Depois da noite antes da madrugada
Despertou antes que os olhos. Aquela sensação era nova, desconfortável, nojenta. Os olhos grudados por causa da secreção, ela tentava abri-los e manter a calma. Era conjuntivite, nos dois olhos, e ambos amanheceram assim. Era uma conjuntivite agressiva, seus olhos passavam os dias lacrimejando, com grande sensibilidade a luz, ontem havia tido febre e dores pelo corpo. Achava horrível.
Despregou os olhos, pegou a garrafinha de água boricada, o colírio, o contonete e saiu. Abriu a porta do quarto e, de cabeça empinada para poder enxergar melhor, caminhou até o banheiro.
Fechou a porta e tentou olhar-se no espelho. Não queria, de jeito nenhum que alguém a visse assim, nunca imaginou que pudesse existir uma conjuntivite dessas. Ficou olhando o espelho por algum tempo, depois iniciou o processo de limpeza.
Quando terminou, pode finalmente abrir por completo os olhos. Dois olhos vermelhos, manchados de vermelho. Suspirou e voltou ao quarto. Deitou na cama, cobriu-se da cabeça aos pés. Conseguiria dormir de novo, mas não por muito tempo. Acordou com a mãe abrindo a janela do quarto.
- Acordou? Me Deixa ver esses olhos, Hmm… Ta feio ainda. Já estou saindo. Vê se levanta da cama um pouco, tentar fazer alguma coisa, arrumar seu quarto, estudar… Não vá ficar o dia inteiro deitada.
Assim que a mãe saiu, a garota se levantou. Fechou a porta do quarto, passou a chave, depois fechou as janelas, as cortinas e voltou para cama.
Nunca saberia o quanto dormira, ou que horas eram. Sentiu-se estranhamente melhor, bem disposta. Depois de um longo bocejo, se espreguiçou com prazer. Sentou-se na cama e puxou o celular da cômoda a fim de checar as horas, mas a bateria havia acabado.
Levantou-se devagar, foi até a janela, abriu, deu uma olhada lá fora. Já era noite, parecia ser tarde, talvez madrugada. Não, impossível saber, aquela rua era sempre parada daquele jeito.
Esboçou um sorriso, sentia seu corpo com vida novamente, os olhos pareciam bem, estavam apenas coçando de leve. Voltou e estirou-se na cama. Que horas seriam? Será que sua mãe já tinha chegado? Será que já poderia fumar seu cigarro tranqüila?
Ficou de pé num pulo, foi até a sua cômoda, tirou seu maço de cigarros e o isqueiro que havia ganhado de presente. Foi até a janela, acendeu e tragou. Ficou a olhar o isqueiro e a noite…
Mauro havia ficado uma fera quando soube que ela havia começado a fumar. Mas aí no outro dia ele lhe aparece com um isqueiro de presente, e parecia um desses caros.
“Tome, é um presente, fume seus cigarros com ele”.
Ela ficou olhando ele tentando adivinhar sua expressão, nunca entenderia direito por que ele fizera isso. Mas sentiu-se mal, quase ridícula, talvez fosse isso mesmo o quê ele tencionasse. Modo estranho de se convencer alguém.
Parou de abrir e fechar o isqueiro, gostava de fazer isso como nos filmes, jogou-o na cama. Meteu a cabeça pra fora da janela e tentou encontrar a lua. Não conseguiu, o céu estava limpo, mas as casas eram muito grandes.
Que horas será que eram?
Seu pensamento voltou à Mauro… Mauro seu único amigo. Mauro seu primeiro beijo. Seu primeiro namorado. Tinha uma relação esquisita com ele, pensava que não gostava dele, parecia não gostar, mas gostava, só que de um jeito que só algumas pessoas poderiam entender. E Mauro não era uma dessas pessoas. Mauro era normal.
