Da Inocência Feliz à Mediocridade Cruel

conto de Rico

Cheguei cedo ao colégio… Era uma manhã fria de inverno, o sol tímido banhava as pessoas com sua branda luz amarelada. Vários outros alunos estavam chegando – uns com seus pais, que os traziam de carro, outros de bicicleta, outros de ônibus, e eu, bem, eu, cheguei sozinho, a pé, como sempre preferi vir ao colégio. Não que meus pais não pudessem me trazer, eles até podiam, mas meus hábitos eram meus hábitos, e eu nunca os quebrava.

Depois de ter dado algumas voltas pelo pátio, sentei-me num banco próximo da cantina, eu gostava dele, e dele era possível observar uma árvore frutífera – de fato não sabia que fruta ela dava, mas sei que dava frutos -, ela era bonita, e deixava à vista grandes bolas vermelhas, que se misturavam com as folhas verdes que lhe davam um contraste singular.

Sempre que eu olhava para essa árvore, eu sorria-lhe, como se a sua beleza que só uma criança poderia ver, fosse, para mim, uma saudação e um convite, e o meu sorriso, a reciprocidade da nossa estranha e singular comunicação que se edificava muda; e de gestos fantásticos, surreais, se constituía.

Mas logo nossa brincadeira era interrompida pelo soar do sinal. E pela multidão de alunos que me tapava a vista e iam em direção às salas de aula. Eu estava na quinta série, e estudava na sala 03, logo ao início do corredor. Tentei me despedir da minha nobre e estranha colega, mas um dos inspetores me puxou e apressou-me a entrar. Eu, como não poderia resistir, fui e entrei.

Entrei calado – como sempre fazia -, caminhei até minha carteira, ao fundo, e me sentei, retirando a pesada mochila das costas e a repousando sobre o chão, ao lado da carteira. Era aula de Geografia, de uma professora que falava, falava muito, e eu não entendia nada, mesmo que, estranhamente, eu me desse bem na sua disciplina. Na verdade, era que a matéria, era inteligível, o que eu não conseguia entender, era o “por quê?” daquilo tudo. Ela só falava, eu anotava no caderno, fazia as lições e pronto. Mas sempre faltava algo que eu não entendia, mesmo que me esforçasse a entender.

Nisso tudo, lembrei de quando meus pais me matricularam para esse novo colégio. Indaguei-lhes sobre as razões de eu ter de ir para o colégio, e eles responderam:

- É para você crescer, filho, somente assim você será alguém, como eu e sua mãe. Respondeu meu pai suavemente.

Naquele momento, eu apenas me calei e fui para o quarto, mas a resposta permaneceu em minha mente, martelando insistente, como que tentando me dizer algo. E agora, talvez, eu tenha entendido, quase um ano depois de ter recebido essa resposta.Retornei de meus devaneios para a sala de aula quando a professora elevou a voz, e, junto disso, me vi, novamente, num lugar que não me fazia sentir bem. Afinal, crescer para quê? Não era o meu propósito, ali, crescer, eu ainda era uma criança, de certo modo; eu queria era mesmo continuar criança, pois eu era feliz assim, e gostava das minhas ilusões infantis. Enquanto diziam para mim, “cresça e seja alguém”, eu já estava longe, pensando “continuarei assim, pois é isso o que eu quero”.

Eu só queria, mesmo, que chegasse logo o intervalo, e assim, eu pudesse visitar minha colega, para retomarmos novamente o nosso ritual diário, nossa diversão secreta. Sim, os adultos diriam que era apenas uma árvore, mas para uma criança, uma árvore deixa de ser apenas uma árvore, e é uma pena que os adultos não tenham a potência inventiva de uma criança – quem sabe, assim, eles parariam de procurar, e passariam a criar, pois assim seus problemas talvez não fossem mais problemas e fossem apenas uma questão de saltar no misterioso, no estranho, no incerto… Por que não?

O que para os adultos, era apenas uma árvore, para mim, era o que me fazia continuar ali, naquele lugar feio que não condizia com o que eu pretendia para mim. Depois, passei a me questionar sobre o que era crescer – sim, é um clichê, um péssimo clichê, mas eu precisava arriscar -, e me espelhei em meus pais, e nos outros adultos da minha vizinhança: meus pais viviam brigando, meu pai vivia bebendo, minha mãe reclamando, no vizinho do lado, até polícia já foi, e no da frente, os pais do Fernando passavam quase todo o tempo fora, e ele, Fernando, ficava com a irmã mais velha, era sempre uma correria para os pais dele, que nunca paravam. Fernando dizia “meu time ganhou novamente hoje, mamãe” e sua mãe respondia “estamos atrasados, já vamos indo filho”. Depois ele ficava lá, na porta da frente da casa de cor branca e detalhes em azul, olhando seus pais dobrarem a esquina em seu carro.

