Contra o Ateísmo Niilista

Publicado: 24 de abril de 2011 por Rico em Rico
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Após Muito Tempo Pronuncia-se o Convalescente

A faculdade e a distância da internet tem me deixado fora do Inversismo. De fato, trata-se de um afastamento compulsório, pois eu nunca quis sair deste lugar. Por sorte, vi no fato de que retornei para minha cidade (resolvi passar o feriado aqui) uma portunidade para dar o ar da minha graça no Blog, afinal, nada mais sensato do que isto: o de retornar àqueles lugares (mesmo imateriais) em que encontramos ainda alguma familiaridade, algo que contém em si o nosso sangue, o nosso espírito.

Blue fez-me uma proposta ontem, a proposta de também escrever textos críticos sobre religião e ciência (eu estarei encarregado disso do ponto de vista filosófico). Disse a ele que concordava, que achava a ideia interessante e importante para nós, pois se tratava de derrubar o anacronismo dogmático do senso comum, segundo o qual “religião não se discute”. Disse-lhe também que já possuía um texto inaugural, escrito pouco tempo antes e despretenciosamente (desculpe-me, Blue, eu havia dito que o postaria ontem a noite, mas acabei por me destrair com outras coisas e esqueci, mas agora estou reparando meu erro). Trata-se desse texto que vocês lerão após esta breve introdução.

Minha crítica tem por base um Filósofo de que gosto muito, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, autor de diversas obras capitais da História da Filosofia, como Assim Falava Zaratustra, Genealogia da Moral, Para Além do Bem e do Mal, O Anticristo e A Origem da Tragédia. Sua Filosofia se concentra em dois aspectos gerais: 1) a superação de toda a Filosofia feita até então (platonismos, empirismos, racionalismos, kantismos e hegelianismos), impregnada de moral, de cristianismo 2) a recuperação da filosofia pré-socrática, esmagada pelo dogmatismo socrático-platônico. Daí decorrem-se outras tantas consequências que não precisam ser expostas aqui, pois trata-se já de um esforço filosófico mais denso.

Tal como ele, sou um pensador ateu, crítico ferrenho das religiões tradicionais, que vê nelas todos os sintomas da decadência do homem. Todavia, meu ateísmo, por basear-se no seu, é polêmico e por vezes mal compreendido. Não temo fazer críticas – por vezes ácidas – ao ateísmo, a um certo tipo de ateísmo que considero abominável, mero sintoma da decadência do homem. Dai a razão de ser deste texto. Espero que se compreenda bem que não estou aqui a interpretar o papel do hipócrita que não sabe exatemente no que acredita, e sim, estou aqui como o livre pensador; como um crítico de suas próprias convicções, e que põe a vida (a vida ascendente) e o espírito livre (o tipo nobre por excelência), acima de qualquer  convicção.

Fala Dionísio: Suprimi esta Maldição, ou Suprimi a vós mesmos!

Os imtempestivos:

I

Primeiramente, defendamo-nos da ideia de nos imporem categorias já dadas e restritas que por sua vez nos definiriam essencialmente, pois são, precisamente, essas categorias, o caráter restrito delas, que nos torna inapreensíveis e incompreensíveis completamente¹; aquilo que somos aqui ou acolá (esse “aqui” e esse “acolá” não designam lugares, mas o próprio caráter de vir-a-ser da nossa existência), aquilo em que constantemente nos tornamos e não deixamos de nos tornar segundo a nossa lei – que é a lei do devir -, toma, por vezes, formas e características demasiado estranhas para o senso comum; o senso comum do populacho, e sobretudo, o senso comum – talvez o mais feroz e perigoso deles – dos eruditos, de tal maneira que só conseguem fazer de nós horríveis caricaturas, as quais eles produzirão com as ferramentas de que dispõem no momento – e que não são, obviamente, suficientes. Seria preciso encontrar novas palavras para nos designar, e mesmo assim, ainda seria demasiado difícil, pois somos demasiado móveis, inconstantes, temos agitação demais no espírito e sofremos as mais duras metamorfoses. Compreendendo esse fato – o fato de sermos, ainda, inomináveis, de nos apresentarmos como sendo irredutíveis às categorias atuais do pensamento -, já se avança no sentido de uma compreensão daquilo que somos e que queremos; do nosso “ideal”, da nossa meta.

