Beauty and Brains – Artigo de Jade Arbo

Publicado: 17 de junho de 2011 por Blue em Diversos

Tudo bem que a essa altura do campeonato quase ninguém se lembra do clássico “Beauty and the Beast” de 1991. As menininhas de hoje querem ser como Hannah Montana e riem-se com escárnio da era de ouro da Disney e de suas heroínas. Nunca vou me esquecer do dia em que minha prima de onze anos classificou Mulan como chata. Mulan! A heroína que ousou desafiar os costumes de uma sociedade patriarcal e ser fiel às próprias ambições! E ela é… chata?

Talvez por que seja muito mais fácil para as jovens se identificar com personagens superficialmente mais próximas a elas, como, por exemplo, o fato de Hannah Montana ser uma pré-adolescente americana contemporânea e comum – sim, comum além do fato de ser uma super Pop Star disfarçada – e Mulan ser uma jovem adulta na China Imperial em guerra contra os hunos.

– Ok… ‘pera aí: quem são hunos, mesmo? – reação número 1 da jovem contemporânea assistindo o filme.

É difícil para elas relacionar a obrigação que a Mulan tem em se casar para honrar a família aos padrões estéticos e comportamentais que são impostos a nós, mulheres, ainda hoje em dia. O fato de a Mulan ter falhado em se adaptar e estar infeliz consigo mesma por fingir ser algo que não é de verdade, é um assunto de extrema profundidade: a inadaptação de alguém ao seu meio, ao seu tempo, e o desejo de poder externar o que (ou quem) ela sabe que é por dentro.

Assim como o fato de Belle, de “Beauty and the Beast”, ser uma jovem em uma pequena província francesa do século XVIII e encontrar por acaso um príncipe transformado em monstro pode muito bem servir de metáfora, também, para os padrões de comportamento e beleza dos nossos dias, e o modo como julgamos as pessoas unicamente pela aparência, sem nos importar com quem determinada pessoa realmente é por dentro.

Mas é claro: fazer tais conexões exige reflexão. É muito mais fácil buscar semelhanças com a jovem comum americana, ou com a adolescente comum desastrada, sem ambições ou talentos, (a.k.a. Bella Swan, da série Twilight) que não se importa com nada no mundo a não ser o quão delirantemente perfeito é seu namorado vampiro-mutante.

O padrão Bella de comportamento juvenil entra em cena, enquanto Belle fica esquecida, como personagem insignificante e indigna de uma análise aprofundada, já que não está em um livro Best-Seller ou em um filme com ocasting teen do momento.

Não. Belle faz parte de um filme 2D da Disney, de 1991, baseado em um conto de Madame de Villeneuve que foi publicado no ano de 1740. O filme, ainda que o público alvo seja o infaltil, possui mais profundidade do que toda a série Twilight empilhada (o que, cá entre nós, não é um mérito tão grande assim).

Feitas as declarações iniciais, comecemos:

Uma princesa intelectual:

Pela primeira vez a Disney nos brinda com uma princesa verdadeiramente intelectual. Antes tínhamos a SnowWhite, bela e inocente. Depois veio a Cinderella, a famosa gata-borralheira maltratada pela terrível madrasta. Seguiu-se Aurora, a princesa criada como camponesa, e Ariel, a sereia que desejava conhecer o mundo dos humanos. De 1937 a 1989 as princesas eram idealizadas e pouquíssimo exploradas como personagem. Foi quando em 1991 finalmente a Disney trouxe ao mundo uma “princesa” de personalidade, de ambições e desejos, cujos ganhos no final da história eram méritos apenas seus. Alguém com quem as jovens poderiam se identificar e em quem poderiam se espelhar. Nasce Belle, uma jovem de mente independente que abriu caminho para tantas outras notáveis figuras femininas, como a princesa Jasmin de “Alladin”, Pocahontas do filme homônimo, Esmeralda de “The Hunchback of Notre Dame”, Meg de “Hércules” (personagem fenomenal, diga-se de passagem), e, finalmente, em 1998, a minha adorada Mulan.

Mas por que eu admiro tanto a Belle? Por que eu acho que ela deveria ser o modelo de qualquer jovem? Por que ela foi e é o meu modelo?