Eu não gostava disso, e se não me entristecia, me irritava profundamente. Por que não podemos continuar crianças e evitar esses males tão penosos? Para que me servia crescer, se isso me traria o sofrimento que eu não desejava? Pois que eu continuasse criança, e assim evitaria essa tristeza desnecessária, essa agitação doentia. Sentar naquele banco, a contemplar aquela bonita árvore, era melhor do que tudo isso. E a tristeza que me tomava quando dava a ora de partir, até mesmo essa tristeza, me era feliz, pois era o sinal que precisava, me dava certeza de que no outro dia ela estaria lá novamente, para sorrir-me enquanto eu lhe devolvia o sorriso com um sorriso ainda mais intenso e vivo. Árvores não sorriem, é verdade, mas que importa isso a uma criança?

Nesse dia, o sinal bateu, e fui para casa, mas não sem antes contemplar aquela árvore pela última vez no dia. Dormi, acordei no dia seguinte, de manhã, e fui para o colégio, alegre, em poder sentar naquele banco novamente e fazer o que eu sempre fazia. Mas, foi então que, com a mesma rapidez que me enchi de alegria, enchi-me de uma escuridão fantasmagórica e pesada, demasiadamente pesada. Olhei na direção da árvore, e ela não estava mais lá, havia apenas um pequeno pedaço de madeira que outrora fora o seu tronco, aquilo que sustentava sua beleza – que para mim significava muito.

Transtornado, sentei-me no banco, mas não mais com a vontade e alegria de antigamente, era como se de mim houvessem arrancado algo, e percebi que não fora apenas uma árvore que cortaram (sim, depois, fiquei sabendo que o diretor achou preferível arrancar a árvore, por razões que desconheço), havia-se cortado aquilo que, naquele lugar, me fazia permanecer criança, o último elo que me ligavam à minha inocência. Agora, já não mais havia a segurança que aquela singela árvore me fazia sentir, quando, por ela, minha infantilidade, meu espírito de criança, se sentiam resguardados. Os amigos nos deixam seguros, e a árvore era como um amigo – não o símbolo, mas a pura amizade inocente de uma criança que não deseja crescer para não desaparecer – no fundo, a árvore reverberava aquilo que eu era, que eu queria continuar sendo; a estima, o zelo, no final, eram por mim mesmo, pelo meu espírito infantil.

A diversão que outrora via em sentar naquele banco havia desaparecido junto com o que me fazia permanecer naquele lugar detestável sem ser esmagado por ele. Não me restava mais nada, vi, junto com aquela árvore, partir minha doce e alegre infância, e logo o sinal iria tocar, e eu teria que entrar sozinho, abandonado pela única coisa que garantia minha infância que tentavam, a todo custo, me tirar, para que assim me transformassem em mais um entre tantos adultos tristes. Agora eu teria que entrar naquela sala gorda de ar, e não menos vazia por isso, misturar-me com aquelas várias cabeças que repetiam a lição da professora em coro – como se aquilo servisse para alguma coisa. Mero doutrinamento pueril!

Agora eu deveria crescer, tornar-me mais um adulto como todos os outros, pois é para isso que estamos aqui, sentados, submetidos, e silenciados. Ah, como queria aquela árvore novamente, como eu queria a minha infância que tanto cultivei e fiz o máximo para permanecer perene em minha alma ainda em formação, mas já desejosa de não perder aquilo que a tornava tão peculiar…

Hoje tenho 30 anos, já cresci muito, e todos ao meu redor gostam de me dizer como eu mudei desde aqueles velhos tempos de criança. Eu trabalho, sou formado em economia, casei e tenho filhos, mas aquilo que antigamente me tomaram, ainda permanece perdido, e faltando, deixando um imenso buraco em minha alma. Aquilo que eu temia aconteceu, sou um adulto, com dinheiro, família, e uma profissão que me dá um bom nome, mas nunca satisfeito o bastante, pois o que me tornaria satisfeito era bem mais singelo do que tudo isso, mas artigo proibido no austero mundo dos adultos. Não podemos sonhar, criar, e fingir ter amigos que não existem… Temos apenas que dizer “eu sou alguém”, mas, quê alguém? O que significa isso? Não sei, e duvido muito encontrar uma resposta, e acredito que se há uma resposta, ela é assustadoramente cruel. É apenas uma convenção, uma moral que se reproduz em geração em geração, e ela foi feita para ser seguida, e não questionada, afinal.

Bem, não me resta muito tempo e preciso desligar o laptop, minha esposa logo irá me chamar para dormir, e eu precisarei parar de escrever isso – que nem me recordo mais por que estou escrevendo; quiçá, por uma necessidade da alma. É preciso que a grande roda gire, e que para isso, crianças não existam. Dizem que as crianças são o nosso futuro, mas eles precisam matar as crianças, tornando-as adultas, para dar certo o processo de amesquinhamento. Pois bem, já fui vencido, afinal, não me importo. Que o jogo continue e nos leve até a derrocada inevitável. Não recuperarei mesmo aquilo que perdi, ou, melhor, me tiraram, junto com aquela velha árvore frutífera e, em bem da verdade, supérflua… Fecho o Word, desligo o laptop, apago a luz, e vou, para qualquer lugar…


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