Malditos Cigarros

Publicado: 23 de outubro de 2010 por JessVelvet em Diversos

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Treze de março,

Ouviu-se um grito. Era agudo e prolongado fora por alguns segundos. Seu eco, de ignomínia inaceitável devido ao caráter plagiador, percorreu todo o apoucado espaço de uma viela escura, e inclusive a teria ultrapassado se um vulto disforme não o tivesse detido. Mas compreenda, foram os pensamentos, e não as luzes, que se apagaram. Os lábios que gritavam emudeceram-se com a segunda presença e, em tal momento de reflexão não programada e profunda meditação, ele – num corpo bem apresentado e com vestes mal dormidas – introduziu-se ao senhor de insólito destino, talvez à senhora. E quando se deu conta de que nada do que fizesse naquela noite mudaria o aspecto trivial das coisas que mais odiava, rendeu-se aos desejos vítreos de uma garrafa seca e ao vício sórdido de um maço recheado, saboreando o vazio e deleitando-se com a perspectiva de um sono infame. O enaltecer do futuro próximo, dessa vez, não lhe ultrapassou a estima pela sensação de dor e agonia que todas as flores secas, vivas ou mortas, deveriam nutrir em seus âmagos. Por isso nomeou-lhe miosótis, para que do anis de seu vestido molestado retirasse o motivo da cor das pétalas caídas ou simplesmente o contrário. Bebeu a última gota do absinto que lhe envenenava a mente e jogou sob a sola de seu calçado caro um cigarro imaculado pelo fogo, seria uma forma cortês de dizer àquela figura atordoada que ele não era seu agressor. Mas hesitou por assim pensá-lo. Quem, de fato, garantiria igual afirmação – ou mera suposição? Poderia então ele, por deter controle parcial de seus pensamentos, medir e comandar suas ações? Ou seria vítima de um sistema pré-disposto a trapaceá-lo com seus próprios valores? Preferiu abdicar da culpa de uma promessa dúbia ignorando-a por completo.

– Adeus.

Disse simplesmente, recusando-se a lhe observar o rosto. Qualquer expressão, bela ou vetusta – esta última que ultrapassava em desprezo de seus conceitos a fealdade –, poderia fazê-lo mudar de idéia, mas deixar-se governar por impulsos de uma natureza tão duvidosa quanto os significados da flor que a desconhecida representava seria um erro inadmissível.

– Fale-me!

Ela bradou antes que dois passos fossem dados em seu oposto, impedindo-o, com o susto, de prosseguir pela alameda das ilusões – onde poderia livrar-se daquela presença com o mero gesto de quem sabe ignorar. Ele pressionou os dedos no punho fechado e parou, virando-se para ela e tomando-lhe o semblante com um curioso olhar. Era bela, decerto, e jovem, deveras, o que lhe causou o asco, pois imaginar era antes aceitável ao ato de tomar a certeza de que a influência daquela pessoa estava imposta terminantemente sobre suas reações.

– Não há nenhuma resposta que te possa ser dita sem que tu mesma já não a tenhas encontrado.

[…]

comentários
  1. Blue disse:

    Gosto especialmente do suspense. Muito bom, esperando pelas próximas partes

  2. oddbal disse:

    Nice ;)

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