O livro das mentiras

Publicado: outubro 16, 2011 por Bárbara em Ma Réalité (Coluna de Bárbara)
Ele estava inválido,
Mas somente seu corpo estava quebrado.
Não é tão simples,
Nem é fácil de explicar.
“Vamos deixar assim”, ela disse.
E fecha o livro sagrado das mentiras,
E cobre seus olhos,
Negando a si mesma o que pensou acontecer.
 
Este poema se chama “O livro das mentiras”, e é recitado por Tracy, a protagonista do filme “Aos treze”.

O filme Aos treze conta a história de Tracy, uma adolescente inteligente, com poucos amigos e baixa auto-estima. Um dia ela conhece Evie, a garota mais popular da escola – exatamente o oposto dela – e as duas tornam-se amigas. É nesse ponto que a vida de Tracy dá uma reviravolta, e ela conhece uma forma de vida que ainda não havia conhecido. Evie a apresenta ao mundo das drogas, do sexo e da auto-mutilação, criando uma nova Tracy e deixando-a em conflito com sua vida.
 A primeira vez que eu assisti a esse filme eu era uma criança, e devia ter entre doze e treze anos. Não preciso dizer que adorei, não é? As crianças têm a cabeça muito fechada, e se deixam influenciar fácil demais e rápido demais – foi o que aconteceu comigo. Lembro que fiquei entusiasmada com o estilo de vida que Tracy adota depois de conhecer Evie – As festas, os piercings, a popularidade. É claro que não comecei a usar drogas ou fazer qualquer coisa que não devia, mas ainda assim eu achava tudo aquilo o máximo. Quase toda semana eu ia até a locadora e alugava o mesmo filme para assistir com as minhas amigas, e depois nós fantasiávamos como seria nossa vida se nós fossemos como a Tracy e a Evie.
Que vergonha de mim mesma.

Tracy e Evie

Tracy recita o poema “O livro das mentiras” logo no começo do filme, quando ela ainda era “ela mesma”. Tracy recita-o para sua mãe, que preocupa-se com sua filha, pois acha o poema forte demais. Ele é, na verdade, o retrato de Tracy – uma adolescente rejeitada, com poucos amigos, estudiosa demais, e que tem o desejo de se tornar maior que ela mesma. Ela não estava feliz com a vida “sem graça” que levava – Isso é mostrado nas cenas em que ela joga suas bonecas fora e manda sua mãe lhe comprar roupas novas, pois ela parecia uma “idiota”. Esse lado “depressivo e insatisfeito” de Tracy é exatamente o que a leva a ter uma amizade com a garota mais popular da escola – ela queria ser como Evie.

O filme “Aos Treze” aborda vários assuntos polêmicos – as drogas, problemas familiares, e até a auto-mutilação. Muitas pessoas nunca ouviram falar do “Cutting”, apesar de ser algo muito comum entre os adolescentes. Esse assunto é muito abordado nos Estados Unidos, mas aqui no Brasil poucas pessoas sabem o que é e o porquê dos adolescentes praticarem o mesmo.
 O Cutting é o ato de se auto-mutilar. Normalmente ele é praticado cortando-se partes do corpo com lâminas, facas, gilete – qualquer coisa “afiada”. Acontece normalmente quando a pessoa está passando por um momento difícil – depressão, baixa auto-estima, ou até como uma forma de punição. A maioria dos adeptos ao Cutting são adolescentes, mas também há casos de adultos que adotam a prática.
 Os praticantes do Cutting sempre irão esconder suas marcas, por vergonha ou medo. Eles afirmam que é como uma droga – quando você começa, não consegue mais parar. Simplesmente acham que, machucando-se por fora, conseguirão “abafar” a dor de dentro.
 O Cutting é diferente do Masoquismo, pois o adolescente não sente prazer ao se cortar – ele quer apenas acabar com a dor da alma, provocando uma dor física.
 A personagem Tracy pratica o Cutting sempre que algo que ela considera ruim acontece. Ela esconde as marcas dos pulsos com camisetas de manga comprida, e sua mãe nunca desconfiava de nada, até o momento em que contam a ela.
Momento em que a tia de Evie mostra as marcas no pulso de Tracy para a sua mãe.
 
