Rico

Um breve relato sobre você:

Chamo-me Raony F. Moraes, vulgo Rico, nasci em Garuva, SC, mas moro em Guaratuba, litoral do PR. Tenho 20 anos, gosto de espanol, de francês e de Filosofia. Gosto também de escrever e de ler. Pretendo cursar Filosofia na UFPR, para depois tornar-me professor universitário e especializar-me em filosofia francesa. Atualmente, além de estudar, tenho buscado aprender a tocar guitarra Blues (devo dizer que estou me saindo muito bem), e estou em busca de uma banda. Sou polêmico, cáustico e sátiro, minha escrita é, geralmente, provocativa, pois gosto mesmo é de atarvessar as pessoas, com aquilo que escrevo, como a lâmida de uma espada atravessa o corpo de um guerreiro medieval. Bem, é isso. Podem perguntar. xD

Bem, você diz que sua escrita é geralmente provocativa, e que tem um gosto de atravessar as pessoas o que necessariamente há de provocoativo? Tem preferência em escrever, assim? - Nina Oliveira

É uma boa pergunta… rs

O que há de necessariamente provocativo naquilo que escrevo? Bem, primeiramente, gostaria de parafrasear algo que, certa vez, disseram ao meu respeito: “as pessoas não gostam muito do Rico, por que ele costuma falar algumas verdades de uma forma não muito agradável”. Penso que é mais ou menos por aí, mas me permita explicar melhor.

As pessoas tem o hábito de pensar que, quando um intelectual fala, ele fala em razão delas, para elas, como quem fala para um objeto amado e/ou admirado. Eu não amo as pessoas, muito menos as admiro. O que me força a escrever é, justamente, a idiotia delas. Pessoas acham, equivocadamente, que são especiais, querem ter o seu ego amaciado, por isso, não suportam quando alguém diz algo que elas não gostariam de ouvir, ou que gostariam de ouvir, mas do jeito que elas querem ouvir. Eu não me ajoelho diante das pessoas, – elas chamam isso de humildade, eu chamo de prepotência e hipocrisia -, não busco agradá-las, pois a arte de escrever, no fundo, não foi feita para agradar de fato. Nesse sentido, a célebre frase de Kafka, tem toda a razão de ser:

“Apenas se deveriam ler os livros que nos picam e que nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para quê lê-lo?”

Se você quer ler livros que te corroborem e que te acariciem, não leia livros de filosofia, nem muito menos leia literatura de verdade, pois eles, definitivamente, não são para você (você pode ler Crepúsculo, esse sim é puro toddynho; ou quem sabe um livro de auto-ajuda (a Bíblia também vale) – viram, já estou sendo provocativo… rs). Gosto muito de um escritor maldito, o Bukowsk, pela forma que ele escreve: palavrões, putaria e imoralidade. É uma escrita que choca, que provoca – arte-monstro, arte-detrito, arte-horror -, eu tenho o hábito de escrever coisas com uma pitada disso. Dispenso formalidades e pudores extremos (no meu perfil tem algo nesse gênero).

Eu, de certo modo, sou um polemista (eu até mesmo já afirmei isso na apresentação), e aí também reside o meu caráter provocativo. Pessoas não gostam muito de polêmicas – principalmente quando o tema não está ao seu favor. O senso comum adora dizer que assuntos como política, futebol e religião não se discutem. Mas eu discordo disso. Principalmente no que diz respeito ao primeiro dos três itens. E as pessoas não gostam das coisas que eu falo. Elas ficam chocadas, me acusam das coisas mais terríveis, e se duvidar, seriam capazes de me bater se fosse cara-a-cara (rsrs). A ironia e o sarcasmo também estão presentes na minha escrita, e isso também não agrada muito as pessoas. Em bem da verdade, elas ficam irritadas deveras quando faço alguma piada sarcástica ou ironizo – acho que elas achariam melhor se eu saísse por aí xingando todo mundo de viado e de filho da puta.