O inimigo:

I

Definamos, agora, a nossa luta, lançando mão da seguinte pergunta: contra quem estamos nos dirigindo? É, precisamente, contra o ateu como um homem reativo; contra um tipo de ateísmo que é, em sua essência, reativo, que dá testemunho do niilismo reativo, uma das grandes conseqüências da morte de Deus. Ora, quem matou Deus? Nietzsche diz, “nós o matamos”, então, vê-se o homem ocupar o lugar de Deus. Só que seria ainda preciso indagar: que tipo de homem quer ocupar – e efetivamente ocupa – o lugar de Deus? Eis a nossa resposta, que é também a de Nietzsche: o homem reativo, produto do niilismo reativo. Uma das peças fundamentais do método genealógico nietzscheano é precisamente o caráter tipológico da genealogia (daí que Nietzsche se valerá de termos como nobre e vil, senhor e escravo, forte e fraco etc.; tais termos não são valores, mas elementos diferenciais dos quais se deriva o valor dos valores em curso). Deus morreu, mas o homem ainda tem em si muito ressentimento, muita má-consciência; percebemos, aí, que o ateísmo reativo é o ateísmo que não foi longe o bastante; é um ateísmo que ainda deve ao cristianismo, um ateísmo ainda cristão. Esse ateísmo nega os valores superiores (Deus, o Bem e o Verdadeiro), mas ainda não deixa de depreciar, de tomar o mundo como aparência, como erro, ele acusa impiedosamente o mundo. É um ateísmo pobre, mortificador, em suma, um ateísmo que se vale de todas as categorias judaico-cristãs; daí, também, a impotência desse ateísmo de um projeto de superação da metafísica.

II

Qual é a principal arma do ateísmo contra a religião? O ateu, comumente, opõe à religião a ciência (certa concepção de ciência). Só que essa concepção de ciência é a da ciência que parte do “esforço para interpretar os fenômenos a partir das forças reativas” (Deleuze, 1976). Essa ciência é aquela que pretende ocupar o lugar vazio de Deus, colocando o homem (o homem reativo) em seu lugar, restabelecendo toda a ordem, deixando o ideal de conhecimento, por exemplo, intacto (as forças reativas querem triunfar sozinhas). Trata-se de uma reconciliação disfarçada com o cristianismo. O homem científico entendido sob essa ótica é o erudito nietzscheano: aquele que “tomou por modelo o triunfo das forças reativas e a ela quer subjugar o pensamento (Deleuze, 1976)”. Como ele impõe ao pensamento esse triunfo? Reclamando o respeito pelo fato (“contra fatos não há argumentos”, “eis os fatos, agora se cale, pois nada tu podes contra eles”) e aquilo que diz como verdadeiro (“a ciência, contrariamente à religião que nada mais é do que uma densa nuvem que obstrui nossa visão, possui o poder de apreender as coisas em si mesmas; a ciência, enfim, teve acesso à coisa em si, à essência de tudo o que é, ela retirou o véu da realidade, revelando-nos as coisas mesmas”). Não passa pela cabeça do erudito que um fato seja uma interpretação e que o verdadeiro exprima uma vontade que quer necessariamente o verdadeiro. Aí, no jogo nietzscheano da origem e do valor da origem (genealogia) a coisa se complica. No cientificismo do homem reativo preservam-se todas as categorias judaico-cristãs que envenenam a vida, o homem. Não se chega nem perto de pôr em xeque a ordem estabelecida e o idealismo. Dizendo de outro modo: a metafísica não é superada.

