Leituras Interessantes

Publicado: 24 de agosto de 2010 por Rico em Rico

Este post será um pouco diferente dos outros, pois não estarei abordando um determinado tema, para daí problematizá-lo (como no caso do meu último texto, onde eu falava sobre a mídia e a loucura). Trata-se de sugestões de leitura que considero interessantes, pois podem despertar os leitores para certos temas que exigem um conhecimento a mais, evitando que se caia em dogmatismos ou opiniões mal formadas.

Para quem não sabe, sou anarquista, e muito do meu engajamento carrega valores libertários, e eu gostaria de deixar aqui alguns livros que podem ajudá-los a compreender o que é o anarquismo enquanto filosofia política e enquanto movimento político e revolucionário. Considero importante que se tenha esse conhecimento, pois há por aí idéias muito obscuras e equivocadas a respeito do anarquismo, sendo a principal delas, a de que o anarquismo está ligado ao caos e à balbúrdia. Isso é ruim e tão somente propaga a ignorância em detrimento da crítica bem fundamentada – que é o que os anarquistas esperam em relação à sua filosofia política.

Então, vos pergunto: vocês sabem o que é o anarquismo?

Aqui vão alguns livros que, a título de introdução, são essenciais e lhes darão as bases para responder rigorosamente à pergunta lançada anteriormente:

Do Anarquismo – Nicolas Walter

Resenha: Um livro enxuto, de leitura fácil e aprazível. Nele o autor busca explicar as características mais gerais do anarquismo, começando por uma breve descrição genealógica, passando por um balanço histórico e chegando à, digamos, fase adulta do movimento, que seria a fase onde o movimento anarquista adquire maior complexidade e rigor em suas análises. Por ser um livro dinâmico, não é nada enfadonho ou exaustivo, sendo que por isso, irá, muito provavelmente, agradar aos leitores menos familiarizados com a literatura anarquista.

Escritos Revolucionários – Errico Malatesta

Resenha: Militante anarquista italiano e conhecido também por outros títulos importantes da literatura anarquista, Malatesta escreveu diversos textos sobre o anarquismo, e este livro é uma coletânea de muitos de seus ensaios. Não muito diferente do livro Do Anarquismo, Malatesta irá, nos textos dessa coletânea, desenvolver um trabalho teórico de explicação, a fim de rebater as muitas críticas equivocadas que se fazia contra o movimento. Vocês irão encontrar textos sobre moral e valores anarquistas, organização e militância, prática revolucionária, objetivos, bem como um dos (opinião pessoal) textos mais belos sobre anarquismo (o título é Rumo à Anarquia, escrito no ano de 1910). Sem dúvida uma leitura indispensável os curiosos pela história do movimento anarquista.

Deus e o Estado – Mikhail Bakunin

Resenha: Considerado um dos mais importantes teóricos anarquistas, participou ativamente da 1ª Internacional (AIT: Associação Internacional dos Trabalhadores), até ser expulso por Marx devido a divergências teórico-práticas. Em Deus e o Estado, Bakunin tenta traçar um paralelo entre a estrutura de dominação e coerção do Estado com a instituição clerical, numa crítica corrosiva à Igreja e à religião. Leitura interessante para que possamos pensar o lugar ocupado pela instituição religiosa, bem como o Estado, no período histórico em que se encontrava o autor, em meio às lutas e reivindicações populares. Eu aconselho um senso crítico rigoroso, assim como um alto grau de senso histórico para a leitura desse título. Tenha em mente que Bakunin viveu em um contexto sócio-cultural muito diferente do nosso, por isso, não vá ler o livro e pensar – equivocadamente – que se trata de uma crítica à instituição religiosa e ao Estado contemporâneos; que devemos abolir a Igreja, pois ela está em conformidade com o Estado despótico etc., as coisas não são bem assim. Leitores, no mais das vezes incautos, incorrem nesse erro e acabam, como seria de se imaginar, confundindo as coisas e falando coisas sem sentido. Salvo tais cuidados, uma leitura também fundamental.