Atualmente eu não tenho participado com ênfase de debates virtuais, mas há um certo tempo atrás, eu participava muito, e era comum meus interlocutores se irritarem e quererem me agredir verbalmente. Quando eu não aceitava o jogo e replicava no mesmo nível, eu optava pela provocação, pela sátira, era engraçado, e as outras pessoas, quando me compreendiam, também achavam engraçado. O único problema, volto a frisar, é que as pessoas não gostam muito disso: acham que é arrogância (tá, eu sou arrogante… rsrs), falta de tato, impostura intelectual, infantilidade, carência de argumentos etc. E isso não é verdade. O riso desarma o idiota, é nisso que eu acredito, até por que, funciona comigo.

E sobre eu ter preferência por escrever assim, não sei se seria preferência, eu simplesmente escrevo e, quando vejo, está tudo lá. Em alguns casos, ou opto por outro estilo de escrita, é verdade, mas, não sei, não penso muito sobre isso.

Espero que minhas respostas tenham sido satisfatórias.

XD

Como você me explicaria, sem medi de ser feliz, a seguinte frase de Nietzche: “Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você” - Felipe Pacheco

Primeiramente, essa frase precisa ser colocada em seu contexto, para isso, será preciso trazer a primeira parte que compõe esse aforismo que, então, ficará assim:

“Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.”

Esse aforismo pode ser encontrado no livro Para Alem do Bem e do Mal, o qual eu não li, mas, como essa aforismo é bem conhecido, creio poder dissertar sobre ele.

Interpretando-o, ele ficará assim: podemos nos tornar, em combate, aquilo que combatemos, e por isso, devemos tomar cuidado ao se combater algo. O termo “monstro”, aí, é sem importância, é um artifício artístico para causar impacto, pode-se utilizar qualquer outro termo em seu lugar, como, por exemplo: “aquele que combate a ignorância deve precaver-se para não tornar-se também ignorante”. Em relação ao abismo olhar para dentro de você: quando analisamos profundamente determinada coisa, por vezes, dispensamos tanto tempo, tanto esforço para analisá-la, que acabamos por olhar a nós mesmos – e não a coisa -, e, por fim, passamos de observador a observado, quando olhamos por demasiado tempo para o abismo, tornamo-nos também abismo (esse é o significado do “o abismo também olha para dentro de você”). Nietzsche faz uma analogia aí: tal como o abismo, onde o abismo acaba sendo nós mesmos, por demasiado tempo e esforço que dispensamos para contemplá-lo, tornamo-nos também monstros em razão do quanto lutamos contra os monstros.

É isso… hehe

Aliás, só para não perder o hábito de alfinetar: os comunistas deveriam ter levado a sério essa frase: “aquele que luta contra a tirania deve acautelar-se para não tornar-se também tirano”.
Nietzsche 1 x 0 Marxismo… hehehehehehehe

O que você vê de tão especial em Nietzche? O que ele lhe proporcionou, tal que, fez com que você mudasse sua concepção de vida, sua maneira de olhar as coisas…enfim, tudo? - Felipe Pacheco

Nietzsche foi, para mim, a porta de entrada para o mundo da Filosofia, esse talvez seja o primeiro motivo por eu apreciá-lo tanto. É claro, eu li Sartre também, mas ele não me afetou tanto quanto Nietzsche. Se eu mudei minha maneira de ver e avaliar o mundo, foi por que o próprio Nietzsche se mostrou como alguém extraordinariamente original nesse aspecto. A Filosofia de Nietzsche abalou não só a História da Filosofia, como também a Filosofia propriamente dita, uma nova imagem de pensamento, em Filosofia, se originou a partir de Nietzsche.

A agudeza de seu pensamento foi tamanha que seu legado não se encerrou apenas num saber filosófico. A psicanálise, hoje, deve muito à Nietzsche, foi através dele, que Deleuze e Guattari escreveram o livro que viria a sacudir tudo o que até então se acreditava em psicanálise: inconsciente como teatro de representações, desejo enquanto falta e castração, Complexo de Édipo etc., todos pressupostos psicanalíticos que, com a ajuda de Nietzsche, seriam postos em cheque no O Anti-Édipo. A esquizoanálise (que não é apenas Nietzsche) é a grande contribuição de Nietzsche para a psicanálise.

