Loucura

Publicado: 4 de março de 2012 por Bárbara em Diversos
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“A formação delirante que julgamos ser uma produção patológica é, na verdade, uma tentativa de cura, um processo de reconstrução.” Freud: O Caso Schreber

“A loucura é uma ilha perdida no oceano da razão.” Machado de Assis

Loucura?

Segundo o dicionário Houssais, loucura é o distúrbio ou alteração mental caracterizada pelo afastamento do indivíduo de seus métodos habituais de pensar, sentir e agir. Entretanto, a loucura abrange várias ciências, tendo para cada uma delas uma interpretação. Freud, ao estudar psicanálise, afirmou que a loucura existe em cada um de nós e está escondida em nosso subconsciente, e os chamados loucos são aqueles que não conseguiram vencer a luta constante que todos nós temos contra o subconsciente. Para ele, não é preciso opor a loucura da normalidade, já que esta é uma tentativa de cura para os que sucumbiram nessa luta, e deve ser ouvida ao invés de reprimida por meio de medicação. Hoje em dia na medicina – mais especificamente, na psiquiatria – um indivíduo diagnosticado com, por exemplo, Esquizofrenia, deve imediatamente ser submetido à um tratamento envolvendo medicamentos e acompanhamento psicológico. 

Como saber se nós somos normais? Quem é que definiu o significado da palavra normal, afinal? Seria um louco?

Nós mesmos vivemos em um mundo louco. Pais matam seus filhos, filhos matam seus pais, adolescentes matam seus amigos na escola. A violência e a corrupção cercam nossas casas como muros de concreto, e nós vivemos dentro dessa sociedade maldita como se isso fosse normal. A censura está voltando disfarçadamente, querendo invadir a internet, os jogos de videogame, a programação da tevê – querem proibir até mesmo o ato de dar dinheiro aos artistas de rua. Somos como peças de xadrez humanas, jogando o jogo da vida – vida tão louca essa, que muitas vezes a questionamos como quem não a entende. Coisa de louco?

O termo loucura é muito abrangente. Uma pessoa feliz demais pode ser chamada de louca, assim como uma pessoa triste demais também pode ser chamada de louca. Eu, particularmente, faço das palavras de Freud as minhas: A loucura existe em cada um de nós.

“Assim que nascemos, choramos por nos vermos neste imenso palco de loucos.” William Shakespeare

Doenças Mentais

As doenças mentais afetam pelo menos 20% da população mundial, e alguma pessoa, em alguma parte de sua vida, pode se deparar com ela – seja por meio de algum conhecido, parente ou até mesmo adquirindo-a. É preciso deixar de lado o preconceito, pois existe uma infinidade de doenças mentais – e muitas vezes nem o próprio paciente percebe que a possui. As mais comuns se dividem em um grupo de cinco: Depressão, Distúrbio de ansiedade generalizado, distúrbio do pânico, transtorno bipolar e esquizofrenia. Me aprofundarei em duas dessas doenças, que aliás sempre me chamaram a atenção.

Depressão

Há muito tempo que venho querendo escrever uma matéria sobre a depressão, até porque eu mesma já passei por isso. A depressão, ao contrário do que muitos pensam, não é apenas o fato de sentir-se triste. Tristeza é um sentimento normal que faz parte de todos os seres humanos, e diferencia-se da depressão por ser um sentimento passageiro. A depressão é o sentimento da tristeza prolongado, muitas vezes sem motivo aparente – apesar de ser consequência de qualquer tipo de trauma, ou acontecimentos que deixem o paciente infeliz. Esse sentimento de tristeza é constante e desproporcional, podendo se agravar por motivos irrelevantes, mas que para o paciente é algo que o invalida totalmente. A tristeza vem acompanhada de sentimento de invalidez, no qual o indivíduo não sente vontade de realizar as tarefas mais simples e rotineiras, como tomar banho, ir trabalhar ou à escola. 

Quando eu sofri de depressão, tive muita sorte por conta dos meus amigos. Eles estavam do meu lado todos os dias, me reconfortando e me ajudando a recuperar. Tinham dias em que eu me irritava por qualquer coisa, era mal educada com os meus amigos e muitas vezes agressiva – um dia, joguei uma cadeira em uma colega minha! – Eu chorava quase todos os dias pelos motivos mais bobos, e qualquer coisa que dava errado era o fim da linha. O dia em que eu tive a infelicidade de jogar uma cadeira na minha própria colega foi justamente o dia em que eu me senti mais humilhada por minhas próprias atitudes, e foi aí que resolvi procurar ajuda. Hoje em dia, eu estou completamente recuperada – não tomo remédios, não vou ao psicólogo e tenho uma vida muito feliz!