“Mães, tranquem seus filhos”. Essa é a frase dita por Tracy em uma de suas “farras” a noite. Aos Treze mostra como um jovem pode ser influenciado rapidamente, e como ele acha que o que está fazendo é legal. Ele simplesmente vai mergulhar em um mundo de diversão, sem se preocupar se aquilo é certo ou errado – e os outros que se danem.
Está mais do que na hora de colocarmos algo na cabeça dos jovens de hoje em dia: Existem formas de diversão saudáveis, existem caminhos certos e que fazem bem, existem os amigos de verdade – que irão te orientar – e aqueles que irão junto com você. É tudo uma questão de escolha.
Comentários
  1. Blue disse:

    “Está mais do que na hora de colocarmos algo na cabeça dos jovens de hoje em dia: Existem formas de diversão saudáveis, existem caminhos certos”

    Encontrei esse filme na locadora depois de Cristiane, infelizmente não aluguei, o tempo passou e as locadoras também, mas finalmente eu o conheci um pouco mais.

    Não sabia o que era cutting, aliás, não conhecia o termo correto, interessante.

    Gosto do seu poder de síntese.

  2. Sarah Héricy disse:

    Não acredito nos conceitos comuns de certo e errado então dificilmente eu entro em conflito com isso de o que é ou não saudável. O mundo e o universo pessoal estão muito além de bem e mal né, mas gostei muito de você ter ecrito sobre o cutting e comentado as razões da personagem.
    “As crianças têm a cabeça muito fechada, e se deixam influenciar fácil demais e rápido demais (…)”
    Eu sempre tento evitar generalizar tanto quando o texto não é por inteiro um texo de opinião. É dificil, mas deixa mais espaço pra conclusões pessoas da parte do leito (:
    Esse filme foi uma frebre na minha infância. Eu tinha 11 anos quando assisti por muita insistência de alguns amigos que adoraram, achei ele muito superficial. Mas vou procurar assistir novamente, seus post me fez pensar que talvez ele não seja tão superficial quanto eu me lembro.

  3. Blue disse:

    Sabe, já sofri muito por não saber o que é certo ou errado, não me refiro a moral construída por essa ou aquela perspectiva ou interesse, mas ao que seria adequado para a vida, afinal, um dia a mesma chegará ao fim, então talvez valha a pena pensar que tipo de vida deveríamos ter e construir alguma coisa nesse sentido. O problema de se destruir conceitos (ou mesmo a fé) é não constuir nada no lugar, foi o que fez a filosofia no último século.

    é bom te ver sarah.

  4. Sarah Héricy disse:

    Todo mundo sofreu com isso em algum momento, mas o caso não é não construir nada no lugar e sim se afirmar em algo tão abstrato quanto o que foi desconstruido. É essa insistência em conceitos abstratos que dá força pra sacralização da ciência e da filosofia, daí surgem nossos famosos ateus que dão significado ao “ismo” do ateísmo e doutrinam muito mais que muita religião por aí.
    E isso não tem nada a ver com o post né, sempre divagando…Mas bom te ver também, bom ler o blog de novo.

  5. Blue disse:

    Se afirmar em algo tão abstrato quanto o que foi descontruído? Então não haveria diferença entre o super-homem de Nietzsche (a maior tentativa de uma afirmação da vida sem Deus) e o cristão, ambos estariam na metafísica, insistindo em conceitos abstratos.

