Eu não gosto de Chico Buarque

Publicado: 18 de janeiro de 2011 por Blue em Diversos

texto de Bruno Scuissiatto – Especialmente para o Inversismo.

 

O espanto é a uma das versões da pós-modernidade acometida pelo uso abusivo e unilateral da internet. Esse aparato ganhou fôlego no Brasil há pouco mais de uma década e transformou os elos – sociais e familiares em abismos.

Com o advento das redes sociais, contas de orkut e twitter se tornaram os grandes marketings usados por jovens em sua maioria para bater no peito e refutar uma parte da cultura. O termo etimológico da palavra oferece algumas definições, porém o mais presente na coerência desta coluna é: aquilo que a pessoa sabe.

 Para o barateamento de uma cultura ou falta dela é preciso de jovens dispostos a talvez por timidez ou rebeldia nada velada a refutá-la, ao ponto de cuspir em Chico Buarque.

Como definiu, Pessoa – a literatura é uma confissão de que a vida não basta, faço das palavras do poeta português uma extensão: todo artista com característica própria extrapola os limites do cotidiano. Para quem passa por salas de aulas e convive na nada linearidade do cotidiano escolar, surpresa seria os adolescentes de hoje escutarem Chico Buarque ou ainda outros músicos presentes na história da nossa música popular brasileira.

Podem me perguntar, qual o motivo de citar Chico, a resposta, que não chega a ser uma equação, é simples: a revolta de um menino de 15 anos, após escutar da garota na qual tinha interesse – nunca ouvi falar de Chico Buarque.  O imediatismo juvenil se fez presente ao abrir um tópico em uma comunidade de um clube de futebol no orkut. Enxovalhado por muitos, criticado diretamente por ser considerado um “intelectual” no ápice dos seus 15 anos.

Ao presenciar essa histeria da intelectualidade vista pelo olhar senso comum em uma madrugada desse novo ano, acabei me questionando: seria essa avalanche um reflexo do uso da internet – camuflando suas identidades atrás de monitores, notebooks, netbooks, celulares e os formatos inventados enquanto escrevo. Se fosse pensar em possíveis soluções, provavelmente não teria fôlego para caminhar muito adiante neste primeiro momento, ainda mais nesta sociedade com reflexos embriagados de diferentes culturas.

Usar o compositor carioca como exemplo disso, é dizer que os fatores externos da sociedade são detratores dessa agonia cultural que paira nas redes sociais, encontrando repercussão em hashtags # odeio isso/ #amoaquilo/ #nerd/ #fui/ #etcetc ou ainda em comunidades totalitárias.

Não procuro encontrar culpados, se escrevo sobre pessoas, fiquemos com diferentes pontos de vistas, mas não nublados diante dos fatos. A suposição mais coerente para o fato é saber que Chico Buarque não aparece na televisão, raramente visita programas televisivos, não tem clipes vinculados na MTV, MIX, Transamérica, entre outras. Isso já um álibi ultracultural para todos os contraditórios ao gosto de escutar Chico Buarque. Seria apequenar demais o cotidiano do mundo cyber com vestígios de ficcionalidade e vislumbrar um pequeno ideal juvenil, que viria com um aforismo de Groucho Marx: considero a televisão muito educativa. Cada vez que alguém na sala liga o aparelho vou para o quarto ler um livro. 

A velocidade da internet bombardeia informações que chegam de todas as fronteiras e miolos do mundo – um acorde no Japão, uma batida eletrônica na Espanha, uma palma na Inglaterra. Pela música, muitas vezes mais que um refinado encontro de sons com uma melodia, ela expressa o modelito da estação, o pensamento de uma geração – recordação de um país de generais. Dessa forma, começo compreender o bombardeio de críticas ao menino de 15 que gosta de Chico Buarque.

Apego-me ao termo “cegueira coletiva”, citado por um crítico sobre os personagens do romance de José Saramago (Ensaio sobre a cegueira), para retocar a maquiagem com o espanto e caminhar pela urbe espirrando em sebo – enquanto lembro, não escutar Chico Buarque, pode ser seu gosto. Agora, não conhecê-lo, pode ser sinal de um colapso na identidade cultural familiar, social e escolar dos jovens que hoje (de)formamos.

