Pensar o Quotidiano e a Filosofia da Vida

Publicado: 24 de julho de 2010 por Rico em Rico

Eu não pretendia, até o final de semana, postar alguma coisa por aqui. Mas enquanto eu me debatia em minha cama por consequência da insônia que me tomou (e que me obrigou a levantar e vir para o PC), veio-me algumas idéias, ou melhor, veio-me uma interessante análise sobre o quotidiano, as epistemes e a Filosofia enquanto disciplina ligada diretamente à vida e não a um “mundo longínquo” onde o filósofo se entreteria com abstrações diversas, como querem fazer parecer alguns estafermos que, de certo, nunca pegaram num livro de Filosofia para ler (ou se leram, não compreenderam nada do que leram). É uma espécie de misto de Foucault, Deleuze e Proust – no caso do Proust, é mais uma constatação de algo que Deleuze havia dito em seu livro dedicado a esse pensador (ver: Proust e os Signos); explico-me.

Através das leituras que Deleuze faz de Proust, ele acaba chegando ao corolário (e essa é uma das mais importantes contribuições de Proust ao pensamento do filósofo francês) de que o pensamento nada tem a ver com um ato voluntário, com uma bonne volonté do pensador, mas ao contrário, com uma violência (simbólica), com forças que tomam o pensamento e o viram de cabeça para baixo, forçando-nos a pensar. E acontece que foi justamente isso que me ocorreu agora, pois minhas idéias nada tinham a ver com um movimento ritualístico excêntrico onde passo a refletir sobre Filosofia Contemporânea Francesa antes de dormir. Foram justamente forças extraorinárias que me forçaram a pensar, que me fizeram, enfim, ter algo a dizer por aqui. Tive a sorte de me deparar com uma entrevista muito boa, com uma psicanalista que é especialista em Deleuze, e um outro especialista, também em Deleuze; bem, a psicanalista explica isso que digo, e deixarei aqui um trecho dessa entrevista, para que vocês compreendam melhor:

Me explico: em seu livro sobre Proust e também em Diferença e Repetição, Deleuze escreve que «só se pensa porque se é forçado». O que ele quer dizer com isso? O que é que nos força a pensar? Certamente não é a competição acadêmica para ver quem chega primeiro ao trono da verdade que hoje tem sua sede no palácio da mídia cultural; isto não tem nada a ver com pensar. O que nos força é o mal-estar que nos invade quando forças do ambiente em que vivemos e que são a própria consistência de nossa subjetividade, formam novas combinações, promovendo diferenças de estado sensível em relação aos estados que conhecíamos e nos quais nos situávamos. Neste momentos é como se estivéssemos fora de foco e reconquistar um foco, exige de nós o esforço de constituir uma nova figura. É aqui que entra o trabalho do pensamento: com ele fazemos a travessia destes estados sensíveis que embora reais são invisíveis e indizíveis, para o visível e o dizível.

Agora, retornando ao ponto em que falava sobre as idéias que tive. Recordei-me de ter lido um PDF onde o autor, a respeito do trabalho intelectual do filósofo francês Michel Foucault, traz à luz um dos vários aspectos do pensamento foucaultiano em que Foucault consegue ser inovador: ele destaca que um dos pontos chaves dos estudos foucaultianos é o de lançar luz ao quotidiano, ao vivo e vivido, dar um valor epistemológico ao “marginal”, ao mundano, ao que está “lá, fora dos muros da academia”; por assim dizer. Mas, afinal, qual a relevância desse fato? É essencial, aqui, salientar que essa “torção analítica” será consequência da nova e revolucionária analítica do poder que Foucault inaugurará já em seus primeiros escritos com base em seu método arqueológico, e que conhecerá o seu apogeu em sua genealogia.

Como assim? Explico-me mais uma vez, mas brevemente, pois não é esse o ponto.