Em Física, podemos pensar Nietzsche como alguém que coloca questões interessantes, problemas desafiadores. Pela termodinâmica, sabe-se que um equilíbrio universal é inadmissível. Nietzsche já o sabia quando falava mal da Física em seu tempo (rsrs). Em quântica, relatividade e eletromagnetismo, então, falar em nome dessa idéia de harmonia é besteira. Fora os artistas e, talvez o mais importante para mim: o Nietzsche criador de novos meios de ação e luta políticas. Sucintamente: o que me liga a Nietzsche é a o seu potencial revolucionário e subvertedor da realidade. Nesse sentido, Nietzsche, para mim, será sempre essencial.

Você saberia me dizer se houve alguma contribuição, também, musical por parte de Nietzche? Fora é lógico a grandiosa composição de Richard Strauss para um de seus livros XD - Felipe Pacheco

Em se tratando de música, Nietzsche sempre foi um erudito, tanto que teve, por muito tempo, Richard Wagner como amigo, sendo o rompimento de sua amizade em razão do anti-semitismo de Wagner. Mas Nietzsche sempre buscou pensar a música recorrendo aos gregos: a música é a parte propriamente dionisíaca, não toda e qualquer música, mas Nietzsche, em suas obras, sempre fez referências à música ligando-a à dionísio, ao modo dionisíaco de ver o mundo. Fora isso, se você tiver sorte, você pode encontrar pela net algumas composições de Nietzsche (música clássica). Só não te mando algum link por que não tenho nenhum. Eu nunca ouvi, mas os que já houviram, apreciaram.

Quanta coisa bonita Nietzche fez!
Então saberia me explicar o porque do ódio de Blue (socrático) em relação a ele? Eu até sei algumas coisas do tipo “Nietzche afirma que não existe o bem” e tal…mas saberia me explicar o por que dessa rivalidade entre socráticos e nietzchianos?
- Felipe Pacheco

Essa não é difícil. Bem, Nietzsche não se opõe tão somente à idéia de Bem e Mal absolutos, que sejam “em si”. O problema de Nietzsche com Sócratas, tem base também em outros pressupostos: 1) Sócrates é dialético, e segundo Nietzsche, a dialética é o método dos fracos, dos vis, dos decadentes, é o método pelo qual a plebe se eleva. 2) O império absoluto da razão, que dá origem à famosa fórmula razão=virtude=felicidade. Nietzsche sempre se opôs à idéia de uma razão governante, que suprime as paixões. 3) Nietzsche também diz que a a tragédia morre com Sócrates. 4) Sócrates é aquele que dará todas as bases para o platonismo, e Nietzsche não vê com bons olhos o platonismo, isso o faz repudiar ambos filosoficamente.

Busquei ser o mais sucinto possível, pois se trata de uma temática um tanto quanto extensa, então, é isso.

E você concorda com ele quanto a dialética? Por que? (tá parecendo até prova de escola isso kkkkkkkkkkkk) - Felipe Pacheco

Sim, concordo com Nietzsche quanto ao que ele diz a respeito da dialética (e de Sócrates e Platão). Mas, antes de prosseguir, é preciso frisar: escravo, fraco, decadente, assim como alto e baixo, em Nietzsche, não são valores, mas o elemento diferencial do qual deriva o valor dos valores, fala-se em tipos, de uma tipologia e hierarquia propriamente nietzscheanas. Isso é o que, quiçá, deva-se ter em mente para se compreender a genealogia e a crítica nietzscheana à instância dialética.

Mas você me pergunta por que, afinal, sou a favor de Nietzsche e contra a dialética? É simplório. A dialética, tal como Nietzsche a vê, e tal como eu a concebo, é aquilo que caracteriza a negação como forma de viver e de pensar. O dialético é o filho da negação, o que insere no pensamento o peso do negativo. Nietzsche nos ensina que não basta uma relação, ainda que essencial, entre dois objetos, para se falar em dialética, e sim, que tudo está ligado ao lugar ocupado pelo negativo nessa relação.

