Desejo e Repressão Infantil

Publicado: 27 de outubro de 2011 por Rico em Rico
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Quase sempre que ouço um especialista (um psicólogo, um psicanalista etc.) falar da criança, daquilo que ela é enquanto criança, enquanto sujeito-criança, sinto náuseas, repulsa, calafrios. Não que os especialistas não soubessem do que falam – como se eu estivesse do lado oposto, do lado daqueles que sabem e por isso denunciam os ignorantes (os que não sabem), aqueles que não fazem jus à verdade sobre aquilo que chamamos “criança” -, em bem da verdade, eles sabem, e é precisamente por essa razão que me oponho tão ferrenhamente a eles: cercar e reduzir a criança a uma espécie de “criatura débil”, que só pode ser guiada pelos adultos, que só pode falar quando atravessada pela permissividade dos adultos; se ela deseja falar, se o que ela deseja falar transgride as delimitações que os adultos lhe impõem, dado o fato de que a criança quando cerrada numa identidade dura jamais pode ser outra coisa que não aquilo que constitui tal identidade – seu ser ou sua essência mais pura -, ela logo é colocada em sua gaiolinha; condena-se o discurso infantil e o desejo infantil (assim como a própria diferença da e na criança). Foucault (1926-1984) é que soube muito bem apontar isso em termos políticos: a cada vez que uma criança mostra a língua a seus pais na mesa de jantar, efetua-se aí uma resistência, um contra-poder (é uma luta e uma luta política).

Gilles Deleuze (1925-1995) criticará numa de suas entrevistas – não tenho certeza de que se tratava de uma entrevista, no entanto, o sentido daquilo que pretendo expor permanecerá o mesmo – o processo de infantilização das crianças. Tal processo funcionaria como uma via de desvio, a criança é desviada de sua “própria natureza” (natureza ainda não é um bom termo), tornada um animalzinho dócil na mão da família, dos psicólogos, dos professores, dos orientadores etc. Ela não pode falar por si, tendo que estar sob o olhar severo de seus tutores, encarregados de cuidar para que sua inocente filha (ou filho) não diga, faça ou deseje algo que “não é típico de uma criança”. Se por um lado há uma admiração (hipócrita) pela criança – todo aquele discurso sobre inocência, sobre como precisamos manter viva a criança que há dentro de nós etc. -, por outro, a criança não para de ser reduzida a alguma coisa que diz respeito aos pais, aos adultos que a rodeiam, e não a ela mesma; arrancam-lhe a alma, esmagam sua vontade desejante.

A TV é um exemplo desse processo de infantilização, que não deixa de ser um dispositivo de poder que enquanto tal, molda, delimita, condiciona e produz um determinado tipo de sujeito-criança. Ora, há uma evidente estupidificação da criança no espetáculo televisivo (e não só nele, que fique bem claro): musicas idiotas e sem sentido, com letras pífias que inspiram apenas um comportamento bizarro que mistura sorrisos idiotas, gritos e movimentos entusiasmados que lembram muito ratinhos de laboratório eufóricos ao sentirem o cheiro de queijo; na própria maneira que se olha e trata a criança, como um ser que “não entende das coisas” e que por isso precisa ser tratado como um débil mental, com palavras infantis, gestos nonsense (que muitos consideram “super fofo”) e caretas medonhas. Você nem mesmo pode falar corretamente, você precisa falar errado propositalmente porque se pensa que a criança talvez não vá te compreender – será que todas as crianças são idiotas, ou precisam ser tratadas como tal? Não é à toa que cada vez mais vemos crianças estúpidas serem geradas, frutos de pais igualmente ignóbeis.

