O Curso de Filosofia e Seus Clichês: O que Um Estudante de Filosofia Tem a Dizer Sobre seu Curso

Publicado: 12 de novembro de 2011 por Rico em Rico
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Há, pois, uma variedade incontável de clichês em torno dos quais a filosofia, um curso de filosofia, gira inevitavelmente (não se dirá necessariamente, porque é provável que isso seja um fenômeno recente, fruto de uma época enferma). Um calouro de filosofia dirá, com entusiasmo e inocência, que sairá do curso filósofo, para ele um curso de filosofia tem por objetivo a seguinte coisa: formar filósofos; ensinar-nos a filosofar (é o filosofo que filosofia). Mas se há o momento da alegria – o primeiro momento -, aquele no qual o calouro está mergulhado e que anima seu coração, seu espírito inquieto, há também um outro momento, o da angustia, o das crises, do pavor, das esperanças e ideais que se esvaem por entre os muros da academia, por entre os corpos e mentes embrutecidos de muitos de seus professores. Eis, quiçá, uma das razões que tornam o curso de filosofia um dos curso com o maior índice de evasão.

É preciso lutar contra os clichês, fazê-los explodir, para que assim a filosofia, ou, melhor, o curso de filosofia, se liberte de sua maldição. Estudantes como eu, que já haviam destruído os clichês muito antes de ingressarem na academia, tornam-se capazes de levar adiante seus desejos, suas ideias, seus objetivos enquanto pensadores (não é à toa que pretendo responder, perante a academia, acerca do suposto pós-modernismo do filósofo que amo, Deleuze); não nos deixamos assustar pelos fantasmas da filosofia. Um dos primeiros clichês que é preciso superar é de que o estudante de filosofia sairá da academia filósofo. Isto não quer dizer rebaixar, oprimir, desdenhar os estudantes de filosofia, o que se pretende é mostrar que não se trata, num curso de filosofia, de formar filósofos (não se forma filósofos!). O que aprendemos num curso de filosofia? Aprendemos a ler textos filosóficos, aprendemos, mais ou menos bem, a fazer história da filosofia. Mas nunca nos ensinam a criar conceitos – e seria preciso dizer, aqui, que não há como ensinar a criar (ou se cria ou não se cria).

Saímos das cátedras professores, e isso constitui um dos objetivos do curso de filosofia. Pouco importa se lecionaremos no ensino médio ou no ensino superior, o que importa é que há tão-somente duas coisas que um curso de filosofia forma: 1) historiadores da filosofia; 2) professores de filosofia. Qualquer coisa para além é fantasia, é ilusão – coisa de calouros incautos, embebidos em clichês. Em nenhum curso de filosofia, jamais se tratou de fazer filosofia. Mesmo o método de história da filosofia é arcaico, opressor, estéril, medíocre, desanimador etc.; mesmo que eu escrevesse um livro de cinqüenta páginas não seria o suficiente para adjetivar algo tão grotesco como o método de história da filosofia.

Não pretendo aqui desencorajar aqueles que ousam arriscar-se na filosofia, pelo contrário, é preciso que se arrisque e que se enfrente aquilo que torna o estudo filosófico debilitante. Com efeito, como já dizia o filósofo, não é fácil sair da história da filosofia – ela está, constantemente, nos puxando pelo pé e assim, nos devorando inteiros. Há a necessidade de se fazer história da filosofia de outra maneira, segundo um método que privilegie a criação, a inventividade, e não a repetição insípida do texto filosófico. Que me importa o que Descartes queria dizer nas meditações? Substituamos a pergunta “O que este texto quer dizer?” pela pergunta “Como este texto funciona?”. É o texto enquanto máquina que conta – aos diabos com a interpretação!

É preciso saber: todo sujeito que adentre no universo acadêmico terá sua subjetividade esquadrinhada – eu diria amesquinhada – pela academia. Ser acadêmico torna-se um disparate – é a cela e as algemas! Se, por um lado, entramos na academia com desejos, aspirações, ideais, objetivos, paixão e loucura, por outro, a academia estará pronta para arrancar de nós todos os nossos sonhos logo no primeiro momento. Não importa o que você quer ou pensa, importa apenas o que o texto, em toda a sua frieza e apatia, quer dizer. O curso de filosofia não é o problema, o problema real, concreto, é o funcionamento interno da própria academia – que desperta alergia a qualquer espírito sensível, pois tais espíritos, tão logo se insiram nesse meio, sentem o cheiro de pó, de mofo, de velharia; em cada sala, em cada discurso, no piso, nas escadas, no elevador e mesmo no pátio. A academia é a destruição de toda forma livre de pensamento. “Sim, pense, mas pense como nós”, é o que dizem a todos tacitamente.

A você que pretende cursar filosofia, deixo este conselho: vá com colete a prova de balas, sirva-se de todas as armas possíveis, resista! Defender a criação no meio acadêmico é uma luta política e até mesmo ética. E não se pode ignorar a violência efetiva das relações de poder que se dão dentro da academia. Seja o leão, mas não se esqueça também de ser a raposa! Há infinitas lutas silenciosas, porém sangrentas, ocorrendo na academia. A academia não é a terra prometida (o paraíso não existe), mas o campo de batalha mais grotesco, mais cruel, mais sanguinolento, mais devastador… Ser estudante de filosofia é tornar-se guerreiro, é matar, é destruir, e enfrentar! Mas é também ser criador, isto é, artista. E toda criação já é, em si mesma, uma declaração de guerra.

comentários
  1. Blue disse:

    Esse é um texto muito verdadeiro! Gostei deveras.

  2. Jade Arbo disse:

    “…é o funcionamento interno da própria academia – que desperta alergia a qualquer espírito sensível, pois tais espíritos, tão logo se insiram nesse meio, sentem o cheiro de pó, de mofo, de velharia; em cada sala, em cada discurso, no piso, nas escadas, no elevador e mesmo no pátio. A academia é a destruição de toda forma livre de pensamento. “Sim, pense, mas pense como nós”, é o que dizem a todos tacitamente.”

    Muito desse texto é real não só para o curso de Filosofia. Vejo muito do que tu afirmou aqui no meu próprio curso. Faço bacharelado em Letras, com ênfase em redação e revisão, e ainda assim, em um curso novo, de base prática e de mercado dinâmico (em comparação às outras humanas) somos impostos a idolatria do que já foi feito. Não há incentivo para a produção, para trazer conhecimento pessoal, para ler e aprender com coisas além de Machado de Assis e as outras vacas sagradas da nossa literatura.

    Por sorte, eu nunca tive grandes expectativas do mundo acadêmico, e sei que, para aproveitar o nosso conhecimento de forma efetiva e exercitar a nossa mente, temos que estudar por fora, buscar informação, discutir, pensar por si.

    Resumindo: Cara, eu sinto a sua dor. :P

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