A metamorfose

Publicado: 26 de julho de 2013 por Blue em Diversos

Conto de Noir – especialmente para o Inver.

Um certo dia, nosso protagonista, depois de um sono agitado, acorda transformado em um desprezível homem. E agora? Como se levantar para retomar seu posto como inseto? Não que continuar dormindo não fosse agradável, ao contrário! Não precisaria mais ver sua vida ignorada pelos outros, poderia apreciar melhor sua vida, em geral tão tacanha e mesquinha.

Poderia mesmo?

Ao se lembrar de sua família, que a esta hora repousava tranquilamente nos quartos ao lado, sentiu, pela primeira vez, seu coração de dois átrios e dois ventrículos; e ele começava a arder. Após tantos anos sendo apenas um invisível inseto, eternamente esquecido na grandiosidade da vida no império partriarcal de sua casa, que reação teria seu pai ao vê-lo como um homem feito? que reação ele próprio teria ao se ver ineditamente como centro das atenções onde outrora era apenas um incômodo a ser esmagado? O suor frio inundava a cama nunca antes tão pequena, ao passo que cada segundo gotejante era torturante na medida em que se preparava para responder a tal silêncio.

Desejou que tudo isso fosse sonho, como sempre foi. Nunca imaginara o quão perturbador suas preces poderiam se mostrar.

E logo percebeu que como homem, teria de encarar tudo com sua nova perspectiva de 180 centímetros, começando por crescer jogando todos seus antigos sonhos como figurinhas de futebol pela privada. Crescer…nosso protagonista começa a perceber o novo significado desta palavra. Crescer para os homens como ele e seu pai se resumia em escolher uma ou duas marcas preferidas, decidir passar mais tempo no trânsito que com a família e assinar uma revista. Tarefa nada fácil, sobretudo para um inseto.

conto de Noir

Ato I: Triste fim do parasita de memórias

(Abrem-se as cortinas. A platéia assiste curiosa nosso protagonista de corpo esquálido e olheiras vistosas. Sentado em sua cama, dá início o seu monólogo:)

desperto da minha vigília de quatro dias
com os ombros exaustos e os olhos bem vivos
por terem (re)vividos tantos anos sem sentido
em noventa e seis horas, onde não fui visto
sem estar com tua fotografia em mãos
e a mente em teu sorriso.

entorpeço apenas para poder
ser açoitado pelos meus devaneios,
que insistem em fazer de ti minha ruína;
pois se existe sonho, se há desejo em vida,
tudo se concretiza na efêmera expectativa
de não mais isolar-me, viandante em meus passados.

despertei, enfim, minha fúria.
naufraguei em meu próprio pranto
feito do mesmo sangue e cal branco
que nossa carne viciosa e pútrida,
corrupta, qual o ópio em que me alieno
em memórias de nossos corpos em transe.

O defunto se levanta com o sol do meio-dia.
Cabeça vazia, pigarro na garganta, gosto de saliva velha e hálito de bebida barata;
Bem vindo a tarde dos mortos-vivos.

Uma tonelada de melancolia sobre minha cabeça…e é só mais um dia comum, desses em que você não é ninguém.
E não há nada na geladeira; não havia ontem e não terá amanhã.
Mas não tenho fome. Nem arrependimentos.
Só tenho sede, sede de sangue.

gosto de sangue
quente desce suave.
nossos dias escorrendo pelo nariz
e o amargo na boca, pois eu
gosto de sangue.
então continuo a abrir as mesmas feridas; corto
teu sorriso em mil pedaços feito navalha perdida,
cortante e sem cabo, na mão de macacos desassisados.me afogo, afundo feito inútil peso de papel na casinha alugada
do final da avenida; dou final a minha vida, decreto fim do carnaval,
de toda folia; afundo, afogo, submirjo, desabo e inalo estas cinzas.gosto de sangue
gosto de sangrar
de sentir pulso, de desidratar hemácias,
do vício, da luxúria e, sobretudo, do úmido
gosto de sangue que arranha minha garganta

garganta seca…e é por isso que tenho sede;
sede e saudade…
nossos dias escorrendo pelo nariz
e o amargo na boca.

Sim, este gosto amargo que não cessa nunca. Cicatriz de guerra daqueles os quais o mundo maravilhoso da dialética materialista cuspiu.
E como não pude entrar na Disneylândia, a minha Terra do Nunca é um motel barato.
Mas isso é assunto para os próximos capítulos da telenovela.

