Análises Sintomatológicas: “Brasil Urgente” e a Decadência das Sociedades Disciplinares

Publicado: 15 de fevereiro de 2012 por Rico em Rico
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“O essencial são os intercessores.

A criação são os intercessores.

Sem eles não há obra.”

(Deleuze)

Ser sensível às forças que compõem o nosso presente é, do ponto de vista da renovação dos paradigmas teóricos, o que falta ao pensador contemporâneo, principalmente porque da renovação dos paradigmas teóricos segue-se renovações práticas, ligadas às atividades afirmativas e produtoras de si (estética da existência e resistência). Dir-se-á que o trabalho teórico ou conceitual está intimamente ligado à ação, não como o seu oposto dialético, pelo qual deveríamos passar até chegarmos à prática, como se a prática, por sua vez, fosse tão-somente a aplicação da teoria, mas que compõe-se com ela, que faz bloco, um bloco de devir, numa relação que já não é mais dialética; daí Deleuze poder falar em “ações de teoria”. Guaratuba, dia quente, muito quente, os termômetros beiram aos 34º, com sensação térmica superior a 2º – e eu no PC, “nerdiando”, como dizem; mesmo me sentindo mal com a temperatura absurdamente elevada, fui à cozinha preparar uma xícara de chá, gosto que adquiri há muitos anos atrás, quando ainda garoto. Para chegar à cozinha, no entanto, tenho que passar pela sala, onde fica a TV coletiva da casa. Foi o que fiz, e algo que passava na TV chamou-me a atenção sobremaneira. Como muitos sabem, não sou um entusiasta da mídia televisiva e por isso evito assistir aos programas que passam nessa “caixinha mágica” à qual deram um nome tão sugestivo – televisão. Mas às vezes o pensador expõe-se a intercessores os mais inusitados, cabendo a ele “ir na onda”. Passava, na hora, uma matéria sobre um dentista que fora assassinado num assalto à mão armada, num daqueles telejornais espetaculares – refiro-me, evidentemente, ao conceito de espetáculo do pensador situacionista Guy Dibord, por isso, não confundam. O nome do telejornal? Brasil Urgente, apresentado pelo Datena. Não bastou ao dentista entregar aos assaltantes tudo o que eles queriam e sem opor-lhes a menor resistência. Assim que entregou sua carteira, fora baleado no peito. Tiro fatal. Datena (detalhe notado por mim: ele parece mais um narrador de futebol do que um apresentador de telejornal propriamente dito) comentava à seu modo – desnecessariamente efusivo, dramático, espetacular, moralista, sensacionalista etc. – o acontecimento.

Direcionei minha atenção à TV no exato momento em que Datena dava, aos que o acusavam de sensacionalista, uma resposta digna de nota (não por sua grandiloquência, mas por sua plena exiguidade). Sua réplica bastava-se à velha falácia da empatia: colocar-se no lugar de quem sofre, imaginar-se sofrendo na dor do outro, para então reconhecer a verdade desse sofrimento. Dizia ele que aqueles que defendiam criminosos – não sei exatamente a quem ele se referia, talvez aos humanistas, mas essa é uma suposição minha – deveriam se imaginar sendo assaltados, levando tiros na boca e na cabeça (palavras do Datena); só assim eles dar-se-iam conta de que criminosos não são defensáveis – a não ser por advogados, já que, para o apresentador de telejornal, “mesmo os vilões mais vis têm direito à defesa” – e que devem ser punidos com o rigor da Lei: “pois é, nunca pensei que isso fosse acontecer comigo”, lamenta o outrora defensor da criminalidade que agora, tendo visto a verdade, tendo tomado consciência de seu equívoco, acaba por concordar que criminosos deveriam ser punidos pela lei, tal como eles merecem, ou seja, irem direto para a prisão, de acordo com seus crimes hediondos.  Depois de apresentar sua réplica, Datena começa a reclamar da ineficácia do Código Penal, aponta para a sua eminente degeneração, critica o abrandamento de pena e a soltura, sob certas circunstâncias jurídicas, de criminosos de alta periculosidade. Exige um reforçamento do Código Penal através de leis mais rígidas, exige, outrossim, aos políticos, a criação de projetos de lei que vão nesse sentido, de modo que, para Datena, até mesmo a pena de morte, juntamente com a prisão perpétua, torna-se interessante. Eu diria que Datena, ou melhor, o acontecmiento-Datena, dá à constatação nietzscheana segundo o qual o Direito, invadido pelas forças reativas e pelo ressentimento, faz mergulhar na indistinção a vontade-de-vingança e a vontade-de-justiça, uma atualidade sem precedentes.

