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Devaneando… Filosofia, Arte, Vida.

Publicado: 19 de agosto de 2012 por Rico em Rico
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      O que há de tão encantador na literatura, ou nas artes em geral, para que ela ultrapasse a filosofia em brilho? Acontece, muito frequentemente, de sermos capazes de emitir o juízo “este romance é belo”, e de não sermos capazes de emití-lo no caso de um livro de filosofia. Nesse caso, dizemos “este livro é sério”, “este livro é intrincado” ou ainda “este livro é difícil”. Acontece, outrossim, que um livro de literatura pode ser “sério”, “intrincado” e “difícil” (o uso das aspas aqui deve ser levado em consideração) – ou alguém duvida que Crime e castigo é talvez um dos livros mais difíceis da alta literatura? “Sério”, “intrincado” e “difícil” (volto a insistir na importância das aspas) não tanto pela técnica empregada ou inventada, pela erudição e riqueca léxica, mas pelo própro objeto ou objetos que a o romance busca dar conta: o livro de Dostoiévski será sempre “sério”, “difícil” e “intrincado” dada a sua temática austera, a saber, a moral, a superação da moral, a elevação do homem etc.

      Por que não somos capazes de sentir esteticamente um livro de filosofia? As páginas de Platão não podem ser belas? As páginas de Nietzsche não podem emocionar? A filosofia seria, portanto, essa monstruosidade não-estética par excellence? Duvido que assim seja. Todavia, dou um grau de razão aos que assim pensam – justifico-me. Nietzsche identifica, na Segunda Consideração Extemporânea, o mal que assola a filosofia: ela afastou-se da vida quando recolheu-se às cátedras, aos gabinetes dos professores, e tornou-se erudita; passou a fazer história – “história da filosofia”. Desse modo, a literatura estaria algo mais próximo da vida, algo mais cintilante nesse sentido, concreto; e a filosofia teria, por sua vez, perdido aquilo que lhe era mais precioso: o mundo. A literatura jamais perdeu o mundo, ela está no mundo, é imanente (preciso lembrar os escritores americanos?), enquanto que a filosofia refugiou-se na transcendência, no universal abstrato.

      Por isso imaginamos que a literatura é capaz de produzir afetos; já a filosofia nada mais é do que uma velha gagá vomitando um amontoado de “fatos históricos”, ou conceitos, sem a menor realidade. Mas e se a literatura, hoje, também estiver perdendo o mundo? A partir do momento em que o artista participa da roleta russa do mercado, a literatura torna-se a puta das editoras. O escritor, mero produto. Então, ela perde o mundo porque seu intuito não é falar do mundo, gozar o mundo, cantar o mundo, mas vender, e vender é o meio contemporâneo de apagar o mundo e instaurar o reino do vazio bocejante do dinheiro. Assim, já não há mais grande diferença entre filosofia e literatura: ambas são niilistas, e portanto negam a vida.

      Existe, contudo, força o bastante na arte e na filosofia para reclamarem para si esse mundo que lhes fora arrancado; ora, não há como não se emocionar com as belíssimas páginas de Deleuze sobre Espinosa, cheias de afetos. Diálogos, livro que Deleuze escreve a dois, é um dos livros mais bonitos que já li em toda minha vida. Deleuze é um filósofo, professor, acadêmico… que emociona – ele escreve por e com amor. E não ouso evocar aqui Nietzsche, basta citar seu Zaratustra, livro musical e belo. Há muita alegria e afirmação nos livros de filosofia, o problema é que nos esquecemos disso e nos tornamos idiotas de sensibilidade atrofiada; diz Pessoa, e como é lindo os seus dizeres: “o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.” A filosofia também pode ser estética. Mesmo Kant ou Hegel, arrisco, podem ser belos, pois o movimento do conceito é tal qual os movimentos de uma sinfonia. Zaratustra tem pés de dançarino – como Dionísio. Não há diferença entre Bergson e Beethoven, a não ser, é claro, de plano, de devires, de agenciamentos. Lucrécio é maravilhoso e Hume é elegante e suave. Esqueçamos essa seriadade erudita que afugenta os devires, deixemo-nos levar pelo movimento do conceito; um livro de filosofia que não nos toca como uma música ou uma pintura não é um bom livro – é perverso, é vil. Só precisamos, e disso estou bem seguro, de embriaguês… embriaguês, meus confrades!