O que aconteceu comigo? É mais fácil falar sobre o que não aconteceu.
Minha vida é uma grande espera. E eu sou a melhor coisa que não aconteceu.
E talvez nunca aconteça.
Mas sabe, eu mesmo nunca sei, não sei se quero e nem sei se sou.
Sei mesmo que já está na hora de voar.

Ato II: Os donos da terra do nunca

(Nosso protagonista aparece agora em um bar de quinta categoria, onde velhos gordos e de olhares tristonhos se afogam em seus copos enquanto crianças sujas e franzinas dançam ao redor da mesa de bilhar, e segue a seguinte canção:)

Ao som da euforia
da renúncia à modorra
Saímos de nossas cavernas
Surgimos de nossos esconderijos
do esgoto, da margem, do lixo
e voamos

Nascemos quando somos esquecidos
Somos espertos demais
para deixar de cair de nossos berços

renunciamos a obediência e o crescer
somos as crianças sensíveis do mundo
os garotos perdidos, os garotos eternos
gostamos de ser e gostamos que seja
gostamos do gosto louco da mocidade:
A frequência

Nós, os garotos que caíram no buraco do coelho, somos invisíveis para teus olhos de vidro. Mas nós estamos e estaremos sempre na mesma freqüência de seu aparelho: Aquela que conta as histórias que o Grande Irmão proíbe.

Na minha história não há magia e nem final feliz, sou apenas, como você, mais um derrotado, que decidiu chupar a Alice enquanto ela saía do espelho e ficou ocupado demais com as cores das músicas para perceber que nada mais fazia sentido.

(…)

Era uma vez um garoto normal que foi esquecido pelo mundo.
O trem das onze passou recolhendo as pessoas devidamente preparadas para a viajem para o nada; e o pobre garoto acabou ficando para trás, rezando para que o relógio da estação não anunciasse mais um fim de sonho, um outro fim de dia, mais um fim de vida. Mas o fim dessa história ninguém sabe porquê parece que o garoto acabou sumindo, sendo visto pela última vez com um livro de Schopenhauer na mão. Por isso vou contar uma outra história, que aconteceu com um amigo meu:

Se você seguir à esquerda e virar a esquina da rua da amargura, você provavelmente encontrará um boteco corintiano freqüentado por todas aquelas pessoas que você ignora no farol. Aquele é o (nem tão famoso assim) famoso bar do Zé, onde as mágoas trepam com os ressentimentos no banheiro enquanto os homens de mãos em carne-viva jogam seu bilhar apostando olhos ou coisas assim. Antes de ser Zé o dono deste buraco se chamava Augusto.

Augusto era seu nome no colégio…eu lembro que a gente matava aula pra ir ao bar pedir uma dose ou fumar maconha. Tudo funcionou muito bem durante esse tempo todo, mas os deuses do nirvana monetário-patriarcal sempre cobram o seu quinhão, e se você não tem presença suficiente na escola da vida eles te transformam em um Sísifo; E se divertem vendo tu se foder ao ver sua vida passar enquanto rola pedras de mármore montanha acima feito um retardado. Foi assim que Augusto virou Zé, e acabou aqui, servindo cachaça de manhã para desgraçados como eu…Esse é o destino das crianças sensíveis do mundo.

Ato III: O passageiro

tudo seca
nesse mar cinza
onde sou o passageiro, onde viajo e vejo
figuras distorcidas de uma angústia concreta

o cheiro do esgoto
não é pior que o do ar
respirado por estas pessoas
que são mais sujas que as calçadas

então eu bebo
deste copo que é meu mundo
amargo de tão saturado
cheio de sangue, de ódio, de tudo

meu mundo é cheio de si mesmo
e por isso respira
e por isso odeia
e fere, a tudo e a todos

um suicídio coletivo
de vidas sem sentido

Eu consigo ver Deus no fundo do copo, rindo de mim ao observar seu rato de laboratório agonizar após infinitas tentativas frustradas de conseguir fugir deste labirinto que Ele chama de vida. Enquanto vê seu experimento se conservar lentamente em álcool, Deus não percebe que comete um grande erro: Durante uma crise de abstinência, rezando por mais uma dose, resolvo me prostituir por um saco de moedas de prata e decreto eu mesmo a morte de Deus depois de pregar o filha da puta no teto (afinal cruz é para os fracos). Touché! O feitiço virou contra o feiticeiro.
Eu brindo toda a desgraça e viro o copo, afinal, tudo seca, tudo seca…já diria as confissões de um velho safado.

É hora de entrar no táxi do Travis Bickle e atropelar Nietzsche como um cão.