Segundo a teoria das forças elaborada por Nietzsche, uma força está sempre em relação com outras forças, e tais forças são justamente o objeto da força. O problema reside no fato de que uma forma que domina nunca nega as forças que subjuga. A negação não é aquilo do qual a força retira a sua atividade. Vale citar Deleuze, que diz que em Nietzsche, a negação é tão somente um “luxo”, um “gozo” da afirmação – ela sempre vem depois. A negação só pode ser o resultado de uma força ativa enquanto afirmadora de sua diferença. A força não nega tudo aquilo que ela não é, ou as outras forças, mas afirma aquilo que ela é enquanto força.

Mas a dialética substitui a agressividade própria ás forças ativas afirmadoras da diferença pela vingança e o ressentimento, oriundos da negação de tudo aquilo que uma força não é. Nietzsche irá opor aos elementos dialéticos (contradição, negação e oposição) o gozo da diferença, a dança, o riso, e a leveza da afirmação.

O destino do dialético é a fraqueza, por ser incapaz de afirmar a sua diferença. Por isso ele se vinga e se ressente. E o ponto de Nietzsche é precisamente o meu: pensar a vida, e o próprio exercício de pensamento, para além dos preconceitos da dialética, da vilania típica da dialética. É algo como não dialetizar o mundo, não introduzir do mundo os movimentos da contradição, da negação e da oposição, assim colocar-se para além dos modos de vida reativos, caracterizados justamente por serem aqueles que estão separados daquilo quilo que eles podem. É esse o caráter propriamente antidialético de Nietzsche.

E sobre as perguntas parecerem prova escolar, não há problema algum. Você é músico, e eu segui o mesmo caminho, fazendo perguntas sobre música e talz… Agora você desconta… hehehehe

Eu estou postergando minha “entrada” na leitura filosófica, mantendo-me na literatura clássica – minha preferida. Levando em conta que Nietzsche foi sua porta de entrada, quem você indica primeiro para qualquer um disposto a ler filosofia? - Jess

Filosofia pode ser de início um pouco complicado para quem não está nada, ou muito pouco, familiarizado com a escrita propriamente filosófica. Para muitos, parece bobeira distinguir o texto filosófico do texto literário, mas a diferença existe e o seu efeito é evidente. Eu vou te dar várias sugestões, você pode optar por uma delas, ou simplesmente ignora-las e encontrar você mesma a sua porta, afinal, na Filosofia, as entradas são múltiplas. Então, vamos lá:

1) Você pode tentar uma ordem cronológica de leituras, começar com os pré-socráticos, para compreender um pouco os primórdios da Filosofia, e depois passar para os socráticos (Sócrates e Platão são essenciais), terminando com Aristóteles. Para a Filosofia grega, eles são essenciais, fora que Aristóteles é o “patrono” da lógica, e isso possibilita também compreender um pouco mais sobre método científico – você ganha em dobro. Depois disso, pode-se optar pelos escolásticos (Agostinho, St. Thomas de Aquino etc.), e aí só ir vendo os que te interessam, segundo a cronologia da História da Filosofia. Mas eu alerto: cuidado caso queira ler um Kant ou um Hegel, eles não são fáceis quando não se está habituado com a escrita filosófica. Hegel mesmo gostava de escrever difícil e admitiu isso publicamente.

2) Há um livro, que você pode encontrar em versão PDF, intitulado Convite à Filosofia, é de uma brasileira chamada Marilena Chauí, é uma ótima introdução, já o li quase que completamente (o livro é grande, muito grande), e a autora faz um bom balanço da Filosofia. Eu não concordo muito com ela, mas ainda sim acho o seu livro fundamental para quem deseja começar.

3) Você disse que gosta de literatura e que não está familiarizada com a Filosofia, não é? Bem, é possível, já que você tem tato em se tratando de literatura, você começar com filósofos que tenham uma escrita um pouco mais literária, digamos assim. Sartre, por exemplo, tem bons romances filosóficos (ele até ganhou o Nobel de Literatura, mas recusou o prêmio, em 1964), são eles: A Idade da Razão, A Náusea, Entre Quatro Paredes. Ou você pode ler a célebre conferência O Existencialismo é um Humanismo, onde Sartre busca, de uma forma menos acadêmica e mais compreensível, explicar o fundamental de sua filosofia. Tem o Voltaire também, que escreveu vários romances filosóficos. Vale a pena você buscar ler filósofos dessa linha, para depois ir se aprofundando.

