A Crise da Filosofia

Publicado: 17 de setembro de 2010 por Rico em Rico

Fui incapaz de dar um título mais adequado a esta postagem. Admito que falar em crise na Filosofia é um falso problema, um chiste filosófico, mas esqueçamos isso; não deem importância ao título e sim ao que vos falo aqui. Hoje estive refletindo a respeito da visão que as pessoas comuns tem da Filosofia – visão essa de raízes históricas profundas. Quando digo a alguém que pretendo cursar Filosofia, logo surgem piadas do tipo “mais um desempregado no mundo”; ou quiçá pior que isso, olham-me como se eu fosse um inútil, como se aquilo que pretendo fazer (Filosofia) fosse algo inócuo, vazio, irrelevante. Será isso mesmo?

Para dificultar ainda mais o caminhar da Filosofia, não há a menor preocupação em desmistificar a Filosofia, trazê-la para perto das pessoas, torná-la não mero luxo da academia, cerrada nos muros das cátedras, mas algo que funcione para além desses muros – gosto muito do que Deleuze fez com Proust: fazer do saber filosófico uma caixa de ferramentas, “é preciso que sirva, que funcione”, diz Deleuze. A pergunta que mais assombra os iniciados em Filosofia é aquela que diz respeito à utilidade da Filosofia: para que serve a Filosofia? Que estudante se atreve a respondê-la com toda corajem de seu coração? É preferível calar-se diante dos absurdos ditos a respeito da Filosofia – daquilo que não se conhece suficientemente bem para falar sobre.

Atualmente vivemos sob a égide  de um certo “império da técnica”, ou seja, o indivíduo na contemporaneidade é incapaz de ver para além do frio mundo da tecnologia. Se algo não nos oferece resultados imediatos ou efeitos imediatos, não damos importância a esse algo. É preciso que tudo funcione como uma câmera digital ou um aparelho de TV. Isso dificulta ainda mais o entendimento do que seria o saber filosófico. Enfrentamos também o dogmatismo do cientificismo, uma idéia despirocada acerca da ciência. Preocupa-me deveras esse desdém em relação à Filosofia. A Filosofia não é mero exercício de abstração, um tipo de ascetismo, e deveríamos nos esformar mais para mostrar isso – o que significa também nadar contra a corrente tecnicista contemporânea.

Muitos nos questionam, por exemplo, onde exatamente se aplica o saber filosófico, mas já com a pré-resposta de que não há campo algum onde o saber filosófico se aplica. Ora, o cristianismo não está impregnado, desde a sua raíz, de platonismo? Não foi Nietzsche quem disse que o cristianismo nada mais é que um platonismo para o povo? Nem mesmo os cristãos mais ortodoxos sabem que os escolásticos liam Platão em paralelo com as Escrituras Sagradas, justamente para poderem interpretar tais escrituras. Quando o suicídio motivado pela fé passou a ameaçar a religião cristã, a quem se recorreu? Recorreu-se à Platão. Outro exemplo exímio é Rousseau. De onde veio o jargão “vontade geral” que os políticos tanto usam em época de eleição? Respondo-lhes: de Rousseau. Assim como o Welfare State e a Democracia Representativa encontram suas bases em Rousseau. Há muito da Filosofia no que fazemos e pensamos, acontece que poucos se prestam a refletir sobre a “origem” de seus pensamentos, que não surgiram do nada, mas são frutos de uma história.

Por que não estudamos um pouco mais sobre Filosofia? Por que não ignoramos todos os estigmas que tão mal fazem à Filosofia? Eu falo não só como um futuro estudante de Filosofia, mas como alguém preocupado com a circulação do conhecimento, em propiciar às pessoas que elas compreendam melhor os saberes que a rodeiam. Não só a Filosofia é mal compreendida, muitas vezes a ciência também fica refém de idéias equivocadas, de preconceitos e dogmatismos. E então, como ficamos?

comentários
  1. Jess disse:

    Eu estaria mentindo se dissesse que discordo, mas comentar simplesmente que concordo me parece tão supérfluo. Talvez não o seja, mas é no mínimo sem graça. Todavia, adorei essa passagem – e isso pode fugir, mesmo que não muito, do ordinário:
    “Atualmente vivemos sob a égide de um certo “império da técnica”, ou seja, o indivíduo na contemporaneidade é incapaz de ver para além do frio mundo da tecnologia.”
    As pessoas se recusam a pensar, eis o fato. Se não há reflexão, para que diabos uma Filosofia? É um problema antigo, de certo modo, mas que se intensifica, ao meu ver, cada vez mais.

  2. Elisa Gouvêa disse:

    Nossa q texto denso… é a junção de dois problemas: falta de tempo e preguiça.
    Nenhum deles justifica essa falta mais é…
    Pior do q a falta de interesse generalizada por ESTUDAR A FUNDO qualquer coisa, ainda tem o fato de ACEITAREM muito facilmente as informações como verdade…

    FICAMOS MAL!
    Ninguem vai dar bola pra filosofia enquanto tiverem coisas q a sociedade e o vestibular da mais valor…
    Tlvz se os vestibulares fizessem questoes direitas os alunos estudariam tanto quanto a física neh?
    A base de tudo na realidade É a filosofia…por isso é tão dificil de dizer oq ela é. ela em si não é nada, mas esta em TUDO! q nem ar… ta por ai vagando na garganta das pessoas…
    Os nomes… tanto na sociologia quanto na filosofia vcs professores e estudantes insitem em sinalizalos e tal as isso para leigos preguiçosos atrapalha… pq ai eles terão de procurar oq querem dizer ou quem foram prara compreender o texto plenamente…

    Mas vai mudar, daq alguns anos artistas e filosofos não seram mais chamados de drogados e vagabundos… é uma questão de tempo.
    Agora que filosofia se tornou matéria obrigatoria , e no vestibular tiver questoes DECENTES de filosofia ai melhorar a forma que veem a filosofia.

    Não estudo mais a fundo filosofia pq não tenho tempo. Teho facilidade pra entender e mais dificuldade em exatas (como a maioria das pessoas) então acabo perdendo muito tempo as estudando por conta de nota…é a triste realidade do aluno :/

  3. Rico disse:

    Quando falei sobre a técnica, tomei como base a crítica heideggeriana da técnica. Enfim, é um fato a inércia, o conformismo, intelectual: ninguém quer fazer o que exige de si algo mais que abertar botões e/ou escolher entre “sim” ou “não”.

    Como esperar que uma pessoa, assim concebida, pegue um livro de Kant, Hegel, Platão, ou qualquer outro filósofo, e leia, mas leia mesmo, com afinco, atenção necessária, que absorva o que lê? As pessoas, hoje, tem dificuldade em ler textos simples, que dirá ler um livro de Filosofia, por mais simplório que seja.

    É muito triste e o que mais me enerva são essas pessoas que, sem conhecimento de causa, falam da Filosofia. Dizem que Filosofia é pura abstração, mas nunca leram um livro de Filosofia na vida. Falam de Democracia mas nunca ouviram falar ou leram Rousseau, Platão, Sócrates… Quem já leu um filósofo iluminista?

    Outro dia, numa comunidade de um game online da qual eu faço parte, um energúmeno abriu um tópico onde tratava da xenofobia em pé de igualdade com o nazismo; quando criticado ainda quis ter razão, argumentando que “eu uso a palavra que eu quiser”. Como se o texto medíocre dele tivesse mais valor que os textos dos grandes historiadores, que passaram a vida toda estudando sobre o assunto.

    Isso revolta-me imensamente!

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