Juventude: Pós-modernidade e Capitalismo

Publicado: 23 de fevereiro de 2012 por Rico em Rico
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Encaro uma difícil tarefa. Como escrever sobre a juventude contemporânea sem cair nos clichês que tanto prejudicam o exercício ativo do pensamento? Como reclamar uma juventude intempestiva, alegre, afirmativa, sem parecer um cristão tapado desejando o retorno das velhas tábuas de valores? Em suma, como falar da juventude sem ocupar um lugar privilegiado no conservadorismo, no nosso pequeno fascismo tupiniquim? O cristianismo está tão enraizado em nós, em nossa cultura, em nosso inconsciente, que fica difícil expurgá-lo. Dizer que a juventude está como está porque os valores da tradição estão se degenerando é tão babaca quanto afirmar que está tudo bem. A pergunta é sempre a mesma: como fazer isso de outra maneira? Tentamos, apesar de todas as dificuldades. O escritor nunca escreve sobre uma página em branco, toda página está inundada de clichês dos quais o escritor precisa escapar, pois só assim lhe é permitido criar.

Não ousamos pensar na juventude como um período onde a inventividade conquista o seu apogeu. A idéia de juventude como “época de ouro para a criação”, onde tudo aflora, as grandes mudanças acontecem, a criatividade canta, o desejo de novos ares transgride as fronteiras da individualidade para se ver  expresso numa coletividade dançante, já não existe mais, agora é outra idéia que se tem da juventude, bem como a própria juventude, sendo tomada por essa ideia nova, assume-se como coisa diversa. Não se trata aqui de uma descoberta alegre, mas antes, de um derradeiro diagnóstico. Seria justo perguntarmos: que é nossa juventude? Ora, o que se sabe – o que sempre se soube, bem ou mal – é que a juventude foi expropriada pelo capitalismo; ele a interiorizou, a transformou em mais uma engrenagem constitutiva de sua maquinaria. O capitalismo na pós-modernidade engloba tudo, engole implacavelmente toda a vida que, por sua vez, torna-se objeto exclusivo do capital. Ele nos roubou até mesmo o ato de criar, a criatividade foi também interiorizada pelo capitalismo e direcionada ao consumo: a criação é a propaganda, o marketing e a publicidade.

O que diabos fez o capitalismo com nossa juventude? Ele a transformou em mercadoria, ele a coisificou; Marx estará sempre certo ao apontar para os mecanismos do capital que transformam a vida em mercadoria. A juventude bem como a vida passa a constituir coisas das quais o capitalismo extrai a força necessária ao seu desenvolvimento. No capitalismo, a juventude não tem outro fim que não servir ao capital. Onde encontramos a juventude? Numa embalagem de  achocolatado ou de refrigernate, nas boy banbs da indústria cultural, nas espetaculazirações das novelas televisivas, nas revistas de moda, nos slogans das grandes corporações etc. Como tudo na pós-modernidade, a juventude se dissolveu em caracteres fragmentados, em lixo, em item de uma prateleria de supermercado: consome-se juventude quando se assisti a um filme juvenil (Crepúsculo, por exemplo), ou quando se compra uma roupa ou um tênis – uma juventude que não vale a pena ser vivida, afinal. O capitalismo não se contenta em produzir mercadorias, mas em produzir a própria vida enquanto mercadoria. Nesse caso, trata-se de vender modos de vida, de pensamento – vida enlatada no processo de consumo massificado; é a vida para o consumo, como dir-nos-á Bauman.

Esse movimento apropriador do capital, que se apropria da vida para submetê-la às leis do mercado, à massificação dos modos de viver, à lógica do espetáculo da mercadoria, agrava-se e torna a vida cada vez mais doente, cada vez mais horrível. Tanto na legalidade quanto na ilegalidade o capitalismo participa e funciona – ele não pode deixar de funcionar. Quiçá seja daí que venha a irracionalidade da máquina capitalista, que nada tem a ver com uma negação da racionalidade no capitalismo. Como diz Deleuze “o racional é sempre a racionalidade de um irracional”, logo, antes do irracional refutar o racional, ele o supõe, “no fundo de toda razão, o delírio, a deriva”. Não devemos nos espantar quando percebemos o quão demente são os mecanismos capitalistas, ao contrário, é “precisamente por serem simultaneamente dementes e funcionarem muito bem” que devemos nos espantar.

