Primeiras Impressões Sobre o Teatro da Crueldade de Antonin Artaud (1896-1948)

Publicado: 28 de dezembro de 2011 por Rico em Rico
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      O valor de um livro se mede pelas forças com as quais ele lança-nos às mais terríveis tempestades; aos mares mais revoltos; às cavernas mais sombrias etc., tal como se vê e se vive nos romances de Kafka, nos contos libertinos do Marquês de Sade, ou, ainda, nos romances e poemas baratos de Charles Bukowski que tão bem expressam o quotidiano patético de homens deploráveis e, no entanto, vivos, ricos em uma vida sufocante e cáustica. Sucintamente, um bom livro é aquele que de uma forma ou de outra, como o mostra Deleuze, em sua leitura de Proust, violenta-nos. Eis que o valor do livro O Teatro e Seu Duplo (1964) fora provado pela sua força afirmativa e alegre – como poucos, aliás, que se provam tão impavidamente e que se mostram tão dignos de sua prova.

      Notei, logo de início, que aquilo que Artaud pretende recuperar, ao denunciar a decadência do teatro francês – e europeu -, o regime pavoroso da cultura e da obra-prima, que nos arrasta para uma idolatria demente e putrefata, é a vida. E a arte como aquilo que de modo algum está separado da vida, mas que, ao contrário, é sua noiva – Ariadne e Dioniso – ou sua mais pura e divina expressão. Artaud grita, em todas as suas páginas, por vida; ele clama por um pouco de vida no teatro, porque o teatro tornou-se, para sua infelicidade, o júbilo da morte.

      São belas suas páginas sobre a importância do corpo, contra um espiritualismo caduco que envenenou o teatro. O corpo como o grande modelo do teatro. Assim, são belas também as páginas nas quais ele anuncia um teatro de gestos e não mais de linguagem escrita ou falada – a linguagem falada está, desde o princípio, submetida à linguagem escrita -, sendo o gesto a verdadeira linguagem do teatro do futuro. Ele quer libertar o teatro do texto frio e imóvel e restabelecer o valor superior da encenação e do movimento que ela implica – gênio dionisíaco clamando por movimento, como num júbilo pelo antigo teatro grego (a tragédia), no qual o movimento era tudo; um revolucionário do teatro, mas também da política na medida em que espera recuperar a Diferença.

      Trata-se de um livro ameaçador e terrível que nos embriaga e emite-nos signos de violência e de guerra – um livro também cruel e que é capaz de nos atinge com sua crueldade. Uma declaração de guerra contra todas as formas que degeneram o teatro e, por conseguinte a vida. Ousadia nietzscheana de levantar-se contra a mesquinhez, contra a pobreza do teatro de sua época, e a favor de um teatro ainda por se fazer, como uma afirmação da vida em sua pureza – e, diria eu, do nosso teatro contemporâneo que já se lançou ao marasmo, ao cansaço, ao niilismo da pós-modernidade.

      Um livro explosivo, que tem necessidade de leitores, de muitas leituras ainda, para que dele se extraia o máximo de sua eficácia anti-conformista e de sua potência heraclitiana de um elogio ao devir.

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