Não quero crescer. Não quero nada
Texto de Fernando de Luiz Britto Vianna – 1°colegial
A menina só comia. Era o dia inteiro. Mas só comia maçãs. Acordava. Tomava café e mordia ruidosamente uma maçã. Ia para a escola comendo uma maçã. Recreio? Maçã! Não, ela não dava uma maçã para a professora. Ela detestava todo e qualquer professor. Por que? Não sei… nem ela. Era uma adolescente precoce, de seus nove anos. Revoltada? Completamente. “Quem quer que seja que ponha as mãos sobre mim para me governar é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo”. Ela possuía essa frase pichada, em seu quarto. Era de um velho anarquista (a frase). E, ela era anarquista. Ou será comunista? Não sei… nem ela. Quando crescesse ia ser oceanografista ou guitarrista profissional ou jogadora de vôlei. Adorava as três coisas.
Chegava em casa bêbada, fumando um cigarro, chutando a porta (e a mãe) e comendo uma maçã. Jogava os livros dentro da privada (e, como sempre, sua mãe tirava-os de lá e os colocava para secar) e ia para o imenso quintal. Que grande! Pensava que era uma burguesa nojenta. “E daí?”, pensava de novo. No quintal havia um exuberante pomar. Comia algumas maçãs. Pensava e achava ser oceanografista uma (que vocabulário mental!). Chutava um livro de Jacques Cousteau. Comia uma maça. Pensava e cuspia no método de guitarra. Já não comia nada. Mas pensava. Pensava e furava sua bola de vôlei. Ia ver sua criação de grilos. Era a única coisa da qual realmente gostava.