“Agora a pergunta que pra mim não quer calar e que você já estava me devendo uma resposta…Me explique a essência de “Also Sprach Zarathustra” ^^ (Sem aquele medo de ser feliz, obviamente XDDD)” - Felipe Pacheco

Você se refere à música, não é mesmo? Eu preciso ser sincero, embora já conhecesse a música, nunca parei para refletir sobre ela. A aprecio deveras, mas para responder sobre sua “essência”, eu teria que voltar a ouvi-la e dispensar um tempo para refletir sobre ela. Fora que eu teria que pensar, não sei, nalguma relação com o Assim Falava Zaratustra, do Nietzsche, o que também exige tempo. Eu poderia pensar se o seu caráter é dionisíaco, mas… É realmente bem difícil. Nessa pergunta, você realmente me pegou… hehe

Você vai conseguir colocar um pouco de sua personalidade no tema “Jovem Atual” que é o objetivo do projeto do e-book? - Lúcia Helena

Eu acredito que sim. O personagem do meu conto seria um garoto que passa a refletir sobre a sua condição de criança, de jovem, e também de adulto. É um pouco surrealista, mas acredito que há um pouco de mim lá também, em algum lugar de alguma forma. Eu também, várias vezes, já me pequei pensando sobre minha condição existencial. Os questionamentos do personagem não são apenas dele, mas de mim e de muitos outros que como eu, passam a refletir sobre isso. Confesso que meu talento não é a Literatura, mas eu me esforcei para expressar o que eu desejava. Penso que não falharei em meu propósito.

O que é um texto bem escrito e um texto mal escrito? - Jess

Um texto bem escrito seria aquele que, independente de seu gênero, é capaz de alcançar o seu propósito, que é o propósito de toda a linguagem, e que a linguística vem batendo em cima desde muito muito: comunicar. Se um texto consegue passar a idéia que se pretende transmitir, significa que ele foi bem sucedido, e por isso, bem feito. Mas não basta apenas ter uma idéia e colocá-la no papel. Eu não gosto muito da idéia tosca de hoje, de que qualquer um pode escrever como bem entender e em qualquer lugar. Quando você critica essa postura, dizem que você é preconceituoso – preconceito linguístico, chamam -, mas não é bem assim.

Para um texto ser bem escrito, e alcançar o seu propósito – que é comunicar -, ele precisa obedecer regras básicas de escrita, pois do contrário, o texto se torna ininteligível e todos perdem. E um texto, em minha concepção, mal escrito, seria aquele que não segue tais regras e falha em seu propósito de comunicar. Uma simples vírgula fora do lugar pode levar um homem à morte (se você conhece a velha história do telegrama, do delegado e do prisioneiro, vai entender… rs). Nas escolas nós vemos muito disso: jovens mal preparados no que tange a escrita, escrevendo de forma desleixada, pouco interessados em tornar o texto inteligível. Mas não apenas nas escolas, no Orkut muito disso ocorre. Veja o internetês exacerbado e o famigerado miguchês. É pura ignorância.

Aí dizem que devemos respeitar as diversas formas de linguagem. Mas não se trata de desrespeitar a diversidade do léxico, e sim de apontar a ignorância das pessoas, o pouco zelo com que elas tratam a própria língua. Como certa vez disseram na comunidade Nietzsche Brasil: preconceito, quem sofre é o professor, apelidado de “Pasquale” pelos jovens rudes e sem sensibilidade, os mesmos que entendem, por cultura, futebol e funk. A canalha sim é preconceituosa e perversa. Não o professor de português.

* Refazendo agora a resposta à pergunta do Felipe, sobre a essência do Zaratustra (O Felipe falava sobre o livro):