Embora a pós-modernidade esteja aí para reprimir as máquinas desejantes, entregando a juventude ao consumo patológico, penso ainda ser possível compor músicas alegres. Um piano muito tímido ainda toca em meio às explosões e tiros de metralhadora, quebrando essa harmonia grotesca, de corpos caindo, de gente morrendo, de sangue sendo derramado aos litros. Os focos de resistência são como uma pequena e tímida esperança de dias vindouros. Toda sociedade possui suas linhas de fuga, mesmo que essas linhas de fuga não sejam facilmente percebidas ou estejam em perigo de serem contidas pelos movimentos apropriadores. O que não pode de modo algum ocorrer, é entender aquilo que se sabe sobre o atual estado de coisas como justificativa para novos conformismos e resignações. Não há fatalismo. Deixar-se subjugar, curvar-se diante dos poderes e aceitar toda sujeição, tudo isso é atitude dos fracos de espírito, dos que já estão demasiado enfermos para modificar o estado deplorável de suas vidas.

“O essencial são os intercessores.

A criação são os intercessores.

Sem eles não há obra.”

(Deleuze)

Ser sensível às forças que compõem o nosso presente é, do ponto de vista da renovação dos paradigmas teóricos, o que falta ao pensador contemporâneo, principalmente porque da renovação dos paradigmas teóricos segue-se renovações práticas, ligadas às atividades afirmativas e produtoras de si (estética da existência e resistência). Dir-se-á que o trabalho teórico ou conceitual está intimamente ligado à ação, não como o seu oposto dialético, pelo qual deveríamos passar até chegarmos à prática, como se a prática, por sua vez, fosse tão-somente a aplicação da teoria, mas que compõe-se com ela, que faz bloco, um bloco de devir, numa relação que já não é mais dialética; daí Deleuze poder falar em “ações de teoria”. Guaratuba, dia quente, muito quente, os termômetros beiram aos 34º, com sensação térmica superior a 2º – e eu no PC, “nerdiando”, como dizem; mesmo me sentindo mal com a temperatura absurdamente elevada, fui à cozinha preparar uma xícara de chá, gosto que adquiri há muitos anos atrás, quando ainda garoto. Para chegar à cozinha, no entanto, tenho que passar pela sala, onde fica a TV coletiva da casa. Foi o que fiz, e algo que passava na TV chamou-me a atenção sobremaneira. Como muitos sabem, não sou um entusiasta da mídia televisiva e por isso evito assistir aos programas que passam nessa “caixinha mágica” à qual deram um nome tão sugestivo – televisão. Mas às vezes o pensador expõe-se a intercessores os mais inusitados, cabendo a ele “ir na onda”. Passava, na hora, uma matéria sobre um dentista que fora assassinado num assalto à mão armada, num daqueles telejornais espetaculares – refiro-me, evidentemente, ao conceito de espetáculo do pensador situacionista Guy Dibord, por isso, não confundam. O nome do telejornal? Brasil Urgente, apresentado pelo Datena. Não bastou ao dentista entregar aos assaltantes tudo o que eles queriam e sem opor-lhes a menor resistência. Assim que entregou sua carteira, fora baleado no peito. Tiro fatal. Datena (detalhe notado por mim: ele parece mais um narrador de futebol do que um apresentador de telejornal propriamente dito) comentava à seu modo – desnecessariamente efusivo, dramático, espetacular, moralista, sensacionalista etc. – o acontecimento.

