse falar.
Foi nesse momento que comecei a identificar-me com ela, a sentir-me partícula dela. Experimentei um sentimento maravilhoso de participação, a sensação de descobrir minhas raízes, sabia quem era e de onde vinha. Aquele diário ficara incorporado a minha existência, pois a vida de vovó havia sido muito semelhante a minha, mas ao contrário de mim, ela havia lutado por seu lugar no mundo e conseguido superar as dificuldades que surgiam em seu caminho.
Nunca pude ter certeza do momento da transformação que se operara em mim. Aquele diário havia definitivamente influenciado a minha maneira de ser. Confiante, olhei-me no espelho e me vi muito diferente do que sempre fora. Pela primeira vez na vida, eu sentia plenamente que “EXISTIA”.