É difícil, muito difícil mesmo, em se tratando do Zaratustra, falar em uma “essência”. Zaratustra é um livro obscuro, perigoso, repleto de cavernas e subterrâneos, perder-se em suas linhas é fácil. O gênero aforístico do livro torna tudo ainda mais difícil. Nietzsche abusa de metáforas, neologismos, metonímias, paradoxos, figuras de linguagem etc. Muitas vezes, você tem que fazer um trabalho de decifrador, se se quiser compreender o que realmente Nietzsche quis dizer nesta ou naquela passagem – e mesmo assim as certezas nos escapam. Pode-se dizer, com um pouco mais de segurança, que a “essência” do Zaratustra seria uma obra artística onde Nietzsche expressa os aspectos mais gerais de toda a sua filosofia. A verdade é que podemos encontrar, no Zaratustra, tudo o que ele havia dito em seus livros anteriores: vontade de poder, Ubermensch, teoria moral, ressentimento e má-consciência, a distinção entre forte e fraco, senhor e escravo, teoria das forças, genealogia etc. Ou, para falar à maneira de Nietzsche, pode-se citar o subtítulo do livro: “um livro para todos e para ninguém”.

Agora foi… hehehe

O que você acha da música de Felipe Pacheco? kkkkkkkk Seja sincero XD - Felipe Pacheco

Bem, eu já havia dito, certa vez, que suas músicas eram aprazíveis. Eu realmente gostei delas, são muito bem trabalhadas, tanto é que ainda comentei que me lembravam JRPG’s como Final Fantasy (eu jogava FF madrugadas a fio, de tão viciado que eu era quando mais jovem… rsrs). Você é talentoso, isso ninguém pode negar. Penso que poderei vê-lo, futuramente, ligado a algo importante no mundo das trilhas de games – quem sabe o seu nome nos créditos de um bom jogo de RPG? Não duvido disso. Imagino você daqui a alguns anos, se continuares assim, serás realmente grande. 

Muito obrigada pelas sugestões, Rico! Lendo o que você disse, talvez eu já tenha começado… Já li bastante sobre Sócrates, Platão, Aristóteles, mas os escritos deles em si, só li algumas passagens (o que pretendo mudar). É nisso que me referi (eu acho) quando disse que estou de fora ainda desse mundo. Mas quando estudei os Pré-Socráticos, Sócrates, acabei chegando aos Sofistas – o que chamou mesmo minha intenção… E isso é tão perigoso. Mas oras, na filosofia, o que não é? Acho que já li boa parte desse livro. Em Introdução à Filosofia tivemos muitas apostilas com capítulos da Marinela Chauí. Realmente, estou me sentindo meio idiota agora, parece que não percebi que já comecei a lê-la. Mas não é isso… Não, certo, creio que você entendeu o que eu quis dizer, que não comecei a explorar esse mundo (as obras dos filósofos) por mim mesma. Gostei muito das suas sugestões. Estive pensando recentemente em Voltaire. Falando nisso, comprei um livro bem antigo num sebo, chamado “História Crítica do Pensamento”. Sabe algo sobre? - Jess

Desconheço esse título, não poderei ajudá-la. Ele me é familiar, creio que alguém o citou nalgum forum, mas não consigo me recordar. Se eu o conhecesse, eu falaria sobre ele.

=]

Qual sua visão social, filosófica e pessoal sobre o homossexualismo? XD - Felipe Pacheco

Para mim, homossexuais não são, enquanto homossexuais, nem melhores nem piores do que ninguém, ou seja, não creio na idéia de gênero como critério avaliativo de caráter e afins. Um dos meus filósofos prediletos (Michel Foucault) era homossexual. Eu o admiro deveras pela forma que agiu publicamente em relação ao seu estado, numa época em que tratar de homossexualismo era mais problemático que atualmente. Um intelectual dizer-se homossexual na França dos anos 50? Não era coisa fácil, Foucault mesmo tentou o suicídio diversas vezes em consequência disso. Quando surgiu o Hospital (na França, lá pela época de Napoleão, se não me falha a memória), homossexuais eram internados por serem considerados doentes. E na época de Foucault, essa idéia ainda sobrevoava tanto a massa quanto os especialistas.

Além do mais, eu acho essa idéia de avaliar um sujeito a partir de sua orientação sexual, um tanto quanto quimérico, afinal, o que é uma mulher, o que é um homem, o que é um homossexual? Socialmente falando, o gênero é um preconceito, ele esquadrinha e delimita nossa personalidade, nossa “essência”. Veja o que ocorre hoje em dia: se você deixa de fazer algo, ou simplesmente faz algo que não é considerado “coisa de homem”, logo te chamam de “gay”, “viado” etc.