Foucault é conhecido, principalmente, por ter elaborado uma analítica do poder que se caracteriza por ser uma crítica e uma alternativa à concepção comumente aceita, e oriunda do pensamento jurídico tradicional (algo que estará, principalmente, em Max Weber), de poder: o poder como soberania e ligado unicamente ao aparelho de estado, bem como à Lei, à norma e à repressão. Para Foucault, o poder não é aquilo que está “em poder” do Estado, ou que um determinado grupo ou classe social é titular. O poder não é, como na concepção clássica, compreendido como uma propriedade adquirida, mas sim (e isso, pode-se dizer, veio de Nietzsche) uma relação, relação entre forças – “o poder é uma relação, não uma coisa“, diz Foucault. Citando o próprio Foucault: “o poder está em toda parte, não por que englobe tudo, mas por que provém de todos os lugares“. Daí também que Foucault, em oposição ao caráter puramente repressivo e negativo do poder, afirmará que ele também possui um caráter produtivo e, por isso mesmo, positivo, que não apenas recalca e reprime o sujeito, mas produz também um determinado tipo de sujeito – processos de subjetivação promovidos pelos dispositivos de poder.

Com essa nova concepção de poder, Foucault criará a microfísica do poder. O que seria isso? Bem, esse neologismo constitui-se de dois termos: “micro” e “física”. Microfísica nos remete ao campo da física, onde  a palavra física designa uma certa dinâmica, uma certa relação entre forças, e a palavra micro supõe algo de quotidiano, exercido por todos. Daí, então, que microfísica do poder designa um poder relacional, dinâmico, exercido de várias formas e por todos, em nossas vidas, em nosso quotidiano. A microfísica do poder, então, levará a cabo o trabalho de elevar à categoria histórica o quotidiano individual e coletivo, privilegiando a idéia de um poder difuso, disperso, agindo em todos os poros da sociedade, e não apenas no alto (e do alto) das instituições. A análise do poder em rede abre todo um leque de novas possibilidades de investigação.

É aqui que entra, precisamente, outro filósofo que gosto muito, a saber, Deleuze. Deleuze, que sempre privilegiou uma filosofia da vida, voltada para a vida, e não para o mundo das abstrações, vai de encontro com a microfísica do poder elaborada por Foucault (que era contemporâneo e amigo de Deleuze). Há pouco, quando citei a entrevista com a psicanalista, eu falava de Proust e de como, a partir dele, Deleuze criou uma nova conceção do que é pensar. Se nos lembramos bem, para Deleuze (e Proust), pensar é sempre uma violência, uma violência exercida por forças que invadem, profanam e violentam o pensamento. Ora, essas forças não são forças intestinas, são forças exteriores a nós pensadores, são forças que dizem respeito ao mundo em que vivemos, à vida, àquilo que a constitui e a transforma, e que por isso nos afeta.

Isso significa duas coisas: 1) não podemos desconsiderar a importância do quotidiano na constituição dos saberes, saberes esses que não são apenas os da Filosofia. 2) que a Filosofia, para apreender as tenções que constituem o quotidiano, não pode estar apartada dele, não pode se voltar para o mundo das abstrações; a Filosofia, longe de recusar-se a olhar para vida, mergulha, lá, justamente, onde está a vida, para tirar, daí, aquilo que dará cor e sbustância a si. Isso significa uma dupla vitória: do quotidiano, pois ele deixa de ser uma “realidade muda”, da qual nada se pode tirar sobre nada, e da Filosofia, que nada terá a ver com uma prática que se caracteriza pelo distanciamento da vida, distanciamento esse que seria necessário a sua realização. Nesse sentido, a Filosofia, e o pensamento, estão “a serviço da vida em sua potência criadora“. Isso não implica, por fim, uma nova relação com a Filosofia bem como uma nova relação da Filosofia com a vida? Podemos pensar nisso com uma réplica aos que tentam, equivocadamente, rotular a Filosofia como uma disciplina abstrata, que não dialoga com a realidade? Talvez assim possamos abolir a idéia de que temos que “viver primeiro e filosofar depois”, pois viver já é filosofiar, assim como o inverso também é verdadeiro.

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