III

Poder-se-á perguntar se em nossa época o ateu reativo possui um outro nome, mais comum, mais familiar, e a nossa resposta não poderia ser diferente desta: sim, há um outro nome que designa o ateu reativo, é o neo-ateu, partidário do neo-ateísmo e do conceito cientificista de ciência. Reunindo-se em pequenas seitas mais ou menos organizadas entre si, com programas e consensos, ele testemunha contra si próprio: reproduz em seu interior o ressentimento (fruto do judaísmo) e a má consciência (fruto do cristianismo). Ainda não se compreendeu que não se sai do cristianismo tão facilmente, que o cristianismo ultrapassa a si mesmo enquanto religião (uma descoberta nietzscheana importantíssima), infectando, assim, outros âmbitos.

IV

Qual é a reação primordial do neo-ateu frente ao cristianismo? Ele o acusa. Mas o acusa de que? Dos seus crimes (a inquisição, a caça às bruxas etc.). Isso em nome de um ideal humano, demasiado humano: o humanismo secular. Mas o neo-ateu não se limita tão-somente a acusar, ele diz também que a religião nada mais é do que um atraso ao progresso, ao avanço tecnológico etc. É a culpa e a responsabilidade ressurgindo das cinzas, como a fênix que renasce logo após consumir-se em chamas. O neo-ateu quer inserir no cristão o ressentimento (“é tua culpa que a humanidade seja de tal ou qual modo deplorável, atrasada, pequena”) e a má-consciência (por fim, de tanto o cristão ouvir dizer que a culpa é dele, ele acaba por admitir a si mesmo “sim, é minha culpa”). O resultado é um ateísmo infeliz, que encontra a sua razão de ser na tristeza. A polêmica, então, é essa: enquanto o neo-ateísmo insistir em culpar, em responsabilizar o cristianismo pelos crimes que cometera na História, em suma, em negar o cristianismo pelo seu caráter de contrário, ele será, sempre, uma outra forma, mais refinada, de cristianismo.

Dionísio em favor do ateísmo ativo e contra o ateísmo reativo, uma esperança de saúde em tempos de peste:

I

O que falta ao ateu, o que pode impedir o ateísmo de cair no neo-ateísmo? Falta ao ateu compreender que o fundamento de si é a afirmação, e não a negação (a negação é a qualidade reativa da vontade de poder, mas o ateu, ele deve ser ativo, ele afirma ao invés de negar; só o homem reativo nega), a tristeza, a resignação, o pathos reativo. A afirmação vem sempre acompanhada de uma alegria, a alegria do devir; de uma leveza que é a leveza da dança, ela é, numa só palavra: dionisíaca. O neo-ateu não conhece ainda Dionísio, e por não conhecê-lo, não consegue escapar ao cristianismo. Em oposição à teologia, realizaremos uma sabedoria trágica, que será além de uma arte, uma ciência, uma filosofia, uma ética e uma política; só que, se por um lado, essa sabedoria trágica opõe-se à teologia, não pensemos que nela haverá um acordo com o cientificismo (amiúde, aquilo a que chamamos de cientificismo é uma ideia muito específica de ciência: a ciência entendida como uma nova metafísica e um novo niilismo). Enfim, falta ao ateísmo o sentimento trágico, o único capaz de nos desembaraçar do niilismo, da negação da vida, da tristeza de uma vida reativa, separada daquilo que ela pode, do homem declinante etc. É por essa razão que o projeto crítico de Nietzsche compreenderá uma transformação das ciências do homem: ele percebe como o movimento da ciência ainda é o do niilismo. Paga-se um preço muito caro quando se pretende ocupar o lugar vazio deixado por Deus pela ciência, ou, para especificar-me, pelo homem (reativo). Trata-se da ignorância que a genealogia neitzscheana visa denunciar, ela nos diz “não, vocês não foram longe o bastante, é preciso ir além, vocês continuam, ainda, demasiado cristãos”.

 

Notas Bibliográficas:

¹: NIETZSCHE, Friedrich, GC, Livro Quinto, §371, pág. 219.

comentários
  1. Bruna disse:

    Como muitas outras ideias, pensamentos e sentimentos, Deus e companhia é um assunto ao qual os jovens pensadores discutem muito, então tem o direito de estar presente nas discursões do Inversismo.

