Sem título

Publicado: 16 de outubro de 2010 por JessVelvet em Diversos

Um vento gélido adentrou a janela percorrendo todo o espaçoso e mal iluminado cômodo, varrendo alguns antigos pergaminhos e a poeira que há muito estava ali presente. Uma sensação de estranho torpor tomou de súbito conta dos ânimos de um jovem que orlava os dezoito anos de idade. Ele adentrou o escritório percorrendo-o sem se importar com a sujeira que o infestava e, fechando a janela para eliminar até então o motivo de peculiar barulho – um sopro que ricocheteando de contra o papel de parede obsoleto e pouco conservado assemelhava-se ao lamento de enfermos terminais –, viu-se reascender lembranças que deveriam ser esquecidas. Elevou um antigo jornal, apanhado sobre a mesa principal em mogno e bronze, à altura do rosto, e pôs-se a lê-lo superficialmente. Não havia nada de útil, nada de novo, exceto talvez um assassinato sem resolução. Repetiu o mesmo ritual dez, vinte, trinta vezes. A mesa estava apinhada por exemplares de anos passados, em alguns casos, décadas. O rapaz levantou-se, olhou para o relógio de pulso, passava das dez horas noturnas, mal percebeu quando correram de contra o tempo. Abriu uma das gavetas da mesa e lá encontrou várias pilhas de cartas bem organizadas. Pegou a primeira do monte esquerdo, curiosamente era datada do mesmo dia do exemplar que acabara de ler. Possuía uma letra pequena e bem desenhada e, ao correr os olhos pelo texto, custou a acreditar nas sentenças que se formulavam a cada novo parágrafo. Desejou estar sendo novamente enganado por seus sentidos ludibriadores, desejou que todas as histórias não passassem disso – apenas histórias. Mas consoante ele desbravava os acontecimentos do que deveria ser um conto ou alguma piada, constatava que cada fato se mesclava magistralmente com a realidade narrada nos jornais há muito substituídos. Leu as demais cartas e todas traziam curiosas semelhanças com os assassinatos das notícias, guarnecidas, porém, com os detalhes sórdidos que apenas o responsável pelos crimes ou uma mente deveras fantasiosa poderia criar. Correu até a janela e a abriu com urgência, deixando a brisa gélida e ruidosa lhe surrar o rosto pálido. Todos os contos presentes nas cartas eram compatíveis com as histórias que lhe foram contadas desde a tenra infância. Histórias para dormir! Nunca acontecimentos verídicos. Olhou novamente para dentro, franziu o cenho ao ponderar sobre as possibilidades. As palavras de seu tio ecoaram várias vezes em sua cabeça.

E você é o vilão, e você é o vilão, e você é o vilão.

Correu até a mesa, arrancou uma das cartas e a releu, com os olhos vidrados em cada palavra, em cada nova descoberta. Era como se a lesse pela primeira vez, como se o velho tornasse-se novo à mercê de sua necessidade de fazê-lo assim.

– Leia em voz alta para mim. – O rapaz assustou-se com um vulto estático diante da porta. Um silêncio incômodo prolongou-se por alguns minutos, até ser interrompido por uma voz roca e suave, a voz de quem estava disposto a fazer qualquer coisa para negar sua maior vontade: tornar-se o personagem principal daquele conto.

[…]

comentários
  1. Isabella M. disse:

    Adoro a sua escrita, Jess.

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