Direcionei minha atenção à TV no exato momento em que Datena dava, aos que o acusavam de sensacionalista, uma resposta digna de nota (não por sua grandiloquência, mas por sua plena exiguidade). Sua réplica bastava-se à velha falácia da empatia: colocar-se no lugar de quem sofre, imaginar-se sofrendo na dor do outro, para então reconhecer a verdade desse sofrimento. Dizia ele que aqueles que defendiam criminosos – não sei exatamente a quem ele se referia, talvez aos humanistas, mas essa é uma suposição minha – deveriam se imaginar sendo assaltados, levando tiros na boca e na cabeça (palavras do Datena); só assim eles dar-se-iam conta de que criminosos não são defensáveis – a não ser por advogados, já que, para o apresentador de telejornal, “mesmo os vilões mais vis têm direito à defesa” – e que devem ser punidos com o rigor da Lei: “pois é, nunca pensei que isso fosse acontecer comigo”, lamenta o outrora defensor da criminalidade que agora, tendo visto a verdade, tendo tomado consciência de seu equívoco, acaba por concordar que criminosos deveriam ser punidos pela lei, tal como eles merecem, ou seja, irem direto para a prisão, de acordo com seus crimes hediondos.  Depois de apresentar sua réplica, Datena começa a reclamar da ineficácia do Código Penal, aponta para a sua eminente degeneração, critica o abrandamento de pena e a soltura, sob certas circunstâncias jurídicas, de criminosos de alta periculosidade. Exige um reforçamento do Código Penal através de leis mais rígidas, exige, outrossim, aos políticos, a criação de projetos de lei que vão nesse sentido, de modo que, para Datena, até mesmo a pena de morte, juntamente com a prisão perpétua, torna-se interessante. Eu diria que Datena, ou melhor, o acontecmiento-Datena, dá à constatação nietzscheana segundo o qual o Direito, invadido pelas forças reativas e pelo ressentimento, faz mergulhar na indistinção a vontade-de-vingança e a vontade-de-justiça, uma atualidade sem precedentes.

Pensar a contemporaneidade em termos não mais modernos, mas “pós-modernos” nos exige, de início, um deslocamento com relação ao aparato teórico-crítico com o qual, em nossas incursões pelos diversos âmbitos do saber, estamos acostumados. Aqueles críticos que se vituperam contra o Datena, que dizem ser ele um estupendo bobalhão, sensacionalista, reacionário, moralista, entre tantas outras coisas, ainda que tenham razão em suas graves palavras, não alcançam a verdadeira questão – a questão do nosso tempo. Dizer, por exemplo, que este ou aquele político, apresentador, jornalista, entre outras figuras públicas ou privadas, é reacionário tornou-se um chavão da Esquerda; do mesmo modo, criticar o sensacionalismo midiático – não duvidemos, apesar de tudo, de sua realidade – tornou-se um recurso, imerso numa lógica narcisista por excelência, de jornalistas ressentidos e revoltos com sua falta de notoriedade. Trata-se, num caso ou no outro, de categorias críticas tão anacrônicas que já não mais significam, elas não nos dizem absolutamente nada, palavras esvaziadas de sentido. Faz-se preciso, então, encontrar outros meios de levar à diante a tarefa crítica, que não pode, sob pena de perdermos os movimentos insólitos do nosso tempo, sejam eles negativos (os investimentos de saber-poder sobre a subjetividade, atrelados aos mecanismos capitalistas) ou positivos (os focos de resistência), ser interrompida. A crítica não perde sua força devido à defasagem de antigos conceitos que a compunham, pois como tudo em filosofia, ou em qualquer outro saber, basta que se criem novos conceitos para que a crítica, aí, recupere o fôlego: biopolítica, biopotência, linhas de fuga, máquina de guerra, agenciamentos coletivos de enunciação e agenciamentos maquínicos de desejo, multidão, neuromagma, etc. Todos conceitos voltados para o pensamento do presente.

Insistamos um pouco mais no acontecimento-Datena, a fim de verificar o quanto ele ainda nos serve como intercessor. Há algumas décadas atrás Foucault rastreou a passagem de um modelo societal definido pela soberania a um outro modelo, agora definido pela disciplina. São as chamadas sociedades disciplinares com seus grandes meios de confinamento. Mas as sociedades disciplinares, como as sociedades soberanas, não durariam ad aeternum, pois não são formações históricas estáticas, imutáveis ou eternas. Assim as sociedades disciplinares tenderiam a desaparecer, donde se seguiria uma nova transição, vinda das novas forças em curso e das quais resultaria a reconfiguração do socius: “sociedades disciplinares é o que já não éramos mais, o que deixávamos de ser” (DELEUZE, 1992, p. 220). Passamos, segundo Deleuze leitor de Foucault, das sociedades disciplinares às sociedades de controle, que funcionam segundo técnicas muito próprias e originais. Ela abole o confinamento e funciona “ao ar livre”. É certo, todavia, que as sociedades de controle carregam, em seu bojo, aspectos decisivos das antigas sociedades disciplinares que aparecem agora como “o limite, o escândalo ou a contradição” (FOUCAULT, 1988, 130). De outro modo, dir-se-ia também que as sociedades de controle não abolem absolutamente a disciplina, mas a adaptam aos seus novos mecanismos de controle do corpo, da subjetividade e da vida. Não percamos isto de vista. Quando Datena protesta contra a fragilidade do Código Penal e reclama uma rigidificação das leis, ele anuncia, malgrado seu, a falência das instituições e dos modelos de confinamento das sociedades disciplinares.

