Mídia e Loucura

Publicado: 4 de agosto de 2010 por Rico em Rico

Mídia e Loucura

Aos domingos, no programa Domingo Espetacular, há uma matéria onde matadores seriais são entrevistados. A matéria é estruturada da seguinte maneira: uma introdução e  um relato breve da história do criminoso acompanhado de flash back’s que simulam os assassínios. Fala-se de suas vítimas, o modus operandi dos homicídios, entrevistam os familiares das vítimas e algumas vezes do próprio criminoso, as autoridades envolvidas no caso, especialistas (psiquiatras, psicólogos etc.)… Constrói-se um perfil do criminoso, buscam mostrar a origem e o modo de vida do serial killer. Até aí, aparentemente, nada de novo, não é mesmo? Digo, é comum assistirmos a matérias do gênero na TV. Mas a questão não é essa. O interessante é quando começamos a observar como a idéia de loucura, de patologia, se introduziu “descaradamente” no discurso da mídia. Ou, talvez, possamos dizer que a mídia se apropriou da idéia de loucura e de patologia, o que não ocorre por acaso, como se não houvesse uma história por detrás desse acontecimento. E no intuito de elucidar alguns aspectos dessas reverberações na mídia, farei uso de Foucault, pensador francês conhecido pela sua grande contribuição ao estudo da loucura.

Em um livro intitulado “Eu, Pierre Riviere, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão“, nos deparamos com uma história muito peculiar, que trás à luz uma mudança na maneira de se pensar o sujeito criminoso (não só criminoso): Pierre Reviere é acusado e preso pelo assassinato de sua mãe, irmã e irmão, e então, ante tal acontecimento, começa-se a questionar a sua sanidade. Em contrapartida, Pierre questiona a idéia de que ele seria um louco que cometera tal atrocidade num momento de desrazão. Ele escreve uma carta explicitando, de uma maneira totalmente lúcida, e através de uma escrita muito bem articulada, as razões, os motivos, que o levaram a cometer tal crime, e que desejaria que fosse julgado e punido como uma pessoa normal. Ele recusa e critica a idéia que se pretendia fazer dele, enquadrando-o como louco.

Foucault então irá, nesse mesmo livro, comentar sobre o acontecimento, e dirá que o caso de Pierre ilustra magistralmente um rompimento com o Direito Clássico e o desenvolvimento de um novo tipo de Direito, agora pautado no binômio normal-patológico – daí irá nascer, por exemplo, a psicologia jurídica, onde em conjunto com a Medicina, irá desenvolver teses, teorias, saberes, com base nesse binômio. Segundo Foucault, até a Idade Clássica, pensava-se apenas no ato, os julgamentos de certe/errado, de crime, correspondiam ao que o Direito Penal do Ato determinava enquanto a forma que o indivíduo seria julgado. Porém, com a instauração da noção de normal e patológico, surgiu paralelamente uma nova teoria do direito: Direito Penal do Autor. Em resumo: o sujeito deixou de ser julgado pelo ato  (matar, bater, violentar etc.), mas pelo o que ele é. E Foucault irá chamar esse fenômeno moderno de “sansão normalizadora”, onde se dará extrema importância à subjetividade, àquilo que constitui o sujeito enquanto sujeito.

O que isso tem a ver com a matéria do Domingo Espetacular? Acontece que essa matéria evidencia justamente essa transição de idéias e lógicas que se efetuou no final da Idade Clássica. Ao início da matéria, o repórter e narrador, indaga os telespectadores: quem é (o nome do criminoso que agora me foge)? O que leva alguém, aparentemente inofensivo, a cometer crimes tão bárbaros? Vemos na mídia as reverberações de tal mudança. Especialistas agora são chamados a dar entrevistas e a falar sobre os criminosos. A nossa sociedade bebe e se embebeda desse binômio, o fundamental é desvendar as subjetividades, não se pensa mais que os desejos de uma subjetividade podem ser tão somente, desejos de uma subjetividade diferenciada, agora, essa subjetividade precisa ser analisada, normalizada, precisa-se saber: afinal, essa pessoa é normal ou anormal? Daí que a entrevista atravessa diversos enunciados onde se busca elucidar a infância, a relação familiar, o status social do serial killer: pobre, alvo de violência física e psicológica dos pais, por conseguinte devemos encontrar as razões para o seu crime aí, pois é a partir de tudo isso que a subjetividade se constitui – o que também não deixa de nos alertar para a crítica que Deleuze fará ao Complexo de Édipo, à edipianização do desejo. Noções de identidade e comportamento, por exemplo, são indispensáveis a um laudo médico-psiquiátrico. Ainda podemos perguntar mais uma coisa: não estaríamos vendo, aí, a causuística do desejo que atravessaria toda a psicanálise?

Bem, a idéia que defendo, juntamente com Foucault e muitos especialistas da atualidade (a esquizoanálise se mostra uma verdadeira revolta e resistência aos saberes oriundos não só da psicanálise, como também da psiquiatria), é que essa noção, que nasce na modernidade e do rompimento com aquilo que a precedia, precisa ser repensada, passar por um certo crivo crítico que a coloque novamente em questão. Hoje, o senso comum e a grande mídia aderiram às modificações que os saberes sofreram no seu rompimento com a Idade Clássica, mas esses saberes mais foram aceitos do que questionados. Seria preciso, quiçá, pensar naquilo que Nietzsche fala em um dos prefácios de seus livros:

(…) desta vez não são mais os deuses que estão na moda, mas ídolos eternos que são aqui tocados pelo martelo como se faria com um diapasão – não há, em última análise, ídolos mais antigos, mais persuasivos, mais inchados… Não há também mais ocos. isso não impede que sejam aqueles em que mais se acredita; por isso, mesmo nos casos mais nobres, não são chamados de forma alguma ídolos. [Crepúsculo dos Ídolos – Prefácio, pág. 16]”

A distinção entre normal e patológico não é tão precisa, tão segura quanto imaginam os especialistas e o senso comum, já muito persuadido por esse saber, e seria bom que se começasse a pensá-la para além das aceitações irrefletidas da nossa sociedade, tão marcada por essa divisão arbitrária entre louco e não-louco, normal e anormal. Vemo-nos, então, defrontados com questões de caráter ético, que sugerem uma ética a ser construída: haveria necessidade de se realizar esse processo de normalização das subjetividades? Poderíamos pensar o sujeito para além do binômio normal-patológico? Quais as implicações que tal distinção trás à sociedade? Quais efeitos de saber-poder ela supõe? Passar sem tais questionamentos, sem desenvolvê-los, testar os seus limites (internos e externos), seria um grave equívoco. E, para aqueles que pretendem efetuar uma crítica à contemporaneidade, como se poderia passar sem se pensar a loucura, a normalidade, os saberes e as práticas que eles engendram e que envolvem todo um intrincado conjunto de idéias e lógicas que buscam apreender a subjetividade a fim de normalizá-la, sujeitá-la às arbitrariedades de um saber excludente e intransigente?

comentários
  1. felipemp93 disse:

    Afinal…quem é o louco da história?

    haha, concordo bastante com as coisas ditas aí, a descrição de louco é algo bem mais complexo do que as pessoas podem imaginar, e sequer pensar.

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