Um filme interessante que aborda esse assunto em adolescentes é “O silêncio de Melinda”, estrelando Kristen Stweart antes da fama. A história baseia-se em uma adolescente que é isolada pelos amigos pelo fato de ter chamado a polícia em uma festa, acabando com a mesma. Mas o que ninguém sabe é o motivo dela ter feito isso. Melinda para de falar e se fecha para o mundo como uma maneira de lidar com o que aconteceu naquela noite.


Outro filme interessante é o “Geração Prozac” com Elizabeth Wurtzel. A história se baseia no uso indiscriminado do Prozac (medicamento para depressão), além de focar também no desequilibrado convívio familiar da protagonista, que é uma das causas para a doença.

O filme “As horas” apresenta histórias paralelas de três mulheres em épocas diferentes, relacionadas de algum modo com a obra de Virgínia Woolf. Uma é a própria escritora  (interpretada por Nicole Kidman) em 1923, lutando contra a loucura e o tédio de viver no subúrbio londrino enquanto escreve Mrs. Dalloway. Outra é a angustiada Laura Brown (Juliane Moore), dedicada dona-de-casa do período pós-guerra e fã de Virginia Woolf; e a terceira, uma mulher moderna e contemporânea, Clarissa Vaughan (Meryl Streep), que apesar de demonstrar aparente independência, permanece presa a seu passado.

A depressão deve ser levada a sério, principalmente por causa de suas consequências – que em grande parte dos casos, são trágicas – como o suicídio e a prática no Cutting (na matéria O livro das mentiras, eu me aprofundo nesse assunto).

“Eu consigo calcular o movimento dos corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas.” Isaac Newton

Esquizofrenia

Imagina se a sua realidade fosse esta: Escutar vozes gritando e te dizendo o que fazer, risadas histéricas, ver vultos e pessoas que já morreram – ou até um ser desconhecido – ou viver fugindo de alguém que está te perseguindo! A esquizofrenia é a perda de contato com a realidade, sendo acompanhada de alucinações, delírios, alteração de desempenho e motivação diminuída. Ela desenvolve-se gradualmente, de maneira que muitas pessoas passam anos sem perceber que há algo de errado, apesar de também haver casos de esquizofrenia em que a doença se desenvolve com uma velocidade assustadora. Isso acontece porque há vários tipos de esquizofrenia – a doença em si é um conjunto de doenças relacionadas, causadas por um mesmo fator ou por fatores diversos. Eu, pessoalmente, acho uma doença fascinante, por alterar a realidade do paciente. Ele passa a viver em um mundo diferente, com criaturas diferentes, sons diferentes – e torna-se um personagem de sua própria fantasia. É claro que é uma tragédia, porque o esquizofrênico – dependendo do seu grau de lucidez – perde seu contato com o mundo real, e se não tratado, pode cometer suicídio ou até homicídio.


Eu não poderia falar sobre a Esquizofrenia sem citar um dos meus filmes prediletos: “Uma mente brilhante”, estrelando Russell Crowe. A história se baseia em Josh Nash, que apesar de ser extremamente inteligente, é também esquizofrênico. A história verídica ganhou maior notoriedade pelo fato do personagem central ser um dos grandes matemáticos do século XX.

Outro filme sensacional estrelado por Leonardo DiCaprio, é “A ilha do medo”. Focado principalmente no terror psicológico, o filme conta a história de Teddy Daniels, que investiga o desaparecimento de uma paciente de um hospital psiquiátrico, localizado na própria “Ilha do medo”.


Entrar na mente de uma pessoa que sofre de qualquer tipo de doença mental e tentar entendê-la é uma tarefa complicada. É preciso saber compreendê-los da melhor forma possível, além de ter força de vontade para ajudá-los. Possuir alguma dessas doenças também não é nada fácil, mas é preciso ter em mente que é possível ter uma vida normal com os tratamentos certos. O que não vale é querer desistir – Olha só para mim, depois de passar por épocas terríveis sofrendo com depressão, hoje estou escrevendo sobre ela como se fosse uma velha amiga. O fato é que a doença me ajudou a ver o mundo de outra forma, me mostrou quem são meus amigos de verdade e principalmente, me fez dar valor à minha vida!

De volta à loucura desse nosso mundo…

Choremos por sermos todos loucos, cidadãos… Ou demos graças por não sermos tão normais! Apesar de tudo, uma coisa é certa: Mesmo estando presa no subconsciente, a loucura vez ou outra dá uma escapulida ligeira pelo nosso ouvido.
E termino essa matéria com um de meus poemas prediletos, escrito pelo mestre Mario Quintana:

Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo!

Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! 

Eu vou me matar! Eu quero viver!

– Você é louco?

– Não, sou poeta.


                                                                                                                                                           Bárbara Amaral

comentários
  1. felipemp93 disse:

    Poderia falar MUITA coisa do teu post, pois eu estudo (sozinho e muito) psicopatologias e psicologia. Mas quero deixar apenas uma citação de “Humano, Demasiado Humano” de Nietzsche:

    “As naturezas divergentes são da maior importância onde deve haver progresso.”

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