Gabi Melo

Blue:

Apresente-se Gabi, fale um pouco sobre você. (Apenas idade e cidade se preferir).

 

Gabi:

Bem, tenho 17 anos, moro em Vera Cruz – RS (não, certamente você não conhece, e nem faça questão), gosto do estado, não da cidade, se não ainda neste ano, no próximo entrarei para o curso de biomedicina em Porto Alegre e serei muito feliz com isso xD Gosto, com todas as minhas forças de música, basicamente punk rock! e de biologia também! Leio bastante e, mesmo que demore pra acabá-los, estou sempre lendo um e com outro já em vista enfim, é mais ou menos por ai… Agora, podem perguntar o que quiserem!

 

Rico:

Quais suas preferências de leitura? Gostas de Punk Rock? Interessante. Tens gosto por leituras que, tal como o Punk Rock, são agressivas e ásperas (como a literatura Beat)?

 

Gabi:

Só não curto livros que, para mim, não tem um significado, um por que específico (me refiro mais aos romances meio água com açúcar, hehe) e, assim como o punk rock, gosto de leituras que tem uma intenção e alguma mensagem a passar não tenho um gosto muito definido para isso, talvez por não conhecer o suficiente ainda, mas hoje eu leio o que me interessa mesmo, pode ser tanto ficção ou não, mas sempre em prosa, poesia só em casos raros atualmente, meu livro preferido é o 1984, do George Orwell, aliás, adoro os livros do Orwell… além dele tem o Adouls Houxley e o Richard Dawkins, e gosto do Douglas Adams também! sobre a literatura Beat, já li On the Road do Kerouac e gostei muitíssimo, até me interessaria por ler mais coisas do gênero.

 

Blue:

Voce sabe qual foi a primeira impressão que tive quando olhei seu blog? “Ela é punk de verdade”. O que tem a dizer sobre o movimento, como vai a cena na sua opinião? Punk is not dead? Ainda sobre, acha que a juventude seria melhor se incorporasse mais amplamente as ideias (ou princípios) punk?

 

Gabi:

Haaa, fiquei feliz agora! haha
Bem, como diz a letra de uma música das Baratas Orientais (nome bizzarro, eu sei), “e a alegria vem de saber que existe gente diferente por toda a parte” punk não vai morrer, pode se modificar, pode até mudar de nome, mas sempre vai existir um bando de jovens meio rebelados deixando seus princípios vivos, quanto a ideologia ligada ao “do it yourself”, a não depender do sistema, a não ser manipulado por ele e a pensar por si mesmo, a não se calar frente ao governo nem frente a qualquer outra coisa que ache ser capaz de mandar na sua vida, etc, é claro que eu penso que seria ótimo se ela fosse incorporada aos jovens! imagina uma geração inteira seguindo mais ou menos essa linha, muita coisa mudaria – para melhor!

Mas muuuita gente, ao pensar no punk, lembra basicamente da violência, da fúria, das drogas, enfim, tudo mais… Temos que levar em conta que, quando o movimento surgiu, a situação era muito diferente, os jovens ingleses de classe média não tinham futuro nenhum, ou eles trabalham o dia inteiro em alguma fábrica imunda ou não tinham o que comer, não havia diversão, lazer, não havia possibilidades… Nesse cenário que surgiu essa música de protesto, e de violência quando chegou aqui no Brasil, o punk foi interpretado a partir desse estereotipo pela maioria das bandas lá de São Paulo, elas só queriam saber de porrada mesmo! mas outras bandas começaram a surgir em outros lugares, e até em SP, com o intuito punk verdadeiro, enfim, depende do que você conhece sobre o punk, ele é bom ou não!

 

Blue:

Qual o seu conceito de liberdade? Tipo, a liberdade é possível?

 

Gabi:

Ahh, acho que não tenho isso bem concretizado ainda… gostaria de pensar que sim, somos livres ou, pelo menos, que haveria uma maneira de sermos.

Liberdade para nós, seres mentalmente evoluídos que vivem em sociedade, seria baseada num senso comum, ou melhor, na consciência de cada um sobre até onde sua liberdade pode ir. isso, em contraposição com o que temos hoje: uma liberdade barrada por leis. acho que leis não deveriam existir, talvez uma ou outra, mas no geral não. e sim, eu sei que isso provavelmente não daria certo hoje em dia e tudo mais…

Acho que esse seria meu conceito ideal de liberdade: não podemos – nem queremos – ser livres da exata maneira como gostaríamos, mas nós mesmos que ditamos os limites. tudo pra viver bem com o próximo e, ao mesmo tempo, tirar muitas vangens com isso, pois mesmo atrás do mais belo altruísmo, nossos genes continuam sendo egoístas.

 

Blue:

Já passou pela sua cabeça a possibilidade do Sid ter matado a Nancy?