O Fator Gaston:

Gaston é, sem tirar nem pôr, um legítimo macho-alfa: um caçador nato com músculos definidos, queixo proeminente, voz grave… Até eu acho ele atraente. Mas se ele é tudo isso, por que em nenhum momento Belle o leva a sério? Por que nunca se sente lisonjeada pelas atenções que ele lhe concede? Ele é o macho-alfa, portanto deve ser adorado e levado a sério, certo? NÃO! E Belle sabe disso.

Ela sabe que há coisas mais importantes do que a masculinidade arrogante tão supervalorizada naquela época (ainda hoje). Sim, ele é bonito. Mas é rude, prepotente e convencido. A própria Belle o diz. Ela quer alguém que a entenda e que apóie suas decisões. Ela quer alguém que a ame conhecendo-a, e não que a deseje por pura vaidade. Alguém que a ame por seus méritos.

O Fator Família

Já no início do filme, Belle abre mão daquilo que ela mais preza da vida – a liberdade – pela segurança e o bem-estar de seu pai. Isso é extraordinário! E é uma cena que muitos descartam – quando não descartam o filme todo. Não é questão de “oh, a Belle é uma mártir sofrida”. Não! Ela põe sua família – seu pai, no caso – em primeiro plano, e issosim é extraordinário.

O que mais me irrita nos adolescentes, o que mais me faz sentir vergonha da minha própria faixa etária, é o desdém e o desrespeito com que eles tratam ou referem-se aos próprios pais. Afinal, eles são velhos, “caretas”, ultrapassados, e só mandam em você para tirar o seu tempo, certo? Novamente: NÃO!

Eles são as pessoas que nos criaram, que nos educaram, que nos amam e que sustentam as nossas extravagâncias da juventude da melhor forma possível. Isso deveria bastar para serem considerados merecedores de algum respeito. Fora o fato de que eles estão no mundo há muito mais tempo. Mas, pelo que eu tenho visto, pais são considerados estorvos-pagadores-de-mico.

O padrão de comportamento Bella Swan prova: Ela considera a mãe uma incompetente, e o pai uma má pessoa por fazer seu papel de pai dizendo um não saudável algumas vezes. Por que ela é tão mais madura e ciente do mundo do que eles, certo? Desta vez vou deixar o “não” subentendido.

Belle, por outro lado, desistiu da liberdade por seu pai, deu as costas para o seu “par romântico” por seu pai, e jamais admitiu que se referissem a ele com desprezo. Ainda que Maurice não seja perfeito, que seja um pai um tanto desastrado, cá entre nós, ela tem ciência de que ele fez e faz o melhor que pode para criá-la sozinho; e merece ser valorizado, respeitado e defendido.

Qual é, crianças! Cresçam! Respeitem seus pais!

Ela não se sente feliz até estar junto do pai; ela não dá as costas à família e às coisas que considera correto em favor de um possível relacionamento com um cara aleatório que apareceu em sua vida há duas semanas; tanto é que ela só passa a amar a “Fera” quando ele finalmente compreende este sentimento e se dispõe a deixá-la partir.

Sonhos e Ambições:

Eu sinto que apenas o fato de uma personagem possuir sonhos e ambições ser considerado um fator diferencial tão extraordinário já é capaz de mostrar o vazio comum das imagens femininas que andam circulando por aí.

Belle sabe o que quer, e ela está decidida a não aceitar nada menos do que ela deseja – não sem antes ir atrás dos seus sonhos. A adaptação às vezes cobra um preço alto, e eu acho louvável que a Belle não tenha cedido em troca de aceitação.

Ela manteve-se fiel aos seus desejos, suas ambições e seus conceitos, mesmo que isso fizesse dela uma estranha. Ela não queria aquela vidinha provinciana e silenciosa. Belle foi feita para grandes coisas (o que me lembra um pouco a Marianne de Razão e Sensibilidade, escrito por Jane Austen), como ir contra os costumes de sua época, ir em busca de conhecimento, e aprender a amar um “monstro”.

Belle não seria quem ela é se se contentasse com menos do que isso; ela não desistiu de tudo o que queria para si apenas por parecer improvável.