    Vejo muito “ateu de buteco” por aí, aquela coisa chata, pegam uma frase pronta por aí e sai distribuindo pelos “Provomes” do orkut… Ideias assim levam tempo para se formarem, tem que ter um estudo, uma analise … uma percepção ou a falta dela.
    pior ainda do que estes são os metidos a satanistas – de filme de terror – nem comento ¬¬
    Como disse o Blue – “Apenas nos resta o silêncio como resposta.”

    Nada a ver >> Me lembrei de um livro do Jostein Gaarder, O Castelo dos Pirineus que um momento uma personagem diz para o outro – “Ateísmo significa não acreditar na grandeza da própria alma” essa frase ficou na minha cabeça, até hoje não consegui chegar a uma conclusão do que penso sobre. Sinto que temos de acreditar na grandeza de tudo isso, da nossa alma, do que vivemos e sentimos hoje. Mas por outro lado, tudo isso pode ser nada demais…é confuso, como disse; ainda não sei o que pensar sobre essa frase.

  2. Rico disse:

    Deus, uma ilusão que já durou tempo demais! Estou com Durkheim que a meu ver, explicitou muito bem a questão: Deus é um fato social, e como tal, existe enquanto ideia, e não enquanto entidade transcendente. A partir daí pode-se pensar em como a ideia de Deus incide sobre o corpo social a tal ponto de dar-lhe um sentido, uma direção. Enfim, a questão nem é essa… rsrs… Meu texto não pretende criticar um certo “falso ateísmo”, muito pelo contrário, o neo-ateísmo é sólido e coerente e e´precisamente aí que mora todo o perigo que ele supõe. XD

  3. Bruna disse:

    O meu ateísmo hoje é uma forma de ignorar esses pensamentos de um Deus Transcedental. Vejo como uma coisa social mesmo, como uma tradição quase, porque desde pequenos somos expostos a essas ideias, quantas vezes você não exclama “Oh meu Deus!” rsrsrs
    Ele existe como uma ideia a mente das pessoas.

    Me veio uma coisa agora: acho que não é fraqueza de espírito acreditar em Deus, já pensei assim, pois então o ateu também seria fraco nesse sentido, pois ele acredita de qualquer forma em algo que o sustenta, ou sei lá, o que o mantém: ele. Mesmo que a base de “fé” não seja Deus ele tem uma base seja como for.

    Escreveu certo sim. Mas Amundsen não é meu. É só um apelido de internet ^^
    Ah vou adicionai logo depois, esse pc não está acessando o orkut.

  4. felipemp93 disse:

    Se virmos tudo empiricamente, então um esquizofrênico é um profeta na verdade!

    Mas enfim, não é esse o assunto do post mesmo.

  5. jephsimple disse:

    Sou teísta,mas ao adentrar este blog,verifiquei um grau de honestidade e razão …bem dieferente dos blogs e sites que estou acostumado a ler sobre o ateísmo e ceticismo…

    Não penso que o cristão autêntico adimita culpa sobre o julgamento divino frente seres humanos,usando determinado “povo”…O que fatalmente imputaria uma ordem simplesmente humana baseada em um deus imaginário [mas é adimitido no teísmo um antropoformismo],seria se os mesmos critério usado para punir qqr civilização ,não fosse usado para punir o povo servido de instrumento de julgamento,quando este mesmo cometessem os mesmos “crimes” que os levaram a serem usados para punir as civilizações que cometeram estes mesmos “crimes”.

    O atributo de justiça é absoluto…os povos mudam,as leis mudam …mas a justiça é absoluta,não no sentido de ser feita ,mas no sentido de ser almejada…não há um ser humano na face da terra que aceite cordialmente uma injustiça contra si mesmo.Por isso é descrito que a Base do trono de Deus é a justiça…pois a seu devido tempo toda injustiça sera eliminada,junto com todos aqueles que insistem em caminhar pelos caminhos da injustiça,ou seja ,aqueles que se fossem eternos,seriam eternamente injustos.

    Apesar de discordar do ateísmo [inevitavelmente] mas apreciei o artigo [discordando de alguns pontos],bem interesssante .

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