 

Gabi:

Até já, mas só se ele estava alucinando por causa de alguma droga e matou ela inconscientemente (embora, até onde sei, heroína não causa alucinações, só se fosse outra)… Ele era muito ingênuo, tadinho, e amava ela muito tbm, burrinho mesmo, não acredito que queria matá-la. mas já ouvi entrevistas de amigos dele dizendo que eles sim gostariam de tê-la matado, vai saber… enfim, ela era uma groupie suja (bem suja) que esculhambou com a vida do Sid e mereceu ter morrido, hunf

 

Blue:

Quando começou a escrever suas idéias? E por que?

 

Gabi:

Comecei a escrever há um ano e meio ou dois anos, não lembro bem… Eu pensava em deixar registrado o que passava pela minha cabeça, para nunca esquecer de como eu já fui um dia, e depois poder perceber se aprimorei minhas ideias, ou não. e ouço tanta história de gente falando que rebeldia é comum na adolescência, depois passa, e até conheço pessoas com quem isso aconteceu mesmo. pois então, escrever também pode funcionar como um “guia” para eu não me perder nos devaneios da vida, hahaha. e além disso, é claro, eu escrevo pra me expressar, botar pra fora mesmo, não deixar as ideias dispersas na cabeça, até por que não conheço muita gente com quem possa discuti-las, ninguém quer me ouvir! Haha

 

Rico:

Eu considero o movimento Punk um movimento de caráter multiplo, e isso acarreta em certas dicotomias internas: há interesses e interesses dentro do movimento Punk. Há determinados sub-grupos Punk’s, como, por exemplo, os anarco-punks, os red punks, e mesmo os punks porra-loucas (i.e baderneiros natos que só querem saber de causar). parece-me que não há como dizer que a violência irrefletida não é uma característica do movimento, que aqueles que a praticam, não são punks de verdade. Para mim, vale mais aceitá-la e trabalhá-la de modo a compreendê-la. O movimento punk nasceu num período de efeervescência político-social, seria esperado que algo caótico como a violência misturada a tentativa de ressuscitar certos ideais utópicos se desse no interior do movimento, que nunca foi centralizado, e que por isso mesmo, não teria como organizar-se em torno de um pensamento comum. O que você acha disso? Você considera a violência irrefletida ontologicamente ligada à história do movimento punk?

 

Gabi:

Acho que eu concordo com tudo o que você falou. a violência, mesmo irrefletida, está nas raízes do punk sim. como você disse, o movimento nunca foi centralizado, e assim, existem vertentes ligadas a ideias que até divergem em certos pontos. mas a violência sem causa, sem ideologia, não leva a lugar nenhum, e assim o punk perde todo seu sentido. os “porra-loucas” que andam por ai assaltando velhinhas, batendo em gente na rua e abusando de garotinhas, geralmente não estão nem aí pra filosofia por trás do movimento, e só querem baderna mesmo, então, qual é o sentido? acho que eles só servem para banalizar o punk.

 

Blue:

Por que biomedicina?

 

Gabi:

Por que é a profissão mais linda que existe! eu nem mais consigo me imaginar fazendo outra coisa.. no 1º ano do E.M. vi que era apaixonada por biologia, mais especificamente a parte que envolve células e o corpo humano. sabe quando se estuda o Ciclo de Krebs? Pois é, eu me imagino no lugar do Krebs. quero trabalhar em pesquisa, descobrir o que ainda é um mistério, formular remédios novos e ajudar o mundo a ir um pouco mais pra frente com isso :D

 

Blue:

Você é atéia, certo? Por que.

 

Gabi:

Depende muito do conceito de deus, eu sou ateia com relação a todos os deuses já inventados pela humanidade. eu vejo isso com uma concepção bem diferente, e beeem distante da igreja. resumindo, deus não é ruim, a religião é. Por quê? Simplesmente não preciso crer num deus religioso pra me guiar, e não tenho motivo nenhum para achar que ele existe.

 

Blue:

Fala algumas das suas principais influências aí para nós.

 

Gabi:

Meus pais, ou meu pai, mais especificamente, que ouve minhas teorias e é quem debate comigo assuntos como política e religião, principalmente. acho bom ouvir alguém mais velho em quem eu confio pra ajudar a concretizar as ideias. Em segundo lugar vem o rock. só depois que ele entrou na minha vida foi que comecei a me tornar o que sou hoje, talvez pelo simples fato de ter me estimulado a não ver problemas em desviar do padrão e passar a ver isso como uma qualidade. e o punk rock então! aquelas letras ensinam muita coisa!

Depois vem os livros e filmes, que sempre acrescentam algo a mais, mas nenhum em especial, que eu me lembre agora, pelo menos…

 

Blue:

Gostei muito da entrevista, parabéns por ter passado na UFRGS em biomedicina, e pela profissão que terás.

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