O que é a Propriedade? Pesquisa Sobre o Princípio do Direito e do Governo – Pierre-Joseph Proudhon

Resenha: Anarquista (ou Federalista) francês consagrado por escrever a mais famosa obra crítica sobre a propriedade privada (a obra que aqui está sendo tratada), chamando a atenção até mesmo de Marx, que tornaria seu amigo e viria a romper com a amizade por discrepâncias teóricas tempos mais tarde. Como já evidenciado, nesse livro Proudhon elaborará uma crítica à instituição da propriedade privada, onde concluirá, “que a propriedade é um roubo”. Essa frase tornou-se célebre no meio revolucionário. Mas o interessante não está apenas na notoriedade que tal obra alcançou em sua época, e sim, nos muitos paralelos que se pode fazer entre a obra de Proudhon e a filosofia rousseauniana. É consenso entre os historiadores e especialistas em filosofia política a influência de Rousseau nos movimentos revolucionários contemporâneos. Pode-se dizer que muitos anarquistas preservaram os ideais oriundos da Revolução Francesa e do Iluminismo (que Rousseau é um dos precursores).  Para quem leu o Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade Entre os Homens, do Rousseau, poderá dizer que a frase “a propriedade é um roubo” nada mais é que uma síntese do primeiro parágrafo da segunda parte do citado livro de Rousseau – a semelhança é grande, acreditem. Valerá muito a pena adicionar esse livro em sua lista de leituras.

O Único e sua Propriedade – Max Stirner

Resenha: Controverso e polêmico, Stirner é, sem sobra de dúvidas, uma figura singular no que se refere à literatura anarquista. Ao contrário dos teóricos anteriormente citados, Stirner desenvolveu sua teoria a partir de axiomas radicalmente opostos ao que comumente se pregava no movimento anarquista. E este livro (o único publicado por Stirner) é a prova disso: contrariando os valores coletivistas dos movimentos revolucionários de então, Stirner desenvolveu uma teoria voltada para o individualismo, e abolindo a moral do desinteresse (altruísmo), propôs um anarquismo além de individualista, egoísta. O ponto mais interessante e crucial, nesta obra, é o movimento inusitado do autor: ele criou uma teoria onde o egoísmo ocupava um lugar privilegiado na constituição dos sujeitos. Stirner atribuiu um valor ontológico ao egoísmo, transformando-o em predicado ontológico do sujeito, e não mais – como pregava, principalmente, o cristianismo – um mero fator externo que viria supostamente corromper a pureza – ou altruísmo – dos indivíduos. Daí seu caráter polêmico e controverso. Considerado quase que unanimemente, um falso anarquista, foi jogado na alcova, para o esquecimento de todos. De certo uma leitura também fundamental, até mesmo para compreendermos como alguns valores que defendemos nada mais são do que preconceitos seculares. Leitura mais que recomendada.

Então é isso, pessoal, essas são as leituras recomendadas, mas, antes de encerrarmos, gostaria de sugerir também alguns nomes de figuras importantes no movimento, que tenho certeza, ampliarão muito mais os seus conhecimentos acerca do movimento revolucionário anarquista. Segue os nomes: Elisée Reclus, Piotr Kropotkin, Emma Goldma, George Woodcock, Nestor Makhmo e Noam Chomsky.

Agora sim acabou, até a próxima coluna, e espero que apreciem as sugestões de leitura.

comentários
  1. felipemp93 disse:

    Estudei sobre Bakunin semana passada. Não estudei muito sobre ele, foi mais uma passagem da história do socialismo científico, mostrando quando ele foi expulso por Marx. Leituras que de fato seriam interessantes para mim, se eu não tivesse agora lendo e estudando um pouco sobre a psicopatia ^^

  2. Cure disse:

    ‘Deus e o Estado’ – Mikhail Bakunin:
    Ah! Ele não, Ele não!
    Embora eu tenha certo apreço pelo colega barbado eu tenho certo receio deste livro; por que ele gosta de atacar também a fé, que tem caráter individual, apenas.

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