Malditos Cigarros [2/2]

Publicado: 28 de outubro de 2010 por JessVelvet em Diversos

[…]

As palavras desencadeavam uma série de conclusões aleatórias nele. Não respondia a ela, mas a si, e com isso postou-se desejoso diante da respiração cálida e dos lábios rosados da moça de vestido azul. Afagou o maço de cigarros no bolso externo do paletó, uma espontânea vontade o seduzia, mas era necessário negá-la, do contrário os acontecimentos perderiam o sentido e o rumo das coisas culminaria no mais sórdido desfecho. Era sempre assim. Ele precisava lutar contra suas necessidades, precisava fingir para outros olhos o que não estava vendo – quando na verdade, era apenas o que poderia enxergar. Não existia beleza nas coisas puras, não existia pudor num ato de bondade. A beleza era um artifício que dispensava interpretações, deveria ser apenas admirada e nunca explicada, por isso as designações fugiam aos seus limites. Já o pudor residia somente na mente de quem observava e em mais nada.

– Eu suportaria teus abraços e até tua agressão. Meu orgulho me condena ao silêncio, mas meus sentimentos não cansam de dizer: não há nada tão danoso a uma alma quanto a indiferença de outra por ela estimada. Se vá, mas não me deixe.

As palavras que acabara de ouvir, ela sabia como ninguém os seus significados. Talvez por isso falasse como se há muito o conhecesse, insinuando acontecimentos que somente uma memória compartilhada podê-lo-ia mostrar.

– Tu me acusas de saber-te o nome, sem que me tenhas lido a introdução. Sinto-me perdido nas entrelinhas e confuso com o conteúdo, uma vez que de nada me recordo. Se estiveres me contando o final de um livro que ainda nem comecei, como ousas perguntar-me sobre seus meados?

Havia uma recusa em crer naquela realidade de princípios enredadores, onde qualquer palavra que ela proferisse denunciaria um contato entre os dois. Ele retrocedeu alguns passos e esperou que ela acalentasse suas súbitas inquietações. Mas uma cortina de fumaça a encobria, quando inclusive a lua estava escondida sob nuvens obscuras à semelhança das paredes grises que os rodeavam, imersas na névoa de uma noite qualquer.

– Perdoe-me, meu senhor. Sob a penumbra creio ter confundido teu singelo rosto. Mas que muito lembras meu estimado, digo-te que é verdade.

Então um alívio o tomou e ao mesmo tempo em que se sentiu livre, entristeceu. Deveria coexistir com aquelas palavras sem sentido tamanha beleza? Hedionda era! E somente agora ele podia desfrutar de estonteante visão.

– Tu estás perdoada, minha pequena miosótis.

Ele sorriu-lhe com singeleza e seguidamente tocou sua mão gélida com audácia. Esperava por qualquer repreensão da mesma, mas nada recebeu em troca do toque, nada além de um olhar de tristeza infinita. Por que ele deveria parecer com aquele que ela desejava ver? Onde estava o destino e qual seria o papel das coincidências?

– Que Ele a tenha.

Ela olhou para o chão e quando ergueu o olhar deslumbrou-se com o reflexo prateado de uma lâmina bem diante de seu pescoço. Ele aproximara-se com sagacidade e agora a cortava lentamente. Sentiu a dor perfurando-lhe a carne e o sangue quente lhe escorrendo pelos seios. Fechou os olhos e deixou um par de lágrimas cair. Estava de certo modo aliviada, mas ainda assim infeliz. Aliviada por sentir o esmorecimento tanto físico quanto vital, e infeliz por ter sido ele a última imagem, um mero plágio de quem deveria amá-la. O homem segurava seu corpo conforme as forças a deixavam para trás. Tocou os dedos em seus contornos faciais com ternura e postou-lhe nos lábios um frívolo beijo. Soltou-a no asfalto solitário, quase como a havia encontrado. Limpou a lâmina da faca no tecido azul do vestido e a guardou novamente sob um bolso interno do paletó. Acendeu um novo cigarro com um isqueiro de prata, marcado por um olho de Ísis. Prosseguiu por seu antigo caminho, imaginando o que faria para o jantar, imaginando qual flor não desejaria encontrar em outra esquina no dia seguinte.

– Da próxima vez, devo lembrar-me de acender esses malditos cigarros.

————————————-

comentários
  1. Isabella M. disse:

    Ótimas descrições. *-*

Deixar uma Resposta?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s