Pensar a contemporaneidade em termos não mais modernos, mas “pós-modernos” nos exige, de início, um deslocamento com relação ao aparato teórico-crítico com o qual, em nossas incursões pelos diversos âmbitos do saber, estamos acostumados. Aqueles críticos que se vituperam contra o Datena, que dizem ser ele um estupendo bobalhão, sensacionalista, reacionário, moralista, entre tantas outras coisas, ainda que tenham razão em suas graves palavras, não alcançam a verdadeira questão – a questão do nosso tempo. Dizer, por exemplo, que este ou aquele político, apresentador, jornalista, entre outras figuras públicas ou privadas, é reacionário tornou-se um chavão da Esquerda; do mesmo modo, criticar o sensacionalismo midiático – não duvidemos, apesar de tudo, de sua realidade – tornou-se um recurso, imerso numa lógica narcisista por excelência, de jornalistas ressentidos e revoltos com sua falta de notoriedade. Trata-se, num caso ou no outro, de categorias críticas tão anacrônicas que já não mais significam, elas não nos dizem absolutamente nada, palavras esvaziadas de sentido. Faz-se preciso, então, encontrar outros meios de levar à diante a tarefa crítica, que não pode, sob pena de perdermos os movimentos insólitos do nosso tempo, sejam eles negativos (os investimentos de saber-poder sobre a subjetividade, atrelados aos mecanismos capitalistas) ou positivos (os focos de resistência), ser interrompida. A crítica não perde sua força devido à defasagem de antigos conceitos que a compunham, pois como tudo em filosofia, ou em qualquer outro saber, basta que se criem novos conceitos para que a crítica, aí, recupere o fôlego: biopolítica, biopotência, linhas de fuga, máquina de guerra, agenciamentos coletivos de enunciação e agenciamentos maquínicos de desejo, multidão, neuromagma, etc. Todos conceitos voltados para o pensamento do presente.

Insistamos um pouco mais no acontecimento-Datena, a fim de verificar o quanto ele ainda nos serve como intercessor. Há algumas décadas atrás Foucault rastreou a passagem de um modelo societal definido pela soberania a um outro modelo, agora definido pela disciplina. São as chamadas sociedades disciplinares com seus grandes meios de confinamento. Mas as sociedades disciplinares, como as sociedades soberanas, não durariam ad aeternum, pois não são formações históricas estáticas, imutáveis ou eternas. Assim as sociedades disciplinares tenderiam a desaparecer, donde se seguiria uma nova transição, vinda das novas forças em curso e das quais resultaria a reconfiguração do socius: “sociedades disciplinares é o que já não éramos mais, o que deixávamos de ser” (DELEUZE, 1992, p. 220). Passamos, segundo Deleuze leitor de Foucault, das sociedades disciplinares às sociedades de controle, que funcionam segundo técnicas muito próprias e originais. Ela abole o confinamento e funciona “ao ar livre”. É certo, todavia, que as sociedades de controle carregam, em seu bojo, aspectos decisivos das antigas sociedades disciplinares que aparecem agora como “o limite, o escândalo ou a contradição” (FOUCAULT, 1988, 130). De outro modo, dir-se-ia também que as sociedades de controle não abolem absolutamente a disciplina, mas a adaptam aos seus novos mecanismos de controle do corpo, da subjetividade e da vida. Não percamos isto de vista. Quando Datena protesta contra a fragilidade do Código Penal e reclama uma rigidificação das leis, ele anuncia, malgrado seu, a falência das instituições e dos modelos de confinamento das sociedades disciplinares.

