Depois da noite antes da madrugada

Publicado: 7 de dezembro de 2010 por Blue em Blue

Despertou antes que os olhos. Aquela sensação era nova, desconfortável e nojenta. Os olhos grudados por causa da secreção, tentava abri-los e manter a calma enquanto isso. Era conjuntivite, e nos dois olhos. Estava bem agressiva, seus olhos passavam os dias lacrimejando e com grande sensibilidade a tudo, no dia anterior havia tido febre e dores pelo corpo.

Despregou os olhos, pegou a garrafinha de água boricada, o colírio, o cotonete e saiu. Abriu a porta do quarto e, de cabeça empinada para poder enxergar melhor, caminhou até o banheiro.

Fechou a porta e tentou olhar-se no espelho. Não queria de jeito nenhum que alguém a visse assim, nunca imaginou na sua vida que pudesse existir uma conjuntivite dessas. Ficou olhando o espelho por algum tempo, depois iniciou o processo de limpeza. Quando terminou, pode finalmente abrir por completo os olhos. Dois olhos vermelhos, manchados de vermelho. Suspirou e voltou pro quarto. Deitou na cama, cobriu-se da cabeça aos pés. Conseguiria dormir de novo, mas não por muito. Acordou com a mãe abrindo a janela do quarto.

“Acordou? Me Deixa ver. Ta feio ainda. Já tou saindo. Vê se levanta da cama. Tenta fazer alguma coisa, arrumar o quarto pelo menos… Não vá ficar o dia inteiro deitada”.

Assim que a mãe saiu, se levantou. Fechou a porta do quarto, passou chave, depois foi a vez das janelas e cortinas, voltou pra cama.

 –

Nunca saberia o quanto dormira, ou que horas eram. Sentiu-se estranhamente melhor, bem disposta. Depois de um bocejo, se espreguiçou com prazer. Sentou-se na cama e puxou o celular da cômoda a fim de checar as horas, mas a bateria havia acabado. Levantou-se devagar, foi até a janela, abriu, deu uma olhada lá fora. Já era noite, parecia ser tarde, talvez madrugada. Não, impossível saber, aquela rua era sempre daquele jeito. Poderia ser tarde mas nem tanto… Esboçou um sorriso, sentia seu corpo com vida novamente, os olhos pareciam bem, estavam apenas coçando. Voltou e estirou-se na cama. Que horas seriam? Será que a mãe já tinha chegado? Será que já poderia fumar seu cigarro tranquila?

Ficou de pé num pulo, foi até a sua cômoda, tirou seu maço de cigarros e o isqueiro que havia ganhado de presente. Foi até a janela, acendeu e tragou. Ficou a olhar o isqueiro e a noite… Seu amigo Mauro havia ficado uma fera quando soube que ela estava fumando. Ele nunca saberia, mas ela gostava de lembrar disso e rir sozinha.

Gostava de pensar nele também.

Ela ficava olhando para ele tentando adivinhar sua expressão, nunca o entendeu direito. Alguns dias depois dele ter brigado com ela por causa da modinha do cigarro ele deu o isqueiro que agora usava de presente a ela. Será que ele queria faze-la sentir-se mal com o presente, ou não conseguia defender suas opiniões diante dela? Será que a queria agradar como os idiotas tentam agradar? Um homem submisso? Ela bem que gostaria disso, riu de novo. Parou de abrir e fechar o isqueiro, gostava de fazer isso como nos filmes, jogou-o na cama. Meteu a cabeça pra fora da janela e tentou encontrar a lua. Não conseguiu, o céu estava limpo, mas as casas eram muito grandes. Que horas eram?

Seu pensamento voltou a seu amigo. Mauro. Mauro tinha sido seu primeiro namorado na primeira série. Tinha uma relação esquisita com ele, pensava que não gostava dele, parecia não gostar, mas gostava, só que de um jeito que só algumas pessoas poderiam entender. E Mauro não era uma dessas pessoas…

Arremessou o cigarro pela janela, foi até a porta, mas ela estava trancada. Não sabia mais onde colocara a chave. Resmungou e começou a revirar os lençóis e abrir gavetas. Encontrou a chave por entre os lençóis da cama. Foi até o banheiro, examinou os olhos, estavam com aspectos melhores, graças a Deus. Lavou o rosto e escovou os dentes, ia sair.

Voltou ao quarto, colocou uma roupa e pegou seus óculos escuros. Desceu as escadas, pelo silêncio e escuridão da casa, já deveria ser bem tarde mesmo… Ou talvez não, quem sabe? E sua mãe, já dormia ou tinha ficado até mais tarde no serviço? Nem se lembrou de olhar as horas, destrancou a porta, o portão e saiu pra a rua. Colocou os óculos, havia levado seu cigarro consigo também, seu cigarro e seu isqueiro. Acendeu um.

Agora já podia ver a lua, ela estava no ponto mais alto do céu, como se fosse o sol ao meio dia… Quem sabe não fosse meia noite? Andou alguns quarteirões até a casa de Mauro. Tocou a campainha, teve de tocá-la algumas vezes até ele aparecer pela janela do segundo andar.

Sorriu, Mauro foi ao seu encontro. Ele apenas a encarou. E ela o encarou de volta.

– Ainda ruim da conjuntivite? O que aconteceu?

– Por que você me deu esse isqueiro?

– Quê?

A garota puxou o isqueiro do bolso.

– Por que você me deu?

– Veio aqui essa hora pra perguntar isso?

– Por que me deu?

Mauro olhou a rua.

– Ta bem tarde.

– Tarde pra você.

– Por que disso agora? Amanhã.

Mauro se virou para entrar, mas a garota o agarrou pelo braço.
– É serio, por que me deu?

Mauro olhou profundamente aquela menina, aquela menina de óculos escuros e de cabelos finos, aquela menina com conjuntivite. Ele amava até sua conjuntivite. Mauro sorriu como não costumava fazer, ela o olhou novamente tentando adivinhar o que seria aquele sorriso.

Se olharam num silêncio que começou a incomodar a menina, se olharam e por fim ela baixou a vista temendo ouvir o que agora ela já sabia.

– você fica bonita fumando, confesso.

– HAHA. Por que você não disse logo? – riu a garota aliviada  – Era a única coisa que poderia dizer, afinal eu fico mesmo!

– É sim…

A garota temia encara-lo agora.

O rapaz sorriu, a garota temia ainda.

A garota o beijou no rosto.

– Tchau.

A garota seguiu seu caminho para casa. O acontecido mexeu um pouco com sua cabeça… Mas ela já não sabia? Não deveria ter ficado daquele jeito. Voltou pra casa, pro seu quarto, pra sua janela, pra seu cigarro. No entanto este seria o último. Iria parar de fumar. Tragou pela última vez. Sorriu. Era um modo estranho de se convencer as pessoas, pensou, um modo estranho, mas muito eficiente, o amor.

comentários
  1. Muito bom!

    Belíssima história, carregada de emoções, de sentimentos e vivências, elementos que se perdem na átual época em que vivemos, perde-se esse emergir nas emoções de simples banalidades, que reve-lam uma personalidade imensa, uma inversão de sucesso na literatura. Maravilhas.

    Agradeço por me ajudar a me compreender.

  2. Gabi disse:

    Ainda quero saber que horas eram, hunf!

    Hahah, mas ficou muito bom mesmo! =)

  3. jessvelvet disse:

    Eu gostei muito, Blue. É como uma fábula… moderna. Muito bonita a mensagem.

  4. brisinha disse:

    eu adoro essa historia parece q eu ja a vivi…e aproposito eu não pare com as drogas

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