Ato IV: O granadeiro da nova ordem

sou o granadeiro da nova ordem
um militante solitário gritando entre surdos
de coração frio e pútrido
que sangra no pulsar deste infortúnio

sou um trovador misantrópico
um escritor dislexo cuja obra é proibida
minhas mãos trêmulas vítimas de epilepsia
escrevem palavras que nunca serão lidas.

sou um poeta pobre e podre.
um bardo mudo que canta com o olhar.
mas meus olhos, regados à ácido,
são capazes de ultrapassar o sonhar.

É difícil matar um deus.
Começo uma peregrinação pelas sarjetas, pregando Bukowski para os garotos perdidos, as crianças sensíveis do mundo.
Mas Winston não conseguiu espalhar a Freqüência pelo ar envenenado pelas flores do mal que brotaram no campo de centeio. Sou, portanto, um pregador solitário, que desde 1984 ateia fogo às flores de vandré que nascem em meu quintal.

(…)

Sabe, um dia desses cheirei com Caultfield em um banheiro de rodoviária. Devia ser mais um domingo, um dia destes que os cordeiros de Jeová se debatem nas cruzes e os esfomeados abraçam seus televisores enquanto os zumbis do crack continuam a beijar a morte em suas latas…quem diria, ein, Holden? Nós falhamos.

(A platéia se vê perplexa: o protagonista falha em apanhar suas crianças e corta os pulsos ao perceber que não era sonho. Fecham-se as cortinas e se ouve uma salva de palmas vinda dos camarotes – Os deuses do capital se divertem. Fim do IV Ato.)

Ato V: Aceitação da queda

Fruto de toda a decepção eu sou.
Coleciono feridas purulentas, pútridas;
Chagas dos dias de sol supralunar.
Úlceras doloridas, marcas escondidas
na falsa esperança, em toda utopia.

Outrora destemido pecador, fui queimado.
Morri tantas vezes que os obituários
cansaram de me enterrar em seus anúncios.
Meu escudo, meu coração se quebrou;
Cavaleiro vencido em prisão eu sou

Dragão ferido eu sou.
A fera, o inimigo, o tirano traído.
A bastilha tomada por vermes
que a devoram com violência, porém lentamente
cravada em sua carne, rasgada por seus dentes.

Sou agora o que sobrou dos dias de sol
que parecem nunca mais voltar.
Sou aquilo que sempre neguei e tentei matar,
O resto de meus ideais.
Tudo o que foi vencido e já não aguenta se levantar.

Sozinho estou, Ferido me encontro.

Buck Rogers acorda de sua cápsula chorando: percebe que suas asas foram queimadas em sua viajem rumo ao sol.
Chora por sua mãe, quer dormir na sua cama.
Mas não há mais mãe, nem cama, nem sonhos.

E meus braços sangram e ardem, embebidos do sal de Baudelaire.

(…)

No meio do deserto, novamente.
Há tanta tristeza aqui que eu quero um abraço…
Rastejo pelas dunas de areia à procura de um espelho que possa mostrar claramente as memórias que me foram roubadas.
Do fogo de todo amor perdido, queimo a areia e a transformo em vidro.

Cacos cortantes, em forma de forca, limpos porém não claros;
de sinceridade perigosa.

Fragmentos…

E somente olhando para meu próprio olho
que tive coragem de perfurá-lo.

(O público, incomodado com tal espetáculo grotesco, começa a se levantar e sair no meio do espetáculo. Nosso protagonista, bombardeado por vaias, esboça um sorriso.
Fim do Ato V)

Ato VI: O final

É o destino.
Vocês olham horrorizados para este que vos fala, sem saber que sou apenas restos, sobras da comida dos teus jantares chiques e inflamados, o resíduo viscoso e tóxico da monotonia de suas vidas patéticas que se estendem de tédio a tédio, de domingo a domingo.
Sou apenas o resultado da equação da fumaça cinza que cobre o sol com as correntes em teus calcanhares multiplicado pelo número de pães que se consomem no circo ilusório da felicidade familiar em comerciais de cartão de crédito.

Essa é a minha ruína, esse é o nosso fim.

esta é a minha ruína: Eu, o inimigo
devorador de pecados e de espírito
um tanto negro e neurótico,
eternamente sedento e faminto
por carne para cravar novas feridas

e como diz aquele outro, que
enquanto olha atentamente nos meus olhos
através do espelho
e sorri e sussurra
em desespero: O inferno sou eu

(A platéia que sobrou olha assustada para nosso protagonista, que de repente some do palco como se nunca houvesse estado lá. A platéia olha e finalmente compreende: acabaram de assistir o seu próprio espetáculo, interpretado por eles mesmos. Os deuses e reis sentados no camarote entram em desespero ao perceber que seu fim está próximo. E o sol nasceu declarando o fim destas lágrimas).