Segundo o diagnóstico deleuzeano “encontramo-nos numa crise generalizada de todos os meios de confinamento, prisão, hospital, fábrica, escola, família” (DELEUZE, 1992, p. 220). Ora, o discurso do Datena reporta-nos a essa falência progressiva das instituições disciplinares e dos meios de confinamento de que fala Deleuze. Abrandamento de pena, redução de pena por bom comportamento, prisão em regime semi-aberto, coleira eletrônica etc., tais signos devem ser lidos sob a lógica de uma abertura dos espaços de confinamento, abertura da qual resultaria a impossibilidade crescente de distinguir o dentro e o fora: talvez seja essa a razão de Toni Negri afirmar que agora é a própria vida que é prisão, pois, como bem diz Pélbart, acerca do sentido da fala do intelectual italiano, “ele afirma, surpreendentemente, não existir uma diferença tão essencial entre a prisão e o resto da vida” (PÉLBART, 2000, p. 26). Mas aí, também, vale relembrar Pélbart, noutro ponto: é prisão, sim, mas também é fábrica, caserna, escola, família, hospital etc. Datena é um reformista, e, como tal, exige meios de manutenção e de operação adequados ao modelo disciplinar. Mas como fazer isso num contexto biopolítico no qual as antigas formas se liquefazem? As instituições estão condenadas, nada pode ser feito, pois não há mais espaço para as sociedades disciplinares. O importante, atualmente, é o controle e suas novas tecnologias, não a disciplina. Os gritos desvairados de Datena e de seus discípulos, é preciso entender, já não podem mais serem ouvidos: soam-nos fracos, como que vindos de gargantas desgastadas, que por pouco não são capazes de emitir som algum. Não haverá um retorno ao antigo modelo societal, pois não há, nunca, retorno – nada retorna, de modo que o Eterno Retorno do Mesmo não passa de um conto da carochinha e seus arautos um grupelho de medíocres.

As sociedades disciplinares não dão conta das condições do nosso tempo porque pertencem a um tempo que não é o nosso, as novas gerações não conhecem disciplina, a ditadura, a fábrica, a exploração mal disfarçada, a escola – e seus castigos e punições que não marcavam apenas a alma, mas o corpo infantil (a antiga palmatória, por exemplo) -, senão, é claro, pelas histórias que ouvem ou que lêem nos livros. As imagens que circulam pelo Youtube e outros sites na internet, de soldados e/ou policiais dançando, bebendo, ou, como no caso do PM que “enrrabou” uma pobre e indefesa estátua de uma vaca em SC, mostram que o regime disciplinar vem fraquejando mesmo num espaço que, outrora, era reconhecido, justamente, pela sua dura disciplinaridade: hierarquia e disciplina dos quartéis. Assim, podemos fazer um quadro, ainda que caricatural, da sociedade contemporânea e de suas linhas de fuga, bem como de suas desterritorializações e reterritorializações nômades. Datena é um saudosista da disciplina: “ah, bons tempos aqueles…”. Podemos imaginá-lo dizendo a si mesmo tais palavras, suspirando sorumbático. E se ele nos importa, é como sintoma, como signo de uma mudança, de um devir social. Mesmo os imbecis podem servir como signos de novos ventos, vindos de outras direções que não aquelas as quais estamos tão bem acostumados.

 

 

Bibliografia:

 

DELEUZE, G. Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.

FOUCAULT, M. História da sexualidade vol. I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1988.

PÉLBART, P. Vertigem por um fio: políticas da subjetividade contemporânea. São Paulo: Ed. Iluminuras Ltda., 2000.

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