Tudo se passa como se a única maneira de se relacionar com uma criança fosse transformando-a numa criatura estranha, alheia ao “mundo dos adultos”, e que por isso necessita de um tratamento “especial”, que serve justamente para trancafiá-la em sua demência, em sua incapacidade de se conectar efetivamente com o “mundo dos adultos”. Talvez devêssemos ouvir mais e melhor o que a criança tem a dizer, o que ela deseja. Se uma criança não gosta das brincadeiras coletivas que se faz na escola, todos correm para analisá-la; “ela deve estar com algum problema, coitadinha”, dizem os psicólogos e os professores em tom de preocupação; “pobrezinha, ela tem problemas com socialização”, dizem outros. São incapazes de pensar que tal comportamento pode simplesmente ser um desejo ativo da criança, uma vontade da criança: estar sozinha, territorializar-se em seu mundo afastado; quiçá mergulhada em seus devaneios, em sua loucura saudável. Qual o problema?

Outra coisa – e aqui me arrisco ser acusado de pervertido -, concernente à sexualidade do infante: uma menina tem uma vagina e um menino tem um pênis, pouco importa se isso é “feio” aos olhos dos pais (muito moralistas por sinal, que ainda pensam em expurgar da criança seu próprio sexo). Imagino que uma mãe ficaria horrorizada se visse seu filho de sete anos “brincando” com sua genitália, no entanto, pergunto-lhes: e se isso fosse apenas a vontade desejante da criança de conhecer-se a si mesmo? Os pais deveriam aprender que uma criança também tem um sexo, que ela se excita com ele, e que ela poderia descobrir isso ao tocar seu próprio corpo. Antes isso que as histórias bizarras sobre repolhos e cegonhas, histórias essas que nada mais são que invenções para expurgar a sexualidade do corpo infantil; não seria isso também prejudicial? Bem, aí retornamos ao início do texto: condenar o desejo, privar o sujeito-criança de sua vontade desejante. Minha proposta é a de pensarmos em novos modos de inter-relação entre crianças e adultos, novos processos de subjetivação que não infantilizam, que não estupidifiquem a criança – que precisa também ser ouvida, vista como alguém que deseja, que pensa. Torná-las débeis, privá-las de si mesmas, nada mais é que uma atitude reacionária e nociva que reflete uma organização de poder que torna, desde a infância, o sujeito dócil e útil à manutenção dessa mesma organização de poder que o subjuga.

Pois a garota, ao ser interrogada pela polícia replica, com toda a sua sinceridade e efusão: “eu quis”, “eu a procurei”, “não foi estupro, nem mesmo assédio”. Mas as autoridades respondem, em toda sua dureza: é preciso obedecer à Lei, segui-la e respeitá-la, é preciso manter a inocência – e em nome dessa inocência toda atrocidade (contra o desejo – sempre contra o desejo – e quiçá até mesmo contra a própria inocência) se torna legítima, desejada, elogiada e aplaudida por todos que, em coro, cantam a fúnebre melodia do assassínio do desejo – a mulher se torna uma criminosa, responderá na justiça como uma criminosa. Uma vez mais ignorarão a palavra da jovem que, no caso, deveria ser ouvida – muito bem ouvida -, pois é ela quem deve dizer se aquilo que lhe foi feito foi ou não um crime, um abuso – é também, segundo a análise do discurso, um meio de interditar o discurso do sujeito: apenas a Lei fala e apenas a ela devemos ouvidos e atenção; o sujeito só pode falar quando fala conforme a Lei. A Lei não suporta o desejo, sejamos, afinal, francos com nós mesmos e constatemos essa verdade! Seus funcionários – policiais, juízes, psicólogos, pedagogos, filósofos etc.; é preciso de toda a gente para saciar o desejo de vingança contra o desejo – são os especialistas responsáveis por esmagá-lo, por reduzi-lo: são os “médicos abortistas” do desejo; todo desejo que cresce, se desenvolve, precisa ser contido, destituído de seu direito à vida, enfim, abortado – “cortar o mal pela raiz”, dirá o populacho -; sob o poder da Lei o desejo morre antes mesmo de nascer.