O tal do Self-Respect:
O que eu mais gosto na Belle é o seu respeito próprio. Não importa quem ela é, de onde ela veio, ou o quão diferente ela possa parecer: nada dá o direito, a quem quer que seja, de tratá-la com desrespeito, e isso é evidenciado no decorrer do filme:

Quando Gaston tenta forçá-la a se casar com ele, sem se importar com o que ela pensa quanto a isso, ou o que elaquer para o seu futuro, Belle rejeita-o. E este é apenas um dos exemplos. Ela faz-se respeitar e não aceita que tratem suas vontades e opiniões como irrelevantes. É um direito dela. É um direito nosso, também. O mundo seria um lugar melhor se as mulheres se valorizassem e se respeitassem da mesma forma.

Como dito em um item anterior, “ela só passa a amar a ‘Fera’ quando ele finalmente compreende este sentimento [entre ela e o pai] e se dispõe a deixá-la partir”. Resumindo, ela passa a amá-lo de fato apenas quando ele mostrarespeitar suas vontades e compreender seus sentimentos. Belle jamais teria amado alguém que não o fizesse.

Já o padrão Bella de comportamento é o oposto: a autora Meyer usa de todos os argumentos para nos fazer crer que Bella é uma personagem forte, independente, decidida e responsável, exceto fazê-la agir como tal. E basta adicionar o fator “ela ama Edward” para que toda essa história de “personagem forte” fique fora de questão. Por que? Edward não respeita as decisões dela, não se interessa pelas opiniões dela, e o objetivo mor daquela relação é ele conseguir o que quer, do jeito dele, sempre (ou quase sempre, por que no final ela vira uma super-duber “Meyerpire”, anyway); como alguém pode amar um cara desses? Tudo bem, ele brilha. Tudo bem, ele é “lindo”, “perfeito” e “angelical” – a Meyer já o disse umas quantas vezes, até demais, no decorrer dos seus livros – mas será que é isso o que realmente importa? Quando Bella quer, para variar, tomar alguma decisão sozinha – tipo não ir ao prom– ele fica irritado e a chama de difícil.

Ah, espera, isso soa familiar para quem já viu Beauty and the Beast tantas vezes quanto eu. A Fera diz isso, com mais impaciência do que o Edward, ainda, quando Belle se recusa a jantar com ele. E qual é a diferença entre ambas as situações? Eu vou dizer-lhes qual é: Belle bate o pé, insiste que não vai, afinal, tem motivos para tal, ao invés de ficar choramingando como a Bella, com medo demais de irritar o namorado para fazer com que sejam respeitadas as suas vontades. O Edward, ao final do último livro, continua sendo o mesmo jerk (desculpem tantos estrangeirismos. Há termos que simplesmente não devem ser traduzidos) doentio e possessivo que nós conhecemos bem desde o primeiro livro. Já a Fera, não. Ele aprende a lidar com as pessoas, com a Belle, aprende a controlar seu temperamento e a valorizar a vida e a opinião alheia, habilidades que uma infância mimada de príncipe e quase vinte anos de isolamento não o ajudaram a dominar; mas ele conseguiu superar seu passado e se tornar uma pessoa melhor, uma pessoa merecedora do amor que a Belle passa a lhe dedicar. E não é isso o mais importante?

Alguns haverão de pensar que não é possível comparar um livro de “literatura” (sim, entre aspas) juvenil com um desenho 2D da Disney, literalmente do século passado. Ah, convenhamos… Personagens são personagens em qualquer lugar! A única coisa a acrescentar é que é uma comparação injusta, afinal os roteiristas da Disney têm mais noção e mais estrada do que uma dona de casa mórmon escritora juvenil iniciante. É esse o único problema em fazer tal comparação.

A Belle é e sempre será a minha official Disney princess favorita, um dos meus grandes exemplos, alguém que, mesmo existindo apenas em uma pequena dimensão, já em desuso em alguns casos, a qual chamamos de “imaginação”, influenciou e ainda influencia a minha vida. E se houvesse mais Belles do que Bellas nesse mundo, nos depararíamos com uma juventude mais mentalmente saudável e intelectualmente relevante.

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