Eu passei por isso na minha época de colegial. Eu sempre fui aquele cara que, diferente de quase todo mundo, não estava interessado em sair “pegando” todas as garotas da minha sala; ou olhar para um mulher com o único intuito de ver o tamanho dos seus seios e da sua bunda – as mulheres também eram estúpidas, por isso eu não me relacionava com elas. E o que foi que isso ocasionou? Começavam a especular sobre minha orientação sexual com base no comportamento que eles achavam válido para que alguém pudesse considerar-se homem: “ser homem de verdade é foder pra caralho”. Quando eu olho para alguém, eu não vejo homem, mulher, ou homossexual, eu vejo, apenas, pessoas.

“Qual a sua religião? O que Nietzsche diz sobre elas? Você concorda com ele? Por que? Estou estudando na geografia a questão da Palestina (hoje Israel), e acabamos por hoje por dizendo que se houvesse um bom uso da dialética, essa questão poderia ser resolvida. Óbvio que eu tive conjecturas quanto a isso, pelo fato da religião e idéias diferentes entre os dois grupos. Mas enfim…o que você tem a me dizer da questão da Palestina? Alguma idéia de Nietzsche poderia ser usada no contexto? Qual seria a sua idéia para uma divisão territorial que tanto beneficiasse a israelenses quanto a judaicos, levando em conta a divisão da ONU de 1947 em 51% pra judeus e 49% para israelenses. (A aula de geografia foi a primeira…e estou desde 7 da manhã doido pra te perguntar isso kkkkkkk até anotei no meuc adernos perguntas pra não esquecer XDDD) :D” - Felipe Pacheco

Eu não tenho religião, nem mesmo compartilho de quaisquer valores morais advindos das religiões, e sou também ateu, “graças a Deus” (rsrs). Niezsche vê as religiões – principalmente o cristianismo -, como uma doença, como um veneno para o tipo homem. O cristianismo promove o niilismo: o ódio, o repúdio, pela vida em nome de uma outra vida, num outro mundo, superior a este. O ideal supremo do cristianismo é o ideal ascético – a negação da vida. O cristianismo também amesquinha o homem, quando instala o ressentimento e a má-consciência como seus princípios fundamentais. O homem do cristianismo é um fraco, um decadente, separado de tudo o que pode (reativo), vingativo e rancoroso para com a vida. Dizem que Jesus morreu na cruz para nos salvar, ledo engano, ele morreu, de fato, mas para nos dizer: vocês são culpados, a vida é culpada, maldita, amaldiçoada, eu os provo isso com meu sangue e minha dor. Eu concordo com Nietzsche em todos esses aspectos, e busco desenvolver um pensamento capaz de superar o pathos cristão, inaugurando assim novos modos de sentir, de ver e de estar no mundo, para além do ressentimento e da má-consciência, do ascetismo e da degenerescência, em suma, “para lém do bem e do mal”.

Oks, Felipe, muita calma nessa hora, é uma pergunta delicada, exige uma pausa para reflexão, não quero cometer injustiças em minha análise. Vou tentar, de um modo sucinto, responder às suas duas perguntas em uma única resposta, que irá articular um pano de fundo nietzsheano e uma análise do conflito pelo viés da resolução deste.

Certo, primeiramente, sou radicalmente cético em relação às intervenções da ONU para amenizar ou resolver esse conflito. É claro que se trata de um conflito político, ideológico, econômico, que envolve muito mais que os povos em questão, mas, ele não deixa de ser, em primeiro lugar, religioso, e em relação à isso, não há instituição capaz de intervir com eficácia, sendo essa intervenção, apenas, o reflexo da prepotência ocidental de arrogar-se no direito de botar o dedo onde não é chamado.

Você me interroga sobre o uso de Nietzsche para analisar o conflito, não é? Bem, tanto a minha, quanto a opinião que provavelmente seria a de Nietzsche, é que não há outra saída que não a da guerra – que já ocorre -, para se tentar resolver a questão. Não se trata de ambos os povos darem-se as mãos e saírem felizes e sorridentes, mas de dominação, de subjugação do outro. Você diz que há uma proposta de divisão territorial, da ONU, de 1947, ora, se essa proposta fosse tão boa, o conflito teria sido resolvido, não é mesmo?

