Juventude: Pós-modernidade e Capitalismo

Publicado: 23 de fevereiro de 2012 por Rico em Rico
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Encaro uma difícil tarefa. Como escrever sobre a juventude contemporânea sem cair nos clichês que tanto prejudicam o exercício ativo do pensamento? Como reclamar uma juventude intempestiva, alegre, afirmativa, sem parecer um cristão tapado desejando o retorno das velhas tábuas de valores? Em suma, como falar da juventude sem ocupar um lugar privilegiado no conservadorismo, no nosso pequeno fascismo tupiniquim? O cristianismo está tão enraizado em nós, em nossa cultura, em nosso inconsciente, que fica difícil expurgá-lo. Dizer que a juventude está como está porque os valores da tradição estão se degenerando é tão babaca quanto afirmar que está tudo bem. A pergunta é sempre a mesma: como fazer isso de outra maneira? Tentamos, apesar de todas as dificuldades. O escritor nunca escreve sobre uma página em branco, toda página está inundada de clichês dos quais o escritor precisa escapar, pois só assim lhe é permitido criar.

Não ousamos pensar na juventude como um período onde a inventividade conquista o seu apogeu. A idéia de juventude como “época de ouro para a criação”, onde tudo aflora, as grandes mudanças acontecem, a criatividade canta, o desejo de novos ares transgride as fronteiras da individualidade para se ver  expresso numa coletividade dançante, já não existe mais, agora é outra idéia que se tem da juventude, bem como a própria juventude, sendo tomada por essa ideia nova, assume-se como coisa diversa. Não se trata aqui de uma descoberta alegre, mas antes, de um derradeiro diagnóstico. Seria justo perguntarmos: que é nossa juventude? Ora, o que se sabe – o que sempre se soube, bem ou mal – é que a juventude foi expropriada pelo capitalismo; ele a interiorizou, a transformou em mais uma engrenagem constitutiva de sua maquinaria. O capitalismo na pós-modernidade engloba tudo, engole implacavelmente toda a vida que, por sua vez, torna-se objeto exclusivo do capital. Ele nos roubou até mesmo o ato de criar, a criatividade foi também interiorizada pelo capitalismo e direcionada ao consumo: a criação é a propaganda, o marketing e a publicidade.

O que diabos fez o capitalismo com nossa juventude? Ele a transformou em mercadoria, ele a coisificou; Marx estará sempre certo ao apontar para os mecanismos do capital que transformam a vida em mercadoria. A juventude bem como a vida passa a constituir coisas das quais o capitalismo extrai a força necessária ao seu desenvolvimento. No capitalismo, a juventude não tem outro fim que não servir ao capital. Onde encontramos a juventude? Numa embalagem de  achocolatado ou de refrigernate, nas boy banbs da indústria cultural, nas espetaculazirações das novelas televisivas, nas revistas de moda, nos slogans das grandes corporações etc. Como tudo na pós-modernidade, a juventude se dissolveu em caracteres fragmentados, em lixo, em item de uma prateleria de supermercado: consome-se juventude quando se assisti a um filme juvenil (Crepúsculo, por exemplo), ou quando se compra uma roupa ou um tênis – uma juventude que não vale a pena ser vivida, afinal. O capitalismo não se contenta em produzir mercadorias, mas em produzir a própria vida enquanto mercadoria. Nesse caso, trata-se de vender modos de vida, de pensamento – vida enlatada no processo de consumo massificado; é a vida para o consumo, como dir-nos-á Bauman.

Esse movimento apropriador do capital, que se apropria da vida para submetê-la às leis do mercado, à massificação dos modos de viver, à lógica do espetáculo da mercadoria, agrava-se e torna a vida cada vez mais doente, cada vez mais horrível. Tanto na legalidade quanto na ilegalidade o capitalismo participa e funciona – ele não pode deixar de funcionar. Quiçá seja daí que venha a irracionalidade da máquina capitalista, que nada tem a ver com uma negação da racionalidade no capitalismo. Como diz Deleuze “o racional é sempre a racionalidade de um irracional”, logo, antes do irracional refutar o racional, ele o supõe, “no fundo de toda razão, o delírio, a deriva”. Não devemos nos espantar quando percebemos o quão demente são os mecanismos capitalistas, ao contrário, é “precisamente por serem simultaneamente dementes e funcionarem muito bem” que devemos nos espantar.

Embora a pós-modernidade esteja aí para reprimir as máquinas desejantes, entregando a juventude ao consumo patológico, penso ainda ser possível compor músicas alegres. Um piano muito tímido ainda toca em meio às explosões e tiros de metralhadora, quebrando essa harmonia grotesca, de corpos caindo, de gente morrendo, de sangue sendo derramado aos litros. Os focos de resistência são como uma pequena e tímida esperança de dias vindouros. Toda sociedade possui suas linhas de fuga, mesmo que essas linhas de fuga não sejam facilmente percebidas ou estejam em perigo de serem contidas pelos movimentos apropriadores. O que não pode de modo algum ocorrer, é entender aquilo que se sabe sobre o atual estado de coisas como justificativa para novos conformismos e resignações. Não há fatalismo. Deixar-se subjugar, curvar-se diante dos poderes e aceitar toda sujeição, tudo isso é atitude dos fracos de espírito, dos que já estão demasiado enfermos para modificar o estado deplorável de suas vidas.

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