O(s) estrangeiro(s)

Publicado: 13 de janeiro de 2011 por Blue em Blue

Ontem terminei de ler O estrangeiro de Camus. Embora o autor não se declarasse assim, sua obra é caracterizado pelo Existencialismo. Nessa corrente filosófica a essência é substituída pela existência, ou seja, dá-se valor ao subjetivismo, ao individuo. Camus tem uma frase que gostaria de lembrar…  “O que eu não conheço não existe para mim”.

No estrangeiro, notamos logo que esse título não diz respeito somente a condição do personagem, mas também a sua natureza. Ele é um estrangeiro na vida, na sociedade, nas suas convenções e na sua moral. O estrangeiro vê os acontecimentos e os sente, mas não se identifica com eles, ele na verdade não é dali… Mas de onde seria ele então?

Talvez o individualismo, por conseqüência do consumismo, talvez, por assim dizer, esteja em alta, mas não é disso que se trata o existencialismo… É uma individualidade ligada ao modo de ser no mundo, “o ser aí”. Há, no idioma alemão, uma palavra para expressar essa idéia, o “Dasein” (essa palavra muitas vezes é erroneamente traduzida como presença).

E do Dasein, vamos pular para a seguinte pergunta, que será o tema dessa fala:

Qual o seu modo de ser no mundo? E qual seria o modo de ser autêntico?

Bem, o que de fato separa alguém autentico de alguém inautêntico? O que de fato separa uma pessoa ordinária de uma pessoa vibrante?

Camus disse certa vez: “Quem não tem caráter precisa de um método”. Caráter é uma maneira de ser aí, ou seja, de SER neste nosso mundo louco, e isso é um problemão, uma maneira de ser relativa, sim, há que se dizer, mas concordemos que é uma maneira de ser autêntica isso a que Camus se referia. Mas vamos em frente com nosso raciocínio. Com nosso método de separação (afinal, filosofar nada mais é do que separar, poxa, essa é velha.)

Você Já parou para pensar o que seria a casa da sua individualidade? A casa do ser? A base para nossa existência? – Falando em casa desta maneira, talvez faça tu se sentir um estrangeiro, não?

A casa do ser para Heidegger, é a linguagem e o tempo.

A linguagem é aquilo que expressa o sentido dos entes (das coisas), num ser autêntico, as coisas ganham significado através da linguagem. Já reparou que para as pessoas inautênticas as palavras não dizem nada? Nada é para uma pessoa inautêntica… Para uma pessoa sem caráter, ordinária (ou seja, comum).

O tempo constituí o próprio Dasein (O ser aí – esse é importante por que quer dizer: “no mundo”. O ser está no mundo, e é constituído a partir desse). Num ser autêntico, este ser que procuramos, este ser capaz de formar um caráter para si mesmo e de não apenas seguir um método, o Dasein é “esburacado”… Ou melhor dizendo, “vazado”. Ou seja, para o filósofo que nos apresenta essa questão, é importante que o nosso ser não seja fechado, ou que se sinta acomodado – como se estivesse em CASA – ele indica o contrário disso, a inquietação, a angústia… Sim, a angustia é a expressão de um ser Vazado e esburacado… Bem vindo meu caro estrangeiro?

Os seres “autênticos” (soa clichê, eu sei), geralmente são de fato angustiados, neles as coisas então tem a possibilidade de existirem, de ganhar sentido, por que há abertura neles para isso. Neles, as coisas SÃO!

Pelo contrário, nos indivíduos inautênticos que vemos por aí, as coisas e o tempo não constituem sentido, nem vivência. É por isso talvez que esses seres são tão felizes. Eles não estão abertos para a existência como a autenticidade reivindica, mas por outro lado, se sentem seguros e contentes com suas “vidinhas” (poderia deixar de ser no diminutivo?).

Talvez a nossa mãe se sinta feliz em passar roupa assistindo a novela… Mas que sentido teria isso para você meu caro jovem autêntico? Você não está fechado, seu ser está furado de balas, pronto para que muitas coisas o transpasse, prontinho para a guerra, seja espiritual ou na rua…

O quê? Acabou? Sim, vamos deixar este texto vazado e sem final.

comentários
  1. Gabi disse:

    adorei esse teu texto!
    a metáfora do ser autêntico esburacado também tem tudo a ver, haha
    enfim, sério, ficou muito bom :)

  2. Ronan disse:

    Queria saber mais sobre o termo “Inversismo”. No entanto, é bem isso que foi dito no artigo. Parabéns! XD

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