E o que isso evidencia? Evidencia que a saída democrática, pacífica, consensual, não é, em bem da verdade, uma saída absoluta, mais correta e superior que a guerra e o derramamento de sangue. Já se passaram 60 anos, desde que a ONU fez essa proposta, e ambos os povos continuam em guerra. Isso só demonstra o quão falho e ineficaz é o ideal democrático de resolver os conflitos “diplomaticamente”. O ocidente desenvolveu um repúdio hipócrita pela guerra e pelo sangue, e isso o impede de ver que pacifismo e paz não resolve complitos. Conflitos já supõem guerra, luta e sangue derramado. Mas o pessoal acha que levantar uma bandeira branca irá resolver algo. Pura besteira ocidental.

Enfim, eu não consigo vislumbrar um futuro onde, tanto israelences quanto judeus, sairiam vitoriosos e satisfeitos com um consenso em relação à divisões territoriais ou coisa do gênero. Eu sou à favor da guerra e do derramamento de sangue. Eu, diferentemente dos democráticos dementes, não sou contrário à guerra, sou, e muito, à favor do sangue e da espada, como diziam os cavaleiros medievais. O próprio ideal democrático que o ocidente vomita a torto e a direito, só se tornou o que é, após guerras e mais guerras. A bandeira branca da democracia está manchada de vermelho. Eu prefiro não ser hipócrita, e já colocar as coisas às claras. Para você ter uma idéia melhor do que penso, epara também finalizar, citarei um trecho do Zaratustra (já que também, se trata de trabalhar com Nietzsche):

“Vós deveis procurar vosso inimigo e fazer vossa guerra, uma guerra por vossos pensamentos. Se vosso pensamento vier a sucumbir, vossa lealdade, contudo, deve cantar vitória.

Não vos aconselho o trabalho, mas o combate. Não vos aconselho a paz, mas a vitória. Seja vosso trabalho uma batalha. Seja vossa paz uma vitória! Não é possível ficar calado e permanecer em paz se não quando se tem flechas e arco. Caso contrário, passa-se o tempo em questionamentos. Seja a vossa paz uma vitória.

Dizeis que é a boa causa que santifica também a guerra? Eu vos digo: a boa guerra é que santifica todas as coisas.
A guerra e a coragem têm feito mais grandes coisas do que o amor ao próximo. Não foi vossa piedade mas vossa bravura que até home salvou os desafortunados.” [Assim Falava Zaratustra - pág. 49]

Onde vc vai colocar esse seu conhcimento no conto pra final do e-book? - Lúcia Helena

Como eu havia comentado antes, o personagem principal do meu conto é alguém que passa a questionar a sua condição de criança e de adulto. Meus conhecimentos entram justamente nos meios pelos quais eu desenvolvi o conto. Não é nada muito técnico, o que eu fiz mesmo foi deixar minha imaginação fluir, sem dar muita importância a floreios e afins. Questionar a nossa própria existência, a nossa condição de sujeitos, é importante, isso já está em filósofos como Nietzsche. Usei dos meus conhecimentos para produzir um conto que provoque nos leitores, essa curiosidade, que expresse a importância da introspecção, do pensar sobre si mesmo. A máxima “torna-te quem tu és” não estaria intimamente ligada a máxima “conhece-te a ti mesmo”? É uma questão propriamente filosófica que se impõe aí.

Você critica o socialismo certo? O que você tem a me dizer da Noruega, que após a greve de 1 ano, conseguiu uma igualdade social, através da conscientização de classes? E o que você teria me dizer da encíclica Repum Novarum de Papa Leão XIII? - Felipe Pacheco

É, depois de três dias, dou sinal de vida. Bem, Felipe, deixarei essas últimas perguntas em branco. Eu estava puto com umas coisas nesses últimos dias, então, fiquei fora daqui – estava até desejoso de deletar o Orkut e lugar o botão foda-se, mas pensei melhor e me aguentei. Considerando que o tempo de entrevista se encerrou, o que respondi até aqui já basta, não?

Comentários
  1. Blue disse:

    Excelente, parabéns a todos.

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