    A filosofia (acadêmica) não se firma em conceitos abstratos, ao menos não depois de Marx e Nietzsche (e até antes deles, isso começou com Kant), e a ciência se divide em paradigmas, não podemos chamar de “a” ciência, mas de as ciências, mas independente disso, se é daí que provem os famosos ateus, esses são tão fanáticos quanto os teístas, acreditar na ciência a esse ponto é fanatismo, talvez por isso que “doutrinem” tanta gente por aí.

    haushausuh nada a ver com o post, mas fazia tempo que não “discutia” filosofia (imagina discutir assim a cada intervalo de aula? um saco).

  6. Sarah Héricy disse:

    Preciso concluir meu pensamento mesmo sem conexão com o post :x
    Acho que a comparação do super-homem é até válida, mas a única coisa realmente abstrata nela é pressupor o homem né, abdicar das “fraquezas” humanas e se fechar na própria ilha não algo num plano muito distante.
    A filosofia acadêmica não se afirma, mas a filosofia difundida popularmente sim. Eu arrisco até mesmo dizer a filosofia no meio escolar, porque eu tive professores no ensino médio que queimaram todos os grandes pensadores em uma fogueira de ignorância numa só aula de racionalismo.
    Disse a ciência me apoiando no comum do método cientifico e sem paradigmas especificos, para qualquer ciência que seja. O que eu tô tentando dizer desde não sei exatamente quando comecei a falar disso, é que o ateísmo de hoje em dia está tão decadente de razão quanto o teísmo, tem muita gente citando russel ou nietzsche tão calorosa e cegamente que um kierkegaard (quer dizer que tá feio né) faz até mais sentido na defesa do ateísmo.

    Te dizer que fazia tempo também, mas olha que faz falta quando ninguém sequer tenta argumentar com você. Tô convivendo com gente que acha que “É questão de fé” ou “É, depende do ponto de vista” é ponto final.

  7. Sarah Héricy disse:

    e esse emotion nada a ver aí em cima hein, esse wordpress…

  8. Blue disse:

    Ah sim, concordo bastante com o que disse sobre o super-homem, na verdade eu acho tal visão poderosa e construtiva, por que afirma a vida, ao contrário do que fizeram Sartre e Schopenhauer, mas acho loucura, distorção da realidade. Por um acaso eu já fui Nietzschiano, assim como quase todos os guris que entram na filosofia, mas a vida me “provou” que não estamos no caos, e que o super-homem só pode ser rei de outros selvagens, portanto rei-selvagem contra tudo e todos.
    Ah que bom encontrar alguém que percebe a decadência disso aí que chamam de ateísmo, por um momento achei que estavas a defende-lo utilizando a ciência. Mas é isso aí mesmo, de um lado ateísmo dogmático, do outro fanatismo.
    Hmm gosto do Kierkergaard, farei meu tcc sobre ele, peguei o tratado do desespero ontem, mas só porque não achei o Augusta Gone, uma pena…

    Ah Sarah, compartilho desse convívio, a propósito, ainda ontem li algo de Dostoiévski muito interessante a esse respeito:

    “antes em nosso país a frase “não compreendo nada” dava uma reputação de necessidade a quem dela se servia. Agora honra grandemente a quem a emprega. Basta pronunciar as três palavras com um tom seguro, altivo. Um senhor dirá orgulhosamente: ‘Não compreendo nada de religião, nada da Russia, nada de Arte…’, e em seguida o colocarão sobre um pedestal”

    e continua (esse trecho achei apenas em espanhol):

    “No le queda más que buscar una persona menos antipática que la masa, halagarla y no hablar más que con ella, editando un periódico sólo para esta persona. Yo voy más lejos: creo capaz a El Ciudadano de hablar solo y para su propio placer. Y, si consultáis a los médicos, os dirán que la manía del monólogo es un signo seguro de locura.

    ¡Adelante! ¡Hablaré conmigo mismo para mi propio placer! ¡Ocurra lo que ocurra!

    ¿De qué hablar? De todo cuanto me conmueva, de todo cuanto me haga reflexionar. Tanto mejor si encuentro un lector y, si Dios quiere, un contradictor!

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