Vermelho Gabriela

Publicado: 26 de agosto de 2011 por Blue em Blue

Era assim todos os dias, impreterivelmente: acorda, tira a pilha do relógio, volta a folha do calendário, fecha a cortina, baseado bem bolado. Às vezes tinha um livro, o folheava tal qual o calendário, palavras, frases. Algumas lhe reverberavam na cabeça, tal qual o baseado bem bolado. Num trecho lia: “agora podia sentir seu lado humano”. Sim ele podia sentir seu lado humano.

Lembrou-se de uma vez, quando estava com certa garota: estavam penetrados corporalmente e, naquele momento, soube que podia sentir seu lado humano.

Ele só acreditava no apalpável, no que se podia tocar. Fora essa mesma garota que o transportara a tal vida de agora (medíocre para uns, diga-se de passagem). Tinha se apaixonado pelo belo par de seios, codinome Gabriela.

Até então desconhecia o gosto do tabaco, o gosto da erva e do orvalho. Da massa e das maçãs. Sentiu vontade de comer maçãs, esquecera-se do gosto momentaneamente, depois lembrou. Mas seria massa ou maçã o que agora lhe invadia a boca? Não soube, talvez nunca mais o fosse saber, sentiu medo. Releu em um dos livros: “agora podia sentir seu lado humano”. Agora podia, podia, podia sentir seu lado humano, humano…

Ocorreu-lhe a mente uma frase, Gabriela dissera uma vez: “Te amo, menos do que você a mim, mas mais do que eu a mim mesma”. Reminiscências de um par de seios, de um nome e agora de uma frase.

Lembrou-se de outra ocasião em que estiveram a sós. O silêncio, como sempre, consentia nos lábios do humanizado. Naquela lembrança, estava ela debulhada em êxtase. Lembrara-se ele de que vez alguma a vira assim. O amava e somente por alguns minutos. Era como se fossem transportados ao paralelismo de um passado distante. Numa única badalada, voltavam a ser João e Maria.

“Somos mesmo amantes ou inimigos, não?” – era o que Gabriela costumava dizer. O dizia inspirada no que ouvia. Na música popular brasileira.

E ele nada dizia, inspirado talvez na musica clássica, Bach. Ela não conhecia, talvez por isso não pudesse sentir que ele também falava, mas não como música popular brasileira, mas como violino. Não com retórica dos namorados, mas com poesia de gestos.

Não se lembrava a cor do cabelo de Gabriela, um castanho desmaiado? Não, isso eram seus olhos… Seria ruivo? Não, vermelhos eram seus modos. Preto? Loiro? Castanho? Não, assim não poderia ser. Gabriela era sem meios termos, era extremos. Incrivelmente, não estava todos os dias bonita. Era visivelmente linda aos olhos do apaixonado, exótica, aos olhos dos simpatizantes e feia aos olhos do mundo. Seu amor era transitório, bêbado, desequilibrado. E ele era o equilibrista. A cada dia era uma luta trazê-la para dentro de si, no corpo e na alma.

Após fechar o livro que o reportara a tais lembranças, morder uma maçã e logo em seguida jogá-la no lixo, pegou sua jaqueta jeans furada e partiu rumo fora daquele quarto. Sua mãe sempre lhe dizia que era bom levá-la consigo, caso fizesse frio. Tinha poucas lembranças maternas, mas as que tinham eram muito fortes. Também eram mesmo amantes ou inimigos.

Era o sexto dia da semana, o dia de sentir seu próprio lado humano, o dia que o encaminhou para fora. As ruas eram uma coisa entre pálidas e secas, assim como seus transeuntes. O céu era de verão, apesar de tudo, as pessoas pareciam sufocadas. Ele contemplava a tudo indiferente. Sua jaqueta furada o protegia de tudo, meteu o dedo pelo furo e pôde quase ouvir mais uma vez sua mãe pedindo para costurá-la. Quando foi que de amante passaram a inimigos? Talvez no dia em que ela a costurou, de fato, a angústia lhe invadiu o peito mais uma vez, a fúria. Ela não tinha o direito, não poderia tê-la costurado. A re-furou inúmeras vezes tentando encontrar o ponto certo, o ponto harmônico. Impossível. Parou e espirrou, algumas lágrimas desceram de seu nariz, era salgado e quente.

Gabriela, fora ela que descobrira o ponto exato, o furo certeiro, a questão é que ele ia se esvaindo, vazando… Mas dessa vez ele se certificaria para que ninguém o costurasse.

Vazava, mas não era seu amor, pelo contrário, ele permanecia, era a única coisa que permanecia, aliás. O resto ia se esvaindo, ia sendo despejando para fora.

– Eu amo você, demasiadamente e urgentemente – disse uma vez Gabriela em mais uma de suas lembranças.

– E eu amo você, desmesuradamente e…

Não dissera na ocasião a palavra, mas agora ela lhe concretizava a boca. Agora, depois de tudo, sabia exatamente a palavra que faltava, a palavra que a tudo explicaria.

– Amo você desmesuradamente e mortalmente – ficou a repetir a frase.

Não pode remontar agora o motivo, a causa, mas ele a machucara, certa vez ele a ferira, como poderia?

Angustiou-lhe o peito essa possibilidade, tentou pensar que não, mas sabia em crescente desespero que sim, embora ela a princípio negasse e ele não pudesse, na ocasião, fitar-lhe os olhos. Podia sentir as borboletas morrendo em seu estômago.

Ele pediu desculpa, bem que as pediu. E ela aceitou, bem que as aceitou. Mas estava além de palavras, o que a boca expressava era alheio ao estômago, como se essa, de alguma forma se desvinculasse desse último. E as borboletas agora jaziam mortificadas, talvez para sempre.

Por uma vez mais quis chorar, mas estava seco demais para tal privilégio. Gabriela era seca, aliás, talvez fora ela que o secara.

Parou no primeiro orelhão que avistou na rua, ainda era memorável o número de Gabi. Comprou um cartão telefônico de um português com sotaque e tudo, se deparou frente a números, lembranças. Sentia medo agora, sua mão direita tremia mais que sua perna em noites frias. Deixou de hesitar, discou. Gabriela atendeu depois de quatro toques.

-Alô? –  ele reconheceu a voz. Ainda madura, segura. Frustrante para o rapaz, que não queria ficar mais intimidado. Ele queria conhecer o novo rosto de Gabi, sabia que havia mudado.

-Gabriela…? –  após isso, houve uma pausa torturante na voz da jovem. Ela sabia quem era e mesmo assim não se importava. Gabriela nada disse, saiu da linha sem ouvir, nem pronunciar uma frase sequer. Mesmo assim, ele ficou no orelhão a conversar consigo mesmo. Tudo que pensara estava sendo pronunciado pelos seus lábios em forma de sussurros, chiados.

Olhou longe e assim viu bem onde estava, estava mais perto do seu lado humano, por fim estava. Não veria mais Gabriela, era certo.

Voltou para casa, quis recomeçar o sexto dia da semana. Dormiu por um longo tempo: Sétimo dia, acordou, colocou a pilha no relógio, arrancou a folha do calendário, abriu a cortina, tinha acabado o baseado.

comentários
  1. Bruna disse:

    Intrigante…

    Gostei.

  2. Deny Shimabukuro disse:

    Excepcionalmente bem escrito. Blue, está de parabéns, me senti lendo Clarisse Lispector (não entenda mal), pela riqueza de detalhes tão bem colocados.

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