Preto & Branco

Publicado: 8 de dezembro de 2010 por JessVelvet em Diversos

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Quando olhou através da janela percebeu que a noite ainda não abandonara o céu. O relógio soava insistentemente um despertar antecipado. Sentou sobre as cobertas num estado de quase morte e quase vida – ainda que ambos dependessem apenas do abrir ou do fechar de olhos.  Ponderou, como usual nos últimos meses, sobre os propósitos que deveria esquecer. Mais uma vez não encontrava explicação para todas as verdades – desejava com isso atribuir-lhes os valores mentirosos de alguma nova invenção. Qualquer coisa seria melhor do que continuar sentindo aquele vazio que lhe corrompia o corpo e a mente. Porque quando o trouxeram de volta à realidade, digo, à realidade que julgavam ideal, ele não pôde deixar de desejar que fosse também o fim – como de fato era –, o fim de tudo aquilo que havia construído dentro de si.

– Como podem pedir que eu abandone uma farsa em prol de outra?

Era a vida dele em troca da vida deles e nada mais seria questionado. Os minutos passavam lentamente, mas tão breve as manhãs se desenhavam para além do horizonte e, outra vez, ele tomava aqueles remédios com nomes complicados, sem entender o propósito de seus efeitos.  Continuava sua existência quase interrompida – a única solução era aceitar que não havia nenhuma outra. E era nesse jogo, de estranhas repetições, que os dias prosseguiam sempre os mesmos, ausentes e ignotos – dentro daquelas paredes brancas onde todas as coisas perdiam a cor.

– Senhor Schwarz, hora do seu medicamento.

Por que ele deveria entender? Por que deveria abdicar de seus primários desejos? Aprendeu naquele lugar uma lição que considerou crucial para a compreensão das coisas e do mundo onde deveria viver: as pessoas têm uma estranha mania de normalidade. Ele queria dizer que elas seguiam padrões muito específicos e que aqueles que ousavam quebrá-los eram, quase sempre, questionados e punidos. Quando percebeu que esses padrões regiam as leis que ordenavam a sociedade tudo começou a fazer um pouco mais de sentido, mas isso foi só depois, bem depois.  No momento, ele era apenas uma mancha negra no carpete branco, uma mancha que deveria ser destruída.

(…)

comentários
  1. Isabella M. disse:

    Ficou muito bom, Jess!

  2. jessvelvet disse:

    Que adorável, Blue. Obrigada. Bom, ele tem sim, afinal, todos são partes de uma só coisa. No final você vai ver como todos se conectarão. (:

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