Os psicanalistas são talvez os especialistas mais perversos, eles minam a psique do sujeito, transformam o seu discurso numa quimera, tudo o que ele diz em bem da verdade ele não diz – quer dizer outra coisa, e essa outra coisa é o que os psicanalistas “descobrem” por detrás da aparência desse discurso “conturbado”. Eles dizem “ela está confusa”, “ela é muito jovem, não compreende o que se passa”. É inadmissível a esses vermes pensar que um desejo tão extravagante, e também legítimo, viria de uma vontade ativa. Não se pode admitir que a jovem realmente tenha desejado a mulher (que também era sua professora e amiga, sendo capaz até mesmo de suprir a ausência da mãe), tenha desejado ir a um motel e relacionar-se sexualmente com ela… Uma vez mais, o desejo é esmagado; e os psicanalistas continuam com seu jogo perverso: acompanhamento, terapia familiar, policiamento do desejo; “temos que conserta-la”, ela agora sofre – por culpa de seu desejo -, façamo-a não querer mais, expurguemos dela o desejo, e ela estará bem – duvidemos, pois, dessa idéia de bem em psicanálise -, estará “curada”; nova ovelha para o rebanho, mais uma existência castrada e destruída. Não é o ato que destruiu a família dessa jovem e a ela mesma – como a mãe, demente e hipócrita, afirmara numa entrevista à Rede Globo -, mas a própria sociedade, a própria Lei… Por fim, o próprio Estado com seu controle dos corpos e das mentes, que a destruiu: uma existência a mais que se apagou, mas eles dizem: foi ele – quem? -: o desejo.

comentários
  1. Rico disse:

    Ao Blue:

    Pois é, Blue, odeio esse movimento conservador que transforma as crianças em seres irracionais, desprovidos de vontade e de desejo (mesmo quando os adultos falam de vontade e desejo infaltis, eles estão falando do ponto de vista dos adultos e não das crianças, é como querer falar da mulher não do ponto de vista feminino, mas a partir da imagem que o homem faz do ser-feminino), como se elas fossem ocas, vazias por dentro, tendo, então, que ser preenchidas pelos adultos “que sabem muito bem o que elas querem, desejam e sentem”. Mas os adultos não entendem as crianças, não entendem o desejo. A psicanálise, que tanto falou e ainda fala de desejo, nunca o compreendeu. Toda vez que ela fala dele, é para reprimi-lo. Isso me enoja, é o caráter reacionário da psicanálise que, consciente ou inconscientemente, nós, “homens contemporâneos”, interiorizamos. O falocentrismo atual é uma doença psicanalítica.

    Ao Felipe:

    Desconheço tal tema, mas irei pesquisar, afinal, as comédias me aprazem. XD

  2. Sarah Héricy disse:

    Acredito que toda criança – até o momento em que é definitivamente influenciada pelos adultos – vive naquele estado em que pensar não é se consumir, é um estado de criação. A criação direta sem o peso de uma consciência censurada pela moral, um estado que passamos a vida inteira buscando reencontrar e isso parece incomodar os psiquiatras que estrangulam em suas altas dosagens de “realidade” qualquer um que pareça se desvencilhar da consciência comum.
    Ótimo texto.

  3. Rico disse:

    “Acredito que toda criança – até o momento em que é definitivamente influenciada pelos adultos – vive naquele estado em que pensar não é se consumir, é um estado de criação.”

    Bom, como o Blue deve saber muito bem, eu “compro” a filosofia do Nietzsche sem o menor peso na consciência; isso me faz recordar das três metamorfoses, que aparecem lá no inicio do Zaratustra: a última metamorfose é a criança. A criança é inocente, isto é, está para “além do bem e do mal”, e isso a torna criativa, inventiva, afirmativa. Ela afirma sua própria diferença. A ideia de um “consciência leve” já é uma forma de resistência à psicanálise, sobretudo à psicanálise: eu tenho um super-ego, construído por meio de repressões externas que incidem sobre a selvageria do Id e que assim garante a estabilidade do ego. Sartre dizia de si mesmo: “eu não tenho super-ego”. Ora, isso significa que, de alguma forma, ele escapava à moral, ao cara´ter imperativo e categórico da moral. A criança tem uma boa-consciência, ela não foi ainda envenenada pelas categorias da má-consciência (culpa, responsabilidade etc.); ela só quer criar e criar é, amiúde, a afirmação da diferença. Enfim…

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