Devaneando… Filosofia, Arte, Vida.

Publicado: 19 de agosto de 2012 por Rico em Rico
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      O que há de tão encantador na literatura, ou nas artes em geral, para que ela ultrapasse a filosofia em brilho? Acontece, muito frequentemente, de sermos capazes de emitir o juízo “este romance é belo”, e de não sermos capazes de emití-lo no caso de um livro de filosofia. Nesse caso, dizemos “este livro é sério”, “este livro é intrincado” ou ainda “este livro é difícil”. Acontece, outrossim, que um livro de literatura pode ser “sério”, “intrincado” e “difícil” (o uso das aspas aqui deve ser levado em consideração) – ou alguém duvida que Crime e castigo é talvez um dos livros mais difíceis da alta literatura? “Sério”, “intrincado” e “difícil” (volto a insistir na importância das aspas) não tanto pela técnica empregada ou inventada, pela erudição e riqueca léxica, mas pelo própro objeto ou objetos que a o romance busca dar conta: o livro de Dostoiévski será sempre “sério”, “difícil” e “intrincado” dada a sua temática austera, a saber, a moral, a superação da moral, a elevação do homem etc.

      Por que não somos capazes de sentir esteticamente um livro de filosofia? As páginas de Platão não podem ser belas? As páginas de Nietzsche não podem emocionar? A filosofia seria, portanto, essa monstruosidade não-estética par excellence? Duvido que assim seja. Todavia, dou um grau de razão aos que assim pensam – justifico-me. Nietzsche identifica, na Segunda Consideração Extemporânea, o mal que assola a filosofia: ela afastou-se da vida quando recolheu-se às cátedras, aos gabinetes dos professores, e tornou-se erudita; passou a fazer história – “história da filosofia”. Desse modo, a literatura estaria algo mais próximo da vida, algo mais cintilante nesse sentido, concreto; e a filosofia teria, por sua vez, perdido aquilo que lhe era mais precioso: o mundo. A literatura jamais perdeu o mundo, ela está no mundo, é imanente (preciso lembrar os escritores americanos?), enquanto que a filosofia refugiou-se na transcendência, no universal abstrato.

      Por isso imaginamos que a literatura é capaz de produzir afetos; já a filosofia nada mais é do que uma velha gagá vomitando um amontoado de “fatos históricos”, ou conceitos, sem a menor realidade. Mas e se a literatura, hoje, também estiver perdendo o mundo? A partir do momento em que o artista participa da roleta russa do mercado, a literatura torna-se a puta das editoras. O escritor, mero produto. Então, ela perde o mundo porque seu intuito não é falar do mundo, gozar o mundo, cantar o mundo, mas vender, e vender é o meio contemporâneo de apagar o mundo e instaurar o reino do vazio bocejante do dinheiro. Assim, já não há mais grande diferença entre filosofia e literatura: ambas são niilistas, e portanto negam a vida.

      Existe, contudo, força o bastante na arte e na filosofia para reclamarem para si esse mundo que lhes fora arrancado; ora, não há como não se emocionar com as belíssimas páginas de Deleuze sobre Espinosa, cheias de afetos. Diálogos, livro que Deleuze escreve a dois, é um dos livros mais bonitos que já li em toda minha vida. Deleuze é um filósofo, professor, acadêmico… que emociona – ele escreve por e com amor. E não ouso evocar aqui Nietzsche, basta citar seu Zaratustra, livro musical e belo. Há muita alegria e afirmação nos livros de filosofia, o problema é que nos esquecemos disso e nos tornamos idiotas de sensibilidade atrofiada; diz Pessoa, e como é lindo os seus dizeres: “o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.” A filosofia também pode ser estética. Mesmo Kant ou Hegel, arrisco, podem ser belos, pois o movimento do conceito é tal qual os movimentos de uma sinfonia. Zaratustra tem pés de dançarino – como Dionísio. Não há diferença entre Bergson e Beethoven, a não ser, é claro, de plano, de devires, de agenciamentos. Lucrécio é maravilhoso e Hume é elegante e suave. Esqueçamos essa seriadade erudita que afugenta os devires, deixemo-nos levar pelo movimento do conceito; um livro de filosofia que não nos toca como uma música ou uma pintura não é um bom livro – é perverso, é vil. Só precisamos, e disso estou bem seguro, de embriaguês… embriaguês, meus confrades!