Eu queria desafinar há tempos

Publicado: 3 de junho de 2012 por Blue em Diversos

Sobre os dois shows da Legião Urbana em São Paulo, ou ainda, o que sobrou da banda – texto de Bruno Scuissiatto

Manuel Bandeira em seu memorável poema Evocação do Recife, escreve um dos versos mais contundentes para entender o sentimento da lembrança daquilo que não temos mais – nunca pensei que ela acabasse/ tudo lá parecia impregnado de eternidade. É um dos poucos versos lembrados por mim, talvez um equívoco da nada generosa natureza, mas entre saber versos ou lê-los, sou mais o folhear das páginas. Em semana que a poesia brasileira recebeu a notícia do recebimento do Prêmio Casa das Américas, pelo poeta Manoel de Barros, pela obra “Poesia Completa”, também tivemos um outro acontecimento, este com muito mais destaque.

Os dois shows da Legião Urbana em São Paulo, ou ainda, o que sobrou da banda, segundo alguns dos muitos comentários sobre a noite do último dia 30 de maio. A unanimidade é passageira, alterando um pouco do sentido atribuído por Nelson Rodrigues. Um dos argumentos mais usados na internet colocou o tom do “stand up virtual” nas redes sociais. “Pede pra sair Capitão”, “Não vai cantar ninguém”, “Vai dar Legião”, alusões ao filme Tropa de Elite, protagonista pelo personagem interpretado por Wagner Moura.

O tom da crítica partiu principalmente de quem escutou a banda liderada por Renato Russo e tem a sua relação de propriedade intocável com o estoque de canções na voz do líder, falecido há mais de 15 anos. Lembro muito bem da manhã seguinte a morte do vocalista, naqueles idos a informação era muito mais humilde, portanto que somente no pátio do colégio, durante ao recreio, soube da perda. Um menino e duas meninas cantavam “Há tempos”, no chão, três camisetas da Legião Urbana, os acordes um tanto mascados, e aos poucos até mesmo quem nunca tinha ouvido a banda, parou – um dos meninos que assistia, disse alguma coisa do tipo: “toca Kurt”, lembro de chegar em casa e contar para meu pai sobre isso, e ele dizer: só existe Raul.

No dia em que a banda acabou, não na coletiva concedida por Dado e Bonfá dias após a morte de Renato, mas naquela mesma manhã, com praticamente um dia de atraso no pátio do colégio. Ali, meu conhecimento sobre a banda era primário, “As quatro estações”, ainda em vinil, gastando os últimos giros da bolacha, para depois reencontrar o mesmo disco em cd, assim como toda a obra da Legião. Através das letras da banda, ganhei espaço para pensar na vida, filosofando sem saber direito o uso da primeira pessoa em muitas composições, conheci outras bandas de Brasília, descobri que o “hey ho let´s go”, e a cena punk do exterior.

Desconfio que a Legião foi a minha rede social cultural inicial, hoje procuro na grande rede vídeos antigos, passagens inéditas, nada como encontrar imagens da banda, como no clipe “Angra dos Reis”, de fotografia impecável.

O apego com a sonoridade da voz de Renato é única, orgulho ou pieguice de fã, invejo de forma branca o Wagner Moura – não pelo exímio ator que é, não falo do Capitão do longa de José Padilha, nem do menino de Cidade Baixa, o Olavo, do folhetim das oito, Paraíso Tropical , ou o falsário “Marcelo”, de Vips – mas daquele que transpirou no palco do Espaço das Américas, desafinou, declarou, emocionou.

O desapego da obra artística talvez seja um erro, mas como Oscar Wilde disse em prefácio do Retrato de Dorian Gray – “toda arte é inútil” – algumas coisas são mais inúteis. A catarse não foi tempo perdido.

Loucura

Publicado: 4 de março de 2012 por Bárbara em Diversos
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“A formação delirante que julgamos ser uma produção patológica é, na verdade, uma tentativa de cura, um processo de reconstrução.” Freud: O Caso Schreber

“A loucura é uma ilha perdida no oceano da razão.” Machado de Assis

Loucura?

Segundo o dicionário Houssais, loucura é o distúrbio ou alteração mental caracterizada pelo afastamento do indivíduo de seus métodos habituais de pensar, sentir e agir. Entretanto, a loucura abrange várias ciências, tendo para cada uma delas uma interpretação. Freud, ao estudar psicanálise, afirmou que a loucura existe em cada um de nós e está escondida em nosso subconsciente, e os chamados loucos são aqueles que não conseguiram vencer a luta constante que todos nós temos contra o subconsciente. Para ele, não é preciso opor a loucura da normalidade, já que esta é uma tentativa de cura para os que sucumbiram nessa luta, e deve ser ouvida ao invés de reprimida por meio de medicação. Hoje em dia na medicina – mais especificamente, na psiquiatria – um indivíduo diagnosticado com, por exemplo, Esquizofrenia, deve imediatamente ser submetido à um tratamento envolvendo medicamentos e acompanhamento psicológico. 