A franqueza dos adolescentes é maior que a velha e boa malandragem de consultar no oráculo do século XXI – google . Fosse uma crítica literária solta, escreveria – felizes são os “leites derramados” no fogão.

comentários
  1. Ana Luíza disse:

    (aplausos) Já que através desde meio de comunicação você não pode ouví-los Bruno. Deixo escrito a minha ação espontanea. Um belo texto, e um belo puxão de orelhas nessa nova geração que pensa que sabe tudo e, na verdade, não consegue absorver nada. Fica o alerta para essa juventude alienada que pensa que o melhor da vida é manter vários seguidores no twitter.

  2. Edd Wilson disse:

    Sou prfessor Pós Graduado em L. Portuguesa e Literaturas. Realizando uma pesquinsa para o desenvolvimento de um projeto educacional sobre Chico Buarque acabei encontrando este texto: “Eu não gosto de Chico Buarque”. Logo, achei estranho e absurdo o título e achei melhor lê-lo. Confesso que espera outra coisa pelo chamado do título. Entretanto, encontrei a dura realidade dos modismos a qual somos cruelmente bombardeados. Fiquei fascinado pelo texto. Estava em dúvida se realmente devesse montar um projeto educacional sobre Chico Buarque pois me deparo com estas realidades todo santo dia em sala de aula. Alunos que simplesmente só gostam daquilo ditado pela mídia. Sempre procuro trabalhar mostrando as duas faces. É lamentavel ver nossos jovens absorvendo tanta “merda”! (Desculpe-me a expressão). Este texto me encheu de expectativas e educador que sou tentarei mudar um pouco dessar realidade e trabalharei meu projeto sobre Chico Buarque com meus alunos de 6º ao 9º ano. TEnho certeza que um dia vão me agradecer por colocar em suas vidas um pouco mais de expressão e poesia. Abraços!

  3. Fernando Taz disse:

    Desculpe, eu não preciso do Oráculo do seculo 21 para formar minha opinião. Eu não gosto de Chico Buarque, Caetano e Gilberto Gil. Amo MPB, mas nada que esses que vocês tanto amam escreveu me fez perder o folego, pelo contrario, continuei a respirar normalmente. Escrever musica não basta ter um “português” bom, dominar a lingua portuguesa e manipular todas as paroxitonas e proparoxitonas, precisa ter emoção no que está passando. Para mim, Chico é um poeta ruim, que faz poesias ruins, que deveriam virar bolota de papel!

  4. Bruna disse:

    Ótimo texto! Nossa juventude precisa de uma orientação. Estão perdidos em redes sociais, e caminhos cheios de informação onde nada absorvem, (seguindo a ideia do comentário de Ana Luíza). Poesia musical neles! :P

  5. João Batista Weinem disse:

    Gostei muito de seu texto. Sou professor de música em um excelente colégio em Petrópolis – RJ. Em 2012 daremos início a um projeto sobre Chico Buarque que alcançará alunos do Jardim II ao 5º ano do EF. Considero uma grande oportunidade de apresentar às nossas crianças músicas e letras de excelente qualidade que marcaram a história cultural, social e política de nosso país. Parabéns pela iniciativa.

  6. João Batista Weinem disse:

    Bom dia, professor. Sou professor de música em um colégio particular e daremos início em 2012 a um projeto sobre Chico Buarque. Poderia entrar em contato comigo por e-mail para trocarmos informações?
    jweinem@gmail.com

    Obrigado.

  7. Blue disse:

    Professor João, muito obrigado.

    Informarei o prof. Scuissiatto do seu comentário.

    abraço

  8. Natalia disse:

    O estranho é que, quando digo que gosto (e muito) do Chico, por ter 16 anos, ou pensam que sou uma raridade de suprema inteligência ou o contrário, pseudo intelectual. Burra, mesmo.
    Pra mim, essa coisa toda não tem nada haver. Sim, aprendi muito com ele e outros compositores e cantores, que vão além das palavras novas, duplo sentido histórico, política. Tem haver com mulher, com sentimento, com prazer, com a porra toda. Eles só… transformam isso em palavras, bem dançantes, bem sonoras, bem música. Não sei o porque do espanto. Cada um gosta do que quer e às vezes é forçado, por si mesmo, a gostar. Gosto não tem lá muita explicação.
    E é isso. É o da elite, é o comunistazinho, é o galã, é o fodão. E é mesmo. E é também o letrista brasileiro. O melhor, para mim (e paratodos =D).

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