Quantas vezes se irritou com ele por causa disso? Ele não deveria ser assim, se ao menos ele não fosse tão previsível… Definitivamente não seria o homem para ela, mas de qualquer modo, seria com ele a sua primeira vez, já havia decidido isso.
Arremessou o cigarro pela janela, foi até a porta, mas ela estava trancada. Não sabia mais onde colocara a chave.
- Mas que merda – resmungou, e começou a revirar os lençóis e abrir as gavetas. Encontrou a chave por entre os lençóis da cama.
Foi até o banheiro, examinou os olhos, estavam com aspectos melhores graças a Deus. Lavou o rosto e escovou os dentes, iria sair.
Voltou ao quarto, colocou uma roupa e pegou seus óculos escuros. Desceu as escadas, pelo silêncio e escuridão da casa, já deveria ser bem tarde mesmo… Ou talvez não, quem sabe?
Nem se lembrou de olhar as horas, destrancou a porta, o portão, e saiu para a rua. Colocou os óculos, havia levado seu cigarro consigo também, seu cigarro e seu isqueiro. Acendeu um e tragou ao luar. Gostava de fazer isso, como nos filmes.
Agora já podia ver a lua, ela estava no ponto mais alto do céu, como se fosse o sol ao meio dia… Quem sabe não fosse meia noite?
Andou alguns quarteirões até a casa de Mauro. Tocou a campainha, teve de tocá-la algumas vezes até ele aparecer pela janela.
- Sofia? Você sabe que horas são? O que você quer?
A garota riu, Mauro fechou a janela abriu a porta e foi ao seu encontro.
- O quê foi? Está rindo do que?
- Não sei.
- Não sabe?
- Não sei que horas são – respondeu ela e jogou fora o cigarro.
- E esses óculos, ainda tá ruim da conjuntivite? Você quer saber alguma coisa da escola?
- Anda, fala logo, por que você me deu esse isqueiro.
- Que isqueiro?
A garota puxou o isqueiro do bolso.
- Por que você me deu isso?
- Você veio aqui essa hora pra perguntar isso?
- Por que você me deu esse troço?
Mauro olhou a rua antes de falar.
- Olha Sofia, amanhã agente conversa, vai pra casa, já é tarde.
- Tarde pra você. Eu nem sei que horas são.
- Por que disso agora?
- Por que eu quero.
- Amanhã eu te falo.
Mauro se virou para entrar, mas a garota o agarrou pelo braço.
- Vai falar agora.
Mauro olhou profundamente aquela menina, aquela menina de óculos escuros e de cabelos finos, aquela menina de jeans e all-stars.
- Vamos meu caro, diga.
Ele a olhou nos olhos.
- Por que eu te amo.
A garota primeiro sorriu, soltou o braço do rapaz. Depois abaixou a cabeça, não era mais capaz de encará-lo.
- Por que você não disse logo? – iniciou tímida, depois de alguns momentos, continuou – Não daria certo… E também eu não quero, não vai acontecer.
- Eu sei.
- Além disso eu não sou uma boa pessoa.
O rapaz riu, a garota riu junto.
- Não sou mesmo ora! Mas tudo bem Mauro. Já vou, desculpa aparecer essa hora.
A garota o beijou no rosto.
- Você não sabe mesmo que horas são? Disse Mauro.
- Não. E acho que não existe tarde nem cedo pra quem não sabe que horas são, não é?
Mauro sorriu.
- Tchau, disse ele.
A garota seguiu seu caminho para casa. O que ouviu mexeu um pouco com a sua cabeça… Mas ela já não sabia? Não deveria ter ficado daquele jeito.
Voltou para casa, para seu quarto, para sua janela, para seu cigarro. No entanto este seria o último. Iria parar de fumar.
Tragou pela última vez. Sorriu. Era um modo estranho de se convencer as pessoas, pensou, um modo estranho, mas muito eficiente, o amor.

ja te disse que adoro este “conto” ? bom gostava mais antes ,mas ele ainda me “estiga” …