Como saber se nós somos normais? Quem é que definiu o significado da palavra normal, afinal? Seria um louco?

Nós mesmos vivemos em um mundo louco. Pais matam seus filhos, filhos matam seus pais, adolescentes matam seus amigos na escola. A violência e a corrupção cercam nossas casas como muros de concreto, e nós vivemos dentro dessa sociedade maldita como se isso fosse normal. A censura está voltando disfarçadamente, querendo invadir a internet, os jogos de videogame, a programação da tevê – querem proibir até mesmo o ato de dar dinheiro aos artistas de rua. Somos como peças de xadrez humanas, jogando o jogo da vida – vida tão louca essa, que muitas vezes a questionamos como quem não a entende. Coisa de louco?

O termo loucura é muito abrangente. Uma pessoa feliz demais pode ser chamada de louca, assim como uma pessoa triste demais também pode ser chamada de louca. Eu, particularmente, faço das palavras de Freud as minhas: A loucura existe em cada um de nós.

“Assim que nascemos, choramos por nos vermos neste imenso palco de loucos.” William Shakespeare

Doenças Mentais

As doenças mentais afetam pelo menos 20% da população mundial, e alguma pessoa, em alguma parte de sua vida, pode se deparar com ela – seja por meio de algum conhecido, parente ou até mesmo adquirindo-a. É preciso deixar de lado o preconceito, pois existe uma infinidade de doenças mentais – e muitas vezes nem o próprio paciente percebe que a possui. As mais comuns se dividem em um grupo de cinco: Depressão, Distúrbio de ansiedade generalizado, distúrbio do pânico, transtorno bipolar e esquizofrenia. Me aprofundarei em duas dessas doenças, que aliás sempre me chamaram a atenção.

Depressão

Há muito tempo que venho querendo escrever uma matéria sobre a depressão, até porque eu mesma já passei por isso. A depressão, ao contrário do que muitos pensam, não é apenas o fato de sentir-se triste. Tristeza é um sentimento normal que faz parte de todos os seres humanos, e diferencia-se da depressão por ser um sentimento passageiro. A depressão é o sentimento da tristeza prolongado, muitas vezes sem motivo aparente – apesar de ser consequência de qualquer tipo de trauma, ou acontecimentos que deixem o paciente infeliz. Esse sentimento de tristeza é constante e desproporcional, podendo se agravar por motivos irrelevantes, mas que para o paciente é algo que o invalida totalmente. A tristeza vem acompanhada de sentimento de invalidez, no qual o indivíduo não sente vontade de realizar as tarefas mais simples e rotineiras, como tomar banho, ir trabalhar ou à escola. 

Quando eu sofri de depressão, tive muita sorte por conta dos meus amigos. Eles estavam do meu lado todos os dias, me reconfortando e me ajudando a recuperar. Tinham dias em que eu me irritava por qualquer coisa, era mal educada com os meus amigos e muitas vezes agressiva – um dia, joguei uma cadeira em uma colega minha! – Eu chorava quase todos os dias pelos motivos mais bobos, e qualquer coisa que dava errado era o fim da linha. O dia em que eu tive a infelicidade de jogar uma cadeira na minha própria colega foi justamente o dia em que eu me senti mais humilhada por minhas próprias atitudes, e foi aí que resolvi procurar ajuda. Hoje em dia, eu estou completamente recuperada – não tomo remédios, não vou ao psicólogo e tenho uma vida muito feliz!

Um filme interessante que aborda esse assunto em adolescentes é “O silêncio de Melinda”, estrelando Kristen Stweart antes da fama. A história baseia-se em uma adolescente que é isolada pelos amigos pelo fato de ter chamado a polícia em uma festa, acabando com a mesma. Mas o que ninguém sabe é o motivo dela ter feito isso. Melinda para de falar e se fecha para o mundo como uma maneira de lidar com o que aconteceu naquela noite.


Outro filme interessante é o “Geração Prozac” com Elizabeth Wurtzel. A história se baseia no uso indiscriminado do Prozac (medicamento para depressão), além de focar também no desequilibrado convívio familiar da protagonista, que é uma das causas para a doença.