Segundo o diagnóstico deleuzeano “encontramo-nos numa crise generalizada de todos os meios de confinamento, prisão, hospital, fábrica, escola, família” (DELEUZE, 1992, p. 220). Ora, o discurso do Datena reporta-nos a essa falência progressiva das instituições disciplinares e dos meios de confinamento de que fala Deleuze. Abrandamento de pena, redução de pena por bom comportamento, prisão em regime semi-aberto, coleira eletrônica etc., tais signos devem ser lidos sob a lógica de uma abertura dos espaços de confinamento, abertura da qual resultaria a impossibilidade crescente de distinguir o dentro e o fora: talvez seja essa a razão de Toni Negri afirmar que agora é a própria vida que é prisão, pois, como bem diz Pélbart, acerca do sentido da fala do intelectual italiano, “ele afirma, surpreendentemente, não existir uma diferença tão essencial entre a prisão e o resto da vida” (PÉLBART, 2000, p. 26). Mas aí, também, vale relembrar Pélbart, noutro ponto: é prisão, sim, mas também é fábrica, caserna, escola, família, hospital etc. Datena é um reformista, e, como tal, exige meios de manutenção e de operação adequados ao modelo disciplinar. Mas como fazer isso num contexto biopolítico no qual as antigas formas se liquefazem? As instituições estão condenadas, nada pode ser feito, pois não há mais espaço para as sociedades disciplinares. O importante, atualmente, é o controle e suas novas tecnologias, não a disciplina. Os gritos desvairados de Datena e de seus discípulos, é preciso entender, já não podem mais serem ouvidos: soam-nos fracos, como que vindos de gargantas desgastadas, que por pouco não são capazes de emitir som algum. Não haverá um retorno ao antigo modelo societal, pois não há, nunca, retorno – nada retorna, de modo que o Eterno Retorno do Mesmo não passa de um conto da carochinha e seus arautos um grupelho de medíocres.

As sociedades disciplinares não dão conta das condições do nosso tempo porque pertencem a um tempo que não é o nosso, as novas gerações não conhecem disciplina, a ditadura, a fábrica, a exploração mal disfarçada, a escola – e seus castigos e punições que não marcavam apenas a alma, mas o corpo infantil (a antiga palmatória, por exemplo) -, senão, é claro, pelas histórias que ouvem ou que lêem nos livros. As imagens que circulam pelo Youtube e outros sites na internet, de soldados e/ou policiais dançando, bebendo, ou, como no caso do PM que “enrrabou” uma pobre e indefesa estátua de uma vaca em SC, mostram que o regime disciplinar vem fraquejando mesmo num espaço que, outrora, era reconhecido, justamente, pela sua dura disciplinaridade: hierarquia e disciplina dos quartéis. Assim, podemos fazer um quadro, ainda que caricatural, da sociedade contemporânea e de suas linhas de fuga, bem como de suas desterritorializações e reterritorializações nômades. Datena é um saudosista da disciplina: “ah, bons tempos aqueles…”. Podemos imaginá-lo dizendo a si mesmo tais palavras, suspirando sorumbático. E se ele nos importa, é como sintoma, como signo de uma mudança, de um devir social. Mesmo os imbecis podem servir como signos de novos ventos, vindos de outras direções que não aquelas as quais estamos tão bem acostumados.

 

 

Bibliografia:

 

DELEUZE, G. Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.

FOUCAULT, M. História da sexualidade vol. I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1988.

PÉLBART, P. Vertigem por um fio: políticas da subjetividade contemporânea. São Paulo: Ed. Iluminuras Ltda., 2000.