Do Pensamento e da Arte de Pensar

Publicado: 10 de outubro de 2010 por Rico em Rico
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O pensamento (ou a idéia) não está conosco como que de uma forma serena e apaziguada, não somos meros reprodutores de idéias que já estão aí, incrustadas em nosso ser, à espera do resgate pela razão, como querem os racionalistas; a começar pelo pai dele, o filósofo francês René Descartes. Nós, diz Spinoza, somos autômatos ideais, não as temos (as idéias) em nosso poder – não como querem, uma vez mais, os racionalistas. Uma idéia é sempre um bicho selvagem que pula em nós quando estamos caminhando numa selva e somos surpreendidos por algo terrível; aquilo que nos faz pensar, aquilo que engendra em nós o pensamento, não está em nós – poder-se-á falar de uma estrutura apriorística que tornaria possível o pensamento, como postula Kant, mas aí já não é mais a mesma coisa -, e sim no meio – entendendo “meio” como “ambiente”, seja o ambiente político, quotidiano, econômico ou qualquer outro -, por entre as pedras e os riachos.  Diz-nos Deleuze, em seu célebre livro dedicado à Filosofia: “o sujeito e o objeto oferecem uma má aproximação do pensamento. Pensar não é nem um fio estendido entre um sujeito e um objeto, nem uma revolução de um em torno do outro Pensar se faz antes na relação entre o território e a terra” [O que é a Filosofia? – Geo-filosofia, pag. 113].

Grande contribuição essa de Deleuze, para quem o pensamento está longe de ser essa linha que liga o homem (sujeito) àquilo que ele pensa (objeto), como se fôssemos apenas indivíduos que tivessem que olhar melhor, esforçar-nos em pôr nossa razão em atividade, para que ela nos garanta a coisa em-si. A própria Filosofia, polemiza Deleuze, não advém de uma origem, mas diferentemente disso, de um solo, de um território que a torna possível (e encontraremos esse solo nos Gregos). Mas voltando ao que se falava antes, que é um pouco diferente do que falávamos agora, é preciso que o pensamento nos surja – e não há certeza de que se trate de um “surgimento” – como um soco, como um ponta pé ou um tiro de fuzil que nos fere, nos faz sentir dores terríveis. O pensamento nasce sempre de uma indisposição, mesmo sendo ela alegre ou inebriante (o espírito trágico de Dionísio, onde o próprio sofrimento é incentivado e adorado); é como diz Nietzsche: sem as “dores do parto” não há criação, e toda criação já é em si um tipo novo de pensamento, de modos de pensar.

Daí também que não se trata, tal como no pensamento clássico, de puxar progressivamente o véu que nos esconde a realidade, a verdadeira realidade; uma vez mais: a coisa em-si. Não encontramos nada no mundo. A verdade não é aquilo que está perdida no mundo, cabendo a nós homens encontra-la. Não se descobre verdades, cria-as. Nietzsche foi um dos primeiros a nos alertar do caráter criativo da verdade. Alguns dizem que nos perdemos do verdadeiro, que a verdade escapou de nós; são tolos e ingênuos. Como poderíamos perder algo que jamais fora perdido? Algo que jamais poderia ser perdido? É preciso repetir Nietzsche, “não somos rãs pensadores, aparelhos de objetivar e registrar, de entranhas congeladas” [A Gaia Ciência – Introdução, pág. 16], o pensamento que se dá em nós – pois nós não a temos, e sim somos tomados por elas, sem o nosso consentimento – é fruto das forças que nos atravessam, fruto de um certo estranhamento das coisas do mundo. Quando os objetos estão fora de seu devido lugar, quando sentimos, ao olharmos desatentamente pela janela, que alguma coisa não cheira bem. Por fim, vale-me dizer: o pensamento é criação, está para o filósofo, o cientista, como a pintura ou a poesia está para o artista – que também pensa, que também tem as suas “dores do parto”. Pensar é ser suscetível às forças que nos arrebata, às imposições de um meio que se torna hostil e perigoso. Isso também já estava em Nietzsche e devemos ouvi-lo. Assim como não nos cabe mais separar mente de corpo, não nos cabe mais separar sujeito de objeto, assim como o pensamento não deve ser mais considerado como aquilo que nos liga ao que é, ao que está lá, pronto no mundo, a nossa espera (ranço teológico segundo o qual o mundo está para o homem), e sim, o que nos dá o que precisamos para empreender grandes obras: a criação para o filósofo, o artista ou o cientista.

comentários
  1. Blue disse:

    Interessante sua crítica da razão pura e as imagens que deu às idéias que nos aturdem. Não acho que pensar o mundo é criar o mundo e suas verdades, mas bem, isso também me lembrou muito Husserl, apesar dos pesares, curto muito fenomenologia.

    Você me lembrou Clarice também:
    “Pensar é estar de pé diante de um susto”.

    Gostei muito do texto no que compete ao paralelo entre o filósofo e o artista, o pensador e o criativo.

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