O filme “As horas” apresenta histórias paralelas de três mulheres em épocas diferentes, relacionadas de algum modo com a obra de Virgínia Woolf. Uma é a própria escritora  (interpretada por Nicole Kidman) em 1923, lutando contra a loucura e o tédio de viver no subúrbio londrino enquanto escreve Mrs. Dalloway. Outra é a angustiada Laura Brown (Juliane Moore), dedicada dona-de-casa do período pós-guerra e fã de Virginia Woolf; e a terceira, uma mulher moderna e contemporânea, Clarissa Vaughan (Meryl Streep), que apesar de demonstrar aparente independência, permanece presa a seu passado.

A depressão deve ser levada a sério, principalmente por causa de suas consequências – que em grande parte dos casos, são trágicas – como o suicídio e a prática no Cutting (na matéria O livro das mentiras, eu me aprofundo nesse assunto).

“Eu consigo calcular o movimento dos corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas.” Isaac Newton

Esquizofrenia

Imagina se a sua realidade fosse esta: Escutar vozes gritando e te dizendo o que fazer, risadas histéricas, ver vultos e pessoas que já morreram – ou até um ser desconhecido – ou viver fugindo de alguém que está te perseguindo! A esquizofrenia é a perda de contato com a realidade, sendo acompanhada de alucinações, delírios, alteração de desempenho e motivação diminuída. Ela desenvolve-se gradualmente, de maneira que muitas pessoas passam anos sem perceber que há algo de errado, apesar de também haver casos de esquizofrenia em que a doença se desenvolve com uma velocidade assustadora. Isso acontece porque há vários tipos de esquizofrenia – a doença em si é um conjunto de doenças relacionadas, causadas por um mesmo fator ou por fatores diversos. Eu, pessoalmente, acho uma doença fascinante, por alterar a realidade do paciente. Ele passa a viver em um mundo diferente, com criaturas diferentes, sons diferentes – e torna-se um personagem de sua própria fantasia. É claro que é uma tragédia, porque o esquizofrênico – dependendo do seu grau de lucidez – perde seu contato com o mundo real, e se não tratado, pode cometer suicídio ou até homicídio.


Eu não poderia falar sobre a Esquizofrenia sem citar um dos meus filmes prediletos: “Uma mente brilhante”, estrelando Russell Crowe. A história se baseia em Josh Nash, que apesar de ser extremamente inteligente, é também esquizofrênico. A história verídica ganhou maior notoriedade pelo fato do personagem central ser um dos grandes matemáticos do século XX.

Outro filme sensacional estrelado por Leonardo DiCaprio, é “A ilha do medo”. Focado principalmente no terror psicológico, o filme conta a história de Teddy Daniels, que investiga o desaparecimento de uma paciente de um hospital psiquiátrico, localizado na própria “Ilha do medo”.


Entrar na mente de uma pessoa que sofre de qualquer tipo de doença mental e tentar entendê-la é uma tarefa complicada. É preciso saber compreendê-los da melhor forma possível, além de ter força de vontade para ajudá-los. Possuir alguma dessas doenças também não é nada fácil, mas é preciso ter em mente que é possível ter uma vida normal com os tratamentos certos. O que não vale é querer desistir – Olha só para mim, depois de passar por épocas terríveis sofrendo com depressão, hoje estou escrevendo sobre ela como se fosse uma velha amiga. O fato é que a doença me ajudou a ver o mundo de outra forma, me mostrou quem são meus amigos de verdade e principalmente, me fez dar valor à minha vida!

De volta à loucura desse nosso mundo…

Choremos por sermos todos loucos, cidadãos… Ou demos graças por não sermos tão normais! Apesar de tudo, uma coisa é certa: Mesmo estando presa no subconsciente, a loucura vez ou outra dá uma escapulida ligeira pelo nosso ouvido.
E termino essa matéria com um de meus poemas prediletos, escrito pelo mestre Mario Quintana:

Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo!

Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! 

Eu vou me matar! Eu quero viver!

– Você é louco?

– Não, sou poeta.


                                                                                                                                                           Bárbara Amaral

Juventude: Pós-modernidade e Capitalismo

Publicado: 23 de fevereiro de 2012 por Rico em Rico
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Encaro uma difícil tarefa. Como escrever sobre a juventude contemporânea sem cair nos clichês que tanto prejudicam o exercício ativo do pensamento? Como reclamar uma juventude intempestiva, alegre, afirmativa, sem parecer um cristão tapado desejando o retorno das velhas tábuas de valores? Em suma, como falar da juventude sem ocupar um lugar privilegiado no conservadorismo, no nosso pequeno fascismo tupiniquim? O cristianismo está tão enraizado em nós, em nossa cultura, em nosso inconsciente, que fica difícil expurgá-lo. Dizer que a juventude está como está porque os valores da tradição estão se degenerando é tão babaca quanto afirmar que está tudo bem. A pergunta é sempre a mesma: como fazer isso de outra maneira? Tentamos, apesar de todas as dificuldades. O escritor nunca escreve sobre uma página em branco, toda página está inundada de clichês dos quais o escritor precisa escapar, pois só assim lhe é permitido criar.

Não ousamos pensar na juventude como um período onde a inventividade conquista o seu apogeu. A idéia de juventude como “época de ouro para a criação”, onde tudo aflora, as grandes mudanças acontecem, a criatividade canta, o desejo de novos ares transgride as fronteiras da individualidade para se ver  expresso numa coletividade dançante, já não existe mais, agora é outra idéia que se tem da juventude, bem como a própria juventude, sendo tomada por essa ideia nova, assume-se como coisa diversa. Não se trata aqui de uma descoberta alegre, mas antes, de um derradeiro diagnóstico. Seria justo perguntarmos: que é nossa juventude? Ora, o que se sabe – o que sempre se soube, bem ou mal – é que a juventude foi expropriada pelo capitalismo; ele a interiorizou, a transformou em mais uma engrenagem constitutiva de sua maquinaria. O capitalismo na pós-modernidade engloba tudo, engole implacavelmente toda a vida que, por sua vez, torna-se objeto exclusivo do capital. Ele nos roubou até mesmo o ato de criar, a criatividade foi também interiorizada pelo capitalismo e direcionada ao consumo: a criação é a propaganda, o marketing e a publicidade.

O que diabos fez o capitalismo com nossa juventude? Ele a transformou em mercadoria, ele a coisificou; Marx estará sempre certo ao apontar para os mecanismos do capital que transformam a vida em mercadoria. A juventude bem como a vida passa a constituir coisas das quais o capitalismo extrai a força necessária ao seu desenvolvimento. No capitalismo, a juventude não tem outro fim que não servir ao capital. Onde encontramos a juventude? Numa embalagem de  achocolatado ou de refrigernate, nas boy banbs da indústria cultural, nas espetaculazirações das novelas televisivas, nas revistas de moda, nos slogans das grandes corporações etc. Como tudo na pós-modernidade, a juventude se dissolveu em caracteres fragmentados, em lixo, em item de uma prateleria de supermercado: consome-se juventude quando se assisti a um filme juvenil (Crepúsculo, por exemplo), ou quando se compra uma roupa ou um tênis – uma juventude que não vale a pena ser vivida, afinal. O capitalismo não se contenta em produzir mercadorias, mas em produzir a própria vida enquanto mercadoria. Nesse caso, trata-se de vender modos de vida, de pensamento – vida enlatada no processo de consumo massificado; é a vida para o consumo, como dir-nos-á Bauman.

Esse movimento apropriador do capital, que se apropria da vida para submetê-la às leis do mercado, à massificação dos modos de viver, à lógica do espetáculo da mercadoria, agrava-se e torna a vida cada vez mais doente, cada vez mais horrível. Tanto na legalidade quanto na ilegalidade o capitalismo participa e funciona – ele não pode deixar de funcionar. Quiçá seja daí que venha a irracionalidade da máquina capitalista, que nada tem a ver com uma negação da racionalidade no capitalismo. Como diz Deleuze “o racional é sempre a racionalidade de um irracional”, logo, antes do irracional refutar o racional, ele o supõe, “no fundo de toda razão, o delírio, a deriva”. Não devemos nos espantar quando percebemos o quão demente são os mecanismos capitalistas, ao contrário, é “precisamente por serem simultaneamente dementes e funcionarem muito bem” que devemos nos espantar.

Embora a pós-modernidade esteja aí para reprimir as máquinas desejantes, entregando a juventude ao consumo patológico, penso ainda ser possível compor músicas alegres. Um piano muito tímido ainda toca em meio às explosões e tiros de metralhadora, quebrando essa harmonia grotesca, de corpos caindo, de gente morrendo, de sangue sendo derramado aos litros. Os focos de resistência são como uma pequena e tímida esperança de dias vindouros. Toda sociedade possui suas linhas de fuga, mesmo que essas linhas de fuga não sejam facilmente percebidas ou estejam em perigo de serem contidas pelos movimentos apropriadores. O que não pode de modo algum ocorrer, é entender aquilo que se sabe sobre o atual estado de coisas como justificativa para novos conformismos e resignações. Não há fatalismo. Deixar-se subjugar, curvar-se diante dos poderes e aceitar toda sujeição, tudo isso é atitude dos fracos de espírito, dos que já estão demasiado enfermos para